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Quem é a ministra que vacilou na palavra proficiência e defende armas nas escolas

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A multimilionária Betsy DeVos passou (à justa) no exame do Senado e é a nova secretária (ministra) da Educação dos Estados Unidos. Critica a utilização de dinheiros federais para financiar o ensino, defende que seja cada estado a decidir se autoriza armas nas escolas ou não e, sobre outras questões relacionadas com o ensino, tanto o seu percurso como a sua prestação perante o Senado são, para dizer o mínimo, muito pálidos

Ninguém podia adivinhar que um cargo tão pouco dado a polémicas como o de chefiar o Ministério da Educação viesse a ser uma das grandes dores de cabeça do Congresso, de maioria republicana, neste início de mandato. Mas estes não são tempos comuns. A contestação política e civil contra vários dos homens que o Presidente norte-americano nomeou para a sua administração tem sido notória para todos menos para o Governo e os seus “factos alternativos”.

Veja-se o caso de Rex Tillerson, que já assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros, apesar das ligações comprovadas ao governo russo, de Vladimir Putin. A epítome da profunda divisão dos Estados Unidos ao final da segunda semana da era Trump não foi contudo essa nomeação, mas a de Betsy DeVos para secretária (ministra) da Educação.

Da direita à esquerda, há muitos a defender que não é para menos. Ao longo da última semana, os telefones dos senadores não pararam de tocar; pais, professores, auxiliares de educação, pedagogos, ativistas e cidadãos comuns passaram os dias a ligar para a câmara alta do Congresso na esperança de convencerem pelo menos três republicanos a votarem contra a nomeada de Trump. A ideia, apontava há alguns dias a “Slate”, era conseguir que um mínimo de senadores do partido maioritário “sentissem que vão ter mais problemas com os seus eleitores se votarem a favor de DeVos do que com a administração Trump se votarem contra ela”. Missão falhada.

Houve uma luz ao fundo do túnel no final da semana passada, quando duas senadoras do partido no poder, Susan Collins e Lisa Murkowski, anunciaram que iam votar contra a escolha de Trump. Estava firmado um empate na câmara, com os 48 senadores democratas e as duas desertoras republicanas alinhados contra os outros 50 senadores republicanos, que não cederam nem um milímetro. Pat Toomey, senador da Pensilvânia, chegou a ser apontado como o homem que ia virar o jogo contra DeVos, mas rapidamente emitiu um comunicado a garantir que não. Jeff Flake, Dean Heller, Thom Tillis, Mike Crapo, John Hoeven e Rob Portman foram apenas alguns dos que também fizeram questão de assegurar publicamente que iam dar luz verde à multimilionária Betsy.

Isso tem uma razão de ser. Ao longo da sua carreira política, Toomey, por exemplo, recebeu mais de 60 mil dólares em doações de DeVos e da sua família. Tillis, eleito pelo estado da Carolina do Norte para o Senado federal nas intercalares de 2014, recebeu mais de 70 mil. Portman, que representa o Ohio desde 2011, 51 mil dólares. Mitch McConnell, atual líder da maioria republicana no Senado, mais de 36 mil dólares. Marco Rubio, que disputou as primárias do partido com Trump, quase 100 mil dólares. John McCain, rival de Obama nas presidenciais de 2008, metade disso.

A própria Lisa Murkowski obteve de DeVos um financiamento de campanha na ordem dos 43 mil dólares, o que não a impediu de “votar em consciência” contra uma mulher que defende a privatização do ensino e a presença de armas nas escolas e que já deu provas de que não conhece nem o bê-a-bá do ensino escolar. Não saberá sequer construir frases em inglês — há duas semanas a legenda de uma fotografia que publicou no Instagram, onde surge ao lado do marido na tomada de posse de Trump, gerou uma cadeia de correções e ensinamentos de gramática e sintaxe nas redes sociais.

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Durante a primeira audiência de confirmação na comissão especializada do Senado, Bernie Sanders colocou-lhe diretamente a pergunta: “Acha que se a sua família não tivesse feito contribuições de centenas de milhares de dólares para o Partido Republicano, você estaria aqui sentada hoje?” A “Vox” chamou-lhe “a pergunta para os 200 milhões de dólares”, que é quanto dinheiro a família DeVos já desembolsou para o partido e causas conservadoras ao longo das últimas décadas. Depois de uma pausa, a candidata respondeu: “Acho que haveria essa possibilidade. Tenho trabalhado com afinco para dar voz aos estudantes e poder aos pais para que possam tomar decisões em nome dos seus filhos, em primeiro lugar crianças de [famílias com] baixos rendimentos.”

Tudo parece apontar para o contrário do que assegura a nova secretária da Educação — esta terça-feira confirmada para o cargo por Mike Pence, vice-presidente de Trump, que num passo sem precedentes usou o seu voto para desempatar a votação na câmara a favor dela. Num longo perfil de DeVos publicado a 17 de janeiro, ainda Trump não tinha tomado posse, a revista “Mother Jones” referia que não só a milionária não tem qualquer experiência de ensino (o mais perto que esteve foi ser monitora de ATL), como os seus planos para a escola pública são perigosos. Em última instância, apontava a revista, quer transformar a rede de ensino americano no “reino de Deus”.

Dos 100 milhões de dólares que doou entre 1999 e 2014 através da fundação que criou com o marido, metade foram para organizações cristãs, muitas delas escolas privadas onde se ensina o criacionismo. Do leque de opções curriculares à disposição de cada um dos 50 estados norte-americanos, defende, deve constar esta crença religiosa e sem base factual de que a humanidade, a vida, a Terra e o universo foram criados por uma entidade divina há alguns milhares de anos — quando décadas de avanços científicos já comprovaram que o nosso sistema solar, a via láctea, tem cerca de 5 mil milhões de anos e que as origens da espécie humana remontam ao final do mioceno, uma das eras geológicas do planeta Terra que terminou há 5 milhões de anos. Assim que a sua nomeação foi confirmada, um internauta criou o que diz ser o novo logótipo do Departamento de Educação ao leme de DeVos — em vez da árvore da escola, Jesus Cristo montado num dinossauro.

DeVos não contesta apenas o evolucionismo. Sem nunca ter estudado numa escola pública (nem os seus filhos), critica a utilização de dinheiros federais para financiar o ensino e defende um controverso sistema de vouchers através do qual pretende redirecionar 11 milhões de alunos do público para o privado: o Estado federal oferece uma espécie de “cheque-prenda” aos encarregados de educação para ser usado em escolas charter, instituições de ensino criadas por grupos de pais, professores ou comunidades, que são financiadas pelo Estado mas que não respondem às mesmas regras e padrões que as escolas públicas — muitas são religiosas. Para DeVos são “uma escolha muito válida” mas criar uma rede de escolas charter a nível nacional é coisa que leva tempo, pelo que “até lá há muito boas escolas não-públicas, a aguentarem-se por um fio, que podem começar a receber alunos”.

Em 2015, lançou um dos mais ferozes ataques ao sistema público de ensino que, ironicamente, denotam semelhanças com o seu currículo para ser ministra da Educação. “Acho que o ensino se tornou muito desprofissionalizado ao longo dos anos e passou a integrar uma indústria muito hermética, que só serve os seus próprios interesses. Acredito que abrir o sistema [à privatização] vai contribuir muito para dar um valor renovado à qualidade de um bom professor. E acredito que cada vez mais jovens vão ser encorajados a enveredar pelo ramo do ensino se tivermos este tipo de inovação e criatividade na educação em geral, que penso que deve passar por uma opção educacional totalmente aberta.”

Na altura estava longe de pensar que viria a ter a oportunidade de avançar com o seu modelo e objetivos. Talvez por causa do dinheiro com que a sua família comprou vários republicanos ao longo dos anos, também não se deu ao trabalho de estudar antes do seu derradeiro teste de avaliação feito pelos senadores democratas. Para perceber isso e traçar a figura da próxima ministra da Educação, destacamos a seguir quatro momentos das sessões de perguntas e respostas que a conduziram ao cargo.

Sobre deficientes nas escolas

Num momento de alta tensão, o senador Tim Kaine desafiou DeVos a dizer se concorda que todas as escolas que recebam fundos federais devem cumprir os mesmos padrões de ensino, entre eles a Lei para a Educação de Indivíduos com Deficiência e a obrigatoriedade de denunciarem às autoridades competentes casos de bullying e assédio verbal ou físico. DeVos pareceu nervosa e tentou dar respostas evasivas, até passar a outra fase. “Penso que cada estado é que deve decidir sobre isso”, declarou sobre a lei que protege os direitos de crianças deficientes ao ensino. “Quer dizer que defende que alguns estados podem ser bons com crianças deficientes e outros não?” “Penso que cada estado é que deve decidir sobre isso.” “Mas e quanto à lei federal que protege crianças com deficiência? É uma lei federal, que se aplica a todo o país.” “Penso que cada estado é que deve decidir sobre isso.” Antes disso, a senadora Maggie Hassan, que tem um filho com paralisia cerebral, já tinha confrontado DeVos com essa lei, a IDEA. e perante a sua ignorância perguntou-lhe se ela sabia que se trata de uma legislação federal. DeVos disse: “Posso ter feito confusão com outra.”

A IDEA, que entrou em vigor em 1990, é o que permite que crianças americanas como o filho de Hassan ou Edmund possam aceder ao ensino público apesar de serem portadores de deficiência, neste último caso uma doença rara chamada síndrome Cri du Chat, que o prende a uma cadeira de rodas, a um tubo de alimentação e a um estado não-verbal. “Sim, Edmund vai à escola”, escrevia há algumas semanas a mãe, Elizabeth Picciuto, num artigo intitulado “Tenho um filho deficiente e um medo de morte de Betsy DeVos”.

“Só posso assumir que vários adultos não-deficientes não saibam que isto é assim porque quando éramos mais novos, crianças como o Edmund não iam à escola, pelo menos não às nossas. […] Depois do testemunho de DeVos no Senado, estou petrificada de medo. Ponhamos os vouchers de lado. DeVos não parecia sequer saber que a IDEA existe. […] A IDEA tem sido historicamente subfinanciada pelo governo federal, um problema que precisa de respostas urgentes. Com uma administração indiferente ou até hostil à educação de crianças com deficiência, não há como saber se os direitos do meu filho e de tantas outras crianças educáveis como ele vão ser protegidos de forma adequada.”

O que é proficiência?

A dada altura, o senador Al Franken questionou DeVos sobre se acha que os testes feitos aos alunos nas escolas devem medir a proficiência de cada estudante, ou seja se acumulou conhecimento suficiente para atingir um certo patamar, ou a evolução de cada estudante, ou seja quanto é que melhorou ao longo do percurso académico. A candidata não sabia do que é que o democrata estava a falar. “Isto é um tema de debate na comunidade educativa há anos. Admira-me que nunca tenha ouvido falar deste assunto”, disse Franken, visivelmente surpreendido.

Violações em universidades

Tal como aconteceu quando Kaine lhe perguntou sobre a proteção de alunos portadores de deficiência, DeVos voltou a evitar dar uma resposta clara quando o senador Bob Casey falou do tema das violações e agressões sexuais em campus universitários dos EUA. A pergunta foi direta: enquanto ministra da Educação, vai manter as regras delineadas pelo departamento em 2011 que ditam que crimes desta natureza têm obrigatoriamente que ser denunciados às autoridades de ensino? DeVos respondeu que era “prematuro” pronunciar-se sobre esse assunto e que ia reunir-se com legisladores para decidir o que fazer.

Armas em escolas

O senador Chris Murphy, um dos grandes defensores de mais controlos de armas, perguntou a DeVos se é aceitável haver armas de fogo em escolas, uma questão sensível, dado que o país continua a ser assolado por tiroteios e massacres, muitos deles em estabelecimentos de ensino. A primeira resposta foi a mesma de quase sempre. “Compete a cada estado e a cada localidade decidir isso.” No contra-ataque de Murphy, que ficou chocado com a resposta, DeVos invocou o exemplo de uma escola primária do Wyoming que um senador republicano tinha dado numa sessão anterior. A defesa: “Julgo que naquela escola deve haver uma arma para se protegerem de potenciais ursos pardos.”