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Internacional

Corrupção à solta na eleição do próximo presidente da Somália

Durante a votação em Mogadíscio

FEISAL OMAR / REUTERS

Mais de $20 milhões terão mudado de mãos para comprar posições na corrida à presidência. Segurança extrema paralisou a capital para evitar ataques terroristas

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Pelo sim, pelo não, o tráfego automóvel foi suspenso em Mogadíscio antecipando as eleições presidenciais desta semana. Também os voos de partida e chegada à capital da Somália foram cancelados. Todas as zonas circundantes da capital se encontram com a vigilância reforçado pelas forças de segurança em virtude do aumento de ataques das milícias Al-Shabaab. As escolas e as universidades fecharam por dois dias, bem como o comércio. Estas são as primeiras eleições do género a acontecerem no espaço de um quarto de século no que é considerado o país mais corrupto do mundo pela organização não governamental dedicada à medição global da corrupção, Transparência Internacional.

O modus operandi eleitoral é, por assim dizer, diferente. O “International New York Times” relata esta quarta-feira que os políticos andam numa azáfama a comprar votos e a fazerem-se ver ao lado de supostos rivais que, como sustenta, foram subornados para fazer parecer que a contenda é séria.

As Nações Unidas classificam de esta votação inovadora “acontecimento” tendo em conta que a Somália não tem um governo funcional há 25 anos, desde a queda do regime de Siad Barre em 1991. Quem sustenta a segurança mínima no território é a missão da União Africana, a Amisom, que mantêm 22 mil efetivos no país, entre militares, polícias e pessoal administrativo.

No entanto, o NYT adianta que, segundo analistas, investigadores e diplomatas ocidentais, a eleição tornou-se “um acontecimento de corrupção, um dos mais fraudulentos da história da política da Somália”, lê-se naquele jornal.
“Investigadores somalis estimam que pelo menos $20 milhões (pouco menos de €19 milhões) mudaram febrilmente de mãos durante as eleições parlamentares que culminarão na escolha do Presidente esta quarta-feira”, escreve o NYT apontando “outros compradores” de candidatos presidenciais além da “Turquia, Sudão, Emirados Árabes Unidos e Qatar”. A Al-Jazeera cita Marqaati, uma a organização anti-corrupção com sede na Somália que reportou nesta terça-feira que as eleições “tiveram corrupção abundante”.

Há mais de 20 candidatos à chefia de Estado da Somália. Os três mais votados passarão a uma segunda volta e os dois mais votados nesta vão à terceira e final. O Presidente em final de mandato, Hassan Sheikh Mohamud, que conta com o apoio do Ocidente, concorre à reeleição e é tido como um dos que tem hipótese de chegar à votação final.

A votação já deveria ter decorrido em agosto de 2016, quatro anos após o último voto no qual 135 chefes de clã escolheram deputados que elegeram de seguida o Presidente. O adiamento deveu-se à insegurança e aos assaltos dos militantes do Al-Shabaab, que controlam partes do território e atacam sistematicamente Mogadíscio. Tinha sido prometido um escrutínio de um voto por pessoa, mas o que agora aconteceu foi uma eleição por 14,025 delegados, que votaram no parlamento e câmara alta. O sufrágio universal foi entretanto adiado para 2020.