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Espírito Santo. Onde um braço de ferro entre mulheres dos polícias e o governo brasileiro entregou o poder aos fora da lei

AFP

Os agentes da Polícia Militar brasileira estão impedidos de se manifestar e convocar greves, pelo que as mulheres de alguns deles estão desde sexta-feira a impedi-los de trabalhar sob exigências de melhores salários e condições de trabalho. Sem cedências do governo, que terça-feiradestacou mais de mil soldados para a zona metropolitana de Vitória, o estado do sudeste brasileiro está mergulhado num cenário distópico de ruas desertas e cidades fantasma onde os criminosos são a lei – matam e roubam indiscriminadamente e até já impuseram recolher obrigatório aos habitantes

Houve pelo menos 62 homicídios no estado brasileiro de Espírito Santo desde a meia-noite de sábado, na sua maioria na região metropolitana de Vitória, que está entregue a bandos de criminosos armados na sequência da greve da Polícia Militar (PM) que pôs a segurança do estado em pausa. Só na segunda-feira, 37 pessoas foram mortas, aponta o último balanço de vítimas do Sindicato da Polícia Civil de Espírito Santo. Os números, garante Jorge Emílio Leal, presidente daquele sindicato, foram obtidos junto do próprio Departamento de Medicina Legal do estado do sudeste do Brasil, embora a secretaria de Segurança Pública ainda não se tenha manifestado oficialmente sobre a situação. O vice de Leal, Humberto Mileip, fala num aumento de 1000% nas taxas de homicídios e crimes contra a propriedade desde sexta-feira.

O cenário é impressionante. Com os polícias militares impedidos de trabalhar pelas suas mulheres e familiares, que estão a levar a cabo um protesto por melhores salários e condições de trabalho para os agentes, grupos de homens armados tomaram as ruas de Vitória e de outras cidades de Espírito Santo e instalaram um regime de terror entre a população. Um dos vários vídeos publicados nas redes sociais nos últimos dias mostra um criminoso a gritar no meio de uma rua deserta que as pessoas não devem sair de casa assim que cair a noite, caso contrário "levam bala". Na internet, cidadãos desesperados pedem ao governo de Michel Temer que faça alguma coisa, que pondere aceder às exigências de melhores condições laborais. Ontem o governo fez alguma coisa mas não isso: ao final de quatro dias de caos e terror, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, reuniu-se com o governador interino do estado, César Colnago, para delinear um plano de emergência numa altura em que a polícia civil ameaça juntar-se à greve dos colegas militares.

No rescaldo da reunião, Jungmann destacou tropas para a área metropolitana de Vitória na tentativa de reestabelecer a ordem e segurança. "Quero dizer que as forças armadas já estão aqui em Vitória", declarou o ministro numa entrevista coletiva na cidade, sem divulgar o número efetivo de soldados enviados para as cidades de Espírito Santo. "Estamos determinados em restaurar a paz, a ordem e a tranquilidade em Vitória e onde for necessário." De acordo com a BBC, são mais de mil os soldados e agentes da guarda nacional que vão estar a patrulhar as ruas de Vitória e dos subúrbios ao longo dos próximos dias, até que o calamidade passe.

Imagens transmitidas pela televisão brasileira mostram grupos de homens armados a saquear lojas, em trocas de tiros nas ruas e a ameaçar condutores com armas para lhes roubarem os carros. Os bancos, escolas e centros de saúde estão encerrados desde segunda-feira. Ontem, os autocarros de Vitória tentaram retomar os serviços de transporte público mas os responsáveis do setor desistiram dessa missão ao final do dia. A revista "Veja" refere que a situação em Espírito Santo "é muito mais grave do que parece" e também "um retrato do Brasil", onde "a segurança pública está um caos por irresponsabilidade de muitos" e por causa da "falta de dinheiro" — outro exemplo disso é o caso recente do motim de prisioneiros no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, perto da cidade de Manaus, no estado de Amazonas, cujo secretário de Segurança Pública, Sérgio Fontes, disse ter sido "o maior massacre prisional" algum dia registado naquele estado. Pelo menos 56 pessoas morreram durante a rixa entre fações rivais ligadas ao tráfico de droga, na semana passada; várias estão desaparecidas.

Na BBC Brasil, a jornalista Camila Costa relata como "um protesto iniciado por oito mulheres" está a paralisar a PM de Espírito Santo desde sexta-feira. São casadas com agentes militares e de segurança e, com quatro dos seus filhos, plantaram-se à frente da 2.ª Companhia do 6.º Batalhão da PM em Serra, na Grande Vitória, no final da semana passada, em defesa de melhores condições de trabalho para os cônjugues. Os polícias militares são proibidos pelo Código Penal Militar de levarem a cabo greves ou paralisações, pelo que são elas que, desde sexta, estão a impedir a saída de viaturas para fazerem o policiamento do estado.

Autointitulam-se Movimento das Famílias PMES e neste momento estão a bloquear as entradas e saídas dos 19 batalhões e mais 10 companhias independentes da PM do Espírito Santo. Graziela, a protagonista do artigo da BBC Brasil, é a porta-voz do grupo e recusa-se a divulgar o apelido para não pôr o marido em risco. Ao longo de anos têm sido as mulheres dos polícias a manifestarem-se em seu nome; se fossem eles enfrentariam até dois anos de prisão. "Pode colocar que meu nome é Graziela Família PMES. Esse é o meu sobrenome agora." Até ver, não há qualquer abertura da parte do governo federal para renegociar as condições de trabalho dos agentes. Pelo contrário, o governador interino de Espírito Santo — a substituir Paulo Hartung, que está internado num hospital de São Paulo — disse ontem que já abriu um processo na Justiça contra a paralisação dos PM para os obrigar a regressar ao trabalho. Ontem Colnago declarou aos media: "De forma alguma vamos aceitar esse tipo de atitude que é deixar a população desguarnecida de um serviço que é essencial, o da segurança pública."