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A “pop star” das estatísticas

MITOS. Hans Rosling diz que mesmo entre a população dos países mais ricos e até no meio académico, existe ignorância estatística e uma série de mitos que dão uma visão parcial, preconceituosa e distorcida da realidade mundial

josé caria

Hans Rosling participou em Lisboa, em 2015, numa conferência que assinalou os cinco anos da Pordata, a base de dados sobre Portugal criada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O Expresso republica um trabalho divulgado nessa ocasião sobre o o professor e médico sueco que transformou as estatísticas num espectáculo mediático

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

José Caria

José Caria

Fotojornalista

Tem um poder de comunicação excecional quando fala em público de um tema aparentemente árido, complexo e maçador: as estatísticas. Tudo porque consegue fazer um autêntico espetáculo, em palestras e na TV, dos números e tendências sobre assuntos tão diversificados como a natalidade, a população, a saúde, a mortalidade infantil, a educação, o clima, os refugiados, as vítimas dos desastres naturais ou a emancipação das mulheres. Por isso, é constantemente solicitado para realizar conferências por todo o mundo.

Hans Rosling, o mediático professor e médico sueco, presidente da Fundação Gapminder, um organização que promove o desenvolvimento sustentável, esteve ontem, terça-feira, em Portugal para falar de estatísticas, num evento que assinalou no Teatro D. Maria II, em Lisboa, os cinco anos da Pordata. Além do aniversário da base da dados estatísticos sobre Portugal criada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que reune dados oficiais de mais de 60 institutições diferentes, o evento incluíu a entrega dos prémios Pordata Inovação e a apresentação do Pordata Kids, uma nova base de dados acessível na internet, com estatísticas destinadas às crianças entre os oito e os doze anos de idade.

“Um dos maiores acontecimentos da História da demografia”

A sala principal do Teatro D. Maria II estava cheia e a conferência de Hans Rosling foi sobre o tema “Atualize a sua visão do mundo”. Falou em português, que aprendeu em Moçambique quando trabalhou como médico em Nacala, no norte do país, entre 1979 e 1981. Cativante, muito expressivo, com sentido de humor, empolgante, Rosling começou por desfazer um mito na cabeça de muita gente: o aumento cada vez maior da natalidade mundial. É verdade que a população da Terra tem tido um crescimento exponencial desde a Revolução Industrial e já ultrapassou sete mil milhões de pessoas. “Mas neste momento muitos ignoram um dos maiores acontecimentos da História da demografia no mundo: o número de crianças nascidas em cada ano estabilizou”, enfatizou o conferencista sueco.

FACTOS. As conferências do guru sueco são sempre carregadas de emoção, mas ele faz questão de esclarecer que se baseia sempre em factos objetivos revelados pelas estatísticas

FACTOS. As conferências do guru sueco são sempre carregadas de emoção, mas ele faz questão de esclarecer que se baseia sempre em factos objetivos revelados pelas estatísticas

josé caria

Rosling repetiu o que tem feito sistematicamente em todas as conferências à volta do mundo. As pessoas presentes no Teatro D. Maria II receberam à entrada do evento um dispositivo eletrónico para poderem responder a um conjunto de questões estatísticas que o conferencista colocava ao longo da sua intervenção, escolhendo uma de três opções possíveis (A, B e C). As respostas eram então comparadas com a realidade das estatísticas mundiais e a opinião do público era sempre mais pessimista, não sendo muito diferente das respostas obtidas pelo presidente da Fundação Gapminder nas outras conferências que já realizou.

DESENVOLVIMENTO. Há países ricos e países pobres, mas a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento é um conceito que hoje não faz qualquer sentido, como demonstra Rosling através de um gráfico sobre o rendimento per capita: quase todos os países do mundo estão concentrados na zona central desse gráfico

DESENVOLVIMENTO. Há países ricos e países pobres, mas a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento é um conceito que hoje não faz qualquer sentido, como demonstra Rosling através de um gráfico sobre o rendimento per capita: quase todos os países do mundo estão concentrados na zona central desse gráfico

josé caria

“A maior parte dos governos são sérios”

Um exemplo: “Qual a percentagem de crianças que são vacinadas em todo o mundo contra o sarampo: 25%, 50% ou 80%?”. A resposta certa era 80%, mas a maioria das pessoas presentes escolheu as duas outras opções. Com depois sublinhou Rosling, “ao contrário do que as pessoas pensam, a maior parte dos governos do mundo são sérios quando se trata de vacinar as crianças ou de promover a escolaridade das raparigas”.

Hans Rosling tinha estado precisamente há um ano em Lisboa, onde proferiu uma palestra na abertura do Congresso Mundial da Água. Ontem, terça-feira à tarde, depois de falar no Teatro D. Maria II, seguiu para uma conferência em Londres. As solicitações são muitas e toda a gente quer ouvir os ensinamentos do homem que fala dez línguas e é uma autêntica “pop star” das estatísticas, tanto ao vivo como na TV. Na semana passada quase deu a volta ao mundo, passando por cidades tão distantes uma da outra como Nova Iorque e Singapura.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 23 de setembro de 2015