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Candidato às presidenciais do Equador promete expulsar Julian Assange da embaixada em Londres

Guillermo Lasso (à direita) está em segundo lugar nas mais recentes sondagens

RODRIGO BUENDIA

Se Guillermo Lasso, o principal candidato da oposição ao governo, vencer as eleições vai dar ao fundador da WikiLeaks um mês para abandonar a representação diplomática do Equador em Londres, onde o australiano vive exilado há quase cinco anos. Lasso segue atrás do aliado de Rafael Correa nas sondagens mas deverá forçá-lo a disputar a presidência numa segunda volta

Julian Assange vai ser expulso da embaixada do Equador em Londres no espaço de um mês, a contar do dia 19 de fevereiro, se Guillermo Lasso, principal candidato da oposição, vencer as eleições presidenciais que se disputam nesse dia. Esta é a grande promessa feita pelo candidato da aliança de direita Creo-Suma, numa entrevista ao "The Guardian" publicada esta quinta-feira.

Para Lasso, já é tempo de o fundador da WikiLeaks abandonar a representação diplomática londrina, onde está a viver há quase cinco anos como forma de combater uma ordem de extradição para a Suécia. Esta, diz Assange, é uma manobra coordenada com os EUA para ser julgado e condenado no país pelas revelações do grupo de delação que fundou há mais de dez anos – e que ganhou notoriedade em 2011, quando a soldado Chelsea Manning passou a Assange dezenas de milhares de documentos secretos do Exército e do Departamento de Estado norte-americanos. "Os equatorianos estão a pagar o preço de terem de aceitar isto", condena Lasso na entrevista ao jornal britânico, feita em Quito. "Vamos cordialmente pedir ao senhor Assange que abandone [a embaixada] no prazo de 30 dias depois da tomada de posse."

Para já, essa possibilidade parece remota. A dez dias das presidenciais no Equador, Lasso surge sete pontos atrás do candidato do partido no poder, Lenín Moreno, nas mais recentes sondagens de intenção de voto. Apesar disso, o ex-banqueiro tem vindo a ganhar terreno antes da primeira ronda de votação e existe a elevada probabilidade de forçar Moreno a disputar uma segunda volta. Contudo, aponta o "The Guardian", mesmo que a Aliança País do Presidente Rafael Correa se mantenha no poder, a situação na embaixada em Londres está a tornar-se insustentável.

O atual governo continua a manter uma posição de solidariedade para com Assange, mas existe uma crescente frustração entre os funcionários da embaixada, com um diplomata a descrever um ambiente "saído de um romance [policial] de John Le Carré". "Os nossos funcionários já passaram por muito, existe um custo humano", reconhece Guillaume Long, ministro dos Negócios Estrangeiros. "Esta é provavelmente a embaixada mais monitorizada do planeta."

Assange refugiou-se na embaixada do Equador em Londres em junho de 2012

Assange refugiou-se na embaixada do Equador em Londres em junho de 2012

Carl Court/Getty Images

O edifício em Knightsbridge tem estado sob vigilância apertada da polícia e das agências secretas do Reino Unido desde que o Equador deu asilo a Assange, em junho de 2012, para impedir a extradição do australiano para a Suécia, onde as autoridades querem interrogá-lo no âmbito de um processo de agressão sexual aberto por duas mulheres contra o fundador da WikiLeaks.

O Equador aceita o argumento de Assange de que se trata de um estratagema para o conseguir entregar às autoridades dos Estados Unidos, onde deverá enfrentar o mesmo tipo de perseguição política e maus-tratos que Chelsea Manning. Há quase cinco anos que Assange não sai da embaixada. "É uma posição muito precária", diz Long. "Em termos de conforto físico temos feito tudo o que podemos, mas ele não tem acesso ao exterior. Não há nenhum páteo nem jardim, então tem passado a maior parte destes quatro anos e meio no primeiro piso do edifício em Londres, que não recebe muita luz, sobretudo no inverno", acrescenta o chefe da diplomacia equatoriana.

Um dos episódios mais tensos registados desde 2012 aconteceu durante as eleições presidenciais nore-americanas, quando o Ministério que Long dirige cortou temporariamente o acesso do australiano à internet após a WikiLeaks ter sido acusada de servir de conduto aos emails internos do Partido Democrata e do principal conselheiro de campanha de Hillary Clinton – dados que, segundo a CIA e outras agências de informação dos EUA, foram obtidos por hackers russos com ligações ao governo de Vladimir Putin e que ajudaram a ditar a derrota da candidata democrata e a eleição do empresário populista Donald Trump, que tomou posse a 20 de janeiro.

"Queríamos deixar claro que o nosso espaço de soberania não estava a ser usado para interferir nas eleições de outro país", justifica Long. O chefe da diplomacia diz nutrir simpatia por Assange mas também frustração pela lentidão das negociações judiciais com a Suécia e pela posição condenatória do governo do Reino Unido, que entre outras coisas é suspeito de estar por trás das frequentes falhas de internet e telefonia da embaixada equatoriana.

Em novembro, o processo pareceu avançar quando um procurador sueco teve acesso à embaixada para entrevistar Assange. Dois meses depois, antes de abandonar o poder, Barack Obama assinou uma ordem para que Chelsea Manning seja libertada em maio. Antes desse anúncio, Assange tinha garantido que ia entregar-se às autoridades norte-americanas caso a soldado transsexual fosse libertada "de imediato". Recentemente, o australiano reforçou essa promessa sob a condição de os direitos de Manning serem respeitados e a ordem de Obama executada.