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Vila húngara quer receber imigrantes. Mas só brancos e cristãos

CSABA SEGESVARI / AFP / Getty Images

Duas novas leis locais proíbem quaisquer formas de vestuário muçulmano, bem como gestos de afeto entre gays

Luís M. Faria

Jornalista

Àsotthalom, com cerca de 4000 habitantes, é uma pequena vila no sudeste da Hungria. Fica a três quilómetros da Sérvia, e em 2015 começou a receber um afluxo maciço de emigrantes, gerando alarme entre a população. O presidente da Câmara local Laszlo Toroczkai, eleito pelo Jobbik (extrema-direita), reagiu energicamente.

Num vídeo que então fez, viam-se polícias em carros e a cavalo a perseguir emigrantes. "Não confiem em traficantes humanos mentirosos. A Hungria é uma má escolha. Àsotthalom é a pior", dizia o político.

O vídeo foi notícia não só no país como no estrangeiro, e Toroczkai parece ter gostado da atenção. Agora, deu à BBC uma entrevista onde defende duas outras medidas que dão garantia de ser manchete. Uma é a proibição de qualquer forma de vestuário islâmico – incluindo burqa, niqab, hijab, burquíni, etc. – na sua vila, bem como do chamamento muçulmano à oração e da construção de mesquitas. Outro é a proibição de "promoção" da homossexualidade e de manifestações públicas de afeto entre gays.

Muitos comentadores notam que ambas as medidas ofendem a lei fundamental (Constituição) do país, e é provável que o governo as declare ilegais este mês, quando anunciar os resultados de uma avaliação geral desse tipo de decisões locais. Mas Toroczkai não se deixa intimidar.

Em relação à imigração, reconhece que a vila precisa de novos residentes e diz que tem prazer em acolhê-los – desde que sejam cristãos brancos. "Acolhemos primariamente pessoas da Europa Ocidental, pessoas que não gostariam de viver numa sociedade multicultural", diz ele. "Não queremos atrair muçulmanos à nossa vila".

Deter refugiados em "abrigos"

Para Toroczkai, trata-se de uma questão essencialmente cultural. "É importante para a vila preservar as suas tradições", explica. "Se um grande número de muçulmanos vier para aqui, não se conseguirão integrar na comunidade cristã. Vimos grandes comunidades muçulmanas na Europa Ocidental que não o conseguirão, e não queremos ter a mesma experiência".

No conselho municipal, a votação das duas medidas não foi unânime. Em seis membros, dois abstiveram-se e um estava ausente. Só três votaram a favor, portanto. Mas a medida é popular, a avaliar por conversas de locais com jornalistas.

Há quem note que os únicos muçulmanos na vila – há lá dois, ambos residentes há muitos anos – estão totalmente integrados e nunca incomodaram ninguém. Mas muita gente refere o medo do terrorismo, bem como o facto de os imigrantes de 2015 terem sido vistos a roubar fruta e bicicletas, e nalguns casos a entrar em casas sem autorização para carregar os seus telemóveis.

As iniciativas de Toroczkai surgem num momento em que o governo do país enfrenta abertamente a União Europeia na questão dos refugiados. A Hungria, tal como a República Checa, a Eslováquia e a Polónia, recusa aceitar a quota atribuída por Bruxelas – acolher 1294 refugiados – tendo erguido um muro de arame farpado ao longo da fronteira.

CSABA SEGESVARI / AFP / Getty Images

Há dias, o país anunciou que tenciona passar a deter todos os imigrantes e candidatos a refugiados em "abrigos", para os impedir de seguir em direção a outros países europeus. A decisão foi justificada como resposta aos abusos sistemáticos do sistema permitifo pelo espaço Schengen por parte de imigrantes, cuja verdadeira motivação será económica na maioria dos casos, não podendo portanto eles serem considerados refugiados, na perspetiva do governo.

Toroczkai resume o problema de forma mais sintética: "Gostava que a Europa pertencesse aos europeus, a Ásia aos asiáticos e a África aos americanos. É simples". Uma das pessoas que concorda com ele é Nick Griffin, antigo líder do Partido Nacional Inglês (extrema-direita) e visitante frequente de Àsotthalom. Em tempos, ele disse que a Hungria era "um lugar para escapar do inferno que está prestes a soltar-se na Europa Ocidental" e previu que muita gente iria procurar refúgio no país. Enquanto o inferno não começa, extremistas próximos dele já começaram a adquirir propriedades na zona.