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“A fronteira entre países desenvolvidos e em desenvolvimento não existe”

josé caria

O Expresso republica uma entrevista com Hans Rosling, antigo presidente da Fundação Gapminder e conhecido divulgador do trabalho estatístico, que faleceu esta terça-feira

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

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Redator Principal

José Caria

José Caria

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Fotojornalista

À quarta pergunta fomos apanhados em falso e o entrevistado transformou-se de repente em entrevistador. "Qual é o seu critério para definir países desenvolvidos e em desenvolvimento?", interrogou o mediático estatístico sueco Hans Rosling, a propósito de uma questão sobre a natalidade no Brasil. "Bom, habitualmente usa-se o PIB ou o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas...", respondemos. "Essa divisão não existe!", reagiu o médico, professor e presidente da Fundação Gapminder, uma instituição sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento sustentável. E mostrou um dos seus gráficos sobre o rendimento per capita, onde há países situados nos dois extremos do gráfico - os muito ricos e os muito pobres - mas a esmagadora maioria está na região central, uma mancha colorida onde não se vislumbra qualquer fronteira entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Hans Rosling é uma autêntica pop star das estatísticas, um comunicador empolgante e com sentido de humor que se tornou famoso em todo o mundo com as suas conferências e programas de TV espetaculares, onde usa gráficos animados e interativos feitos por um software único criado pela sua fundação, o Trendalyzer, que já foi comprado pela Google. O professor esteve esta semana no Teatro D. Maria II, em Lisboa, para falar sobre o tema 'Atualize a sua visão do mundo', no evento que assinalou os cinco anos da Pordata, a base de dados estatísticos sobre Portugal criada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Na ocasião foram também entregues os prémios Pordata Inovação e apresentado o Pordata Kids, uma nova base de dados acessível na internet, com estatísticas destinadas às crianças dos oito aos doze anos de idade.

A população mundial está a crescer mais rapidamente ou a tendência de longo prazo é para estabilizar ou diminuir?
Não está a crescer mais rapidamente, mas à mesma velocidade nos últimos 50 anos. Desde 1965 que o crescimento deixou de ser exponencial, o que significa que a taxa de crescimento anual está a cair, a cair, a cair. Era de 2,1% em 1960 e agora é de 0,1%, mas não devemos dar demasiada atenção à população total. Se queremos saber alguma coisa sobre o futuro devemos antes perguntar quantos bebés nascem por ano. E a realidade é que esse número deixou de aumentar. E portanto o número de crianças até aos 15 anos também deixou de aumentar. Está nos dois mil milhões desde há dez anos e deverá manter-se assim até ao final do século.

Portanto, a explosão demográfica é um mito?
Não. Essa expressão é usada desde 1968 porque nesse ano havia cinco filhos por mulher no planeta, mas hoje são apenas 2,5. Esta média permite que o número de nascimentos por ano deixe de crescer e estabilize. Atualmente temos dois mil milhões de crianças até aos 15 anos, cerca de dois mil milhões de pessoas entre os 15 e os 30 anos, mil milhões entre os 30 e os 45 anos e o mesmo número entre os 45 e os 60 anos e acima dos 60 anos. Com o passar dos anos, os mais novos de hoje irão viver mais tempo e a população mundial deverá estabilizar à volta dos 11 mil milhões. A razão para muitos estudos focarem a população total da Terra não é o crescimento demográfico da Europa ou da América do Norte, mas antes do resto do mundo, onde aconteceu precisamente a mesma coisa do que na Europa ou na América do Norte no passado. E com o maior crescimento demográfico do resto do mundo, a Europa e a América do Norte vão concentrar apenas menos de 10% da população mundial. Em contrapartida, a Ásia e África vão ter 80% dos habitantes do planeta.

Então isso pode ser um problema para os países ocidentais, porque deixam de ter relevância demográfica?
Qual problema? Não é um problema mas uma oportunidade, porque significa muito mais clientes, consumidores e turistas para as economias da Europa e da América do Norte. Não vejo que seja um problema quando dou palestras para presidentes de maiores companhias do mundo. Eles dizem: "Uau! Mas que grande mercado! Quantas mulheres menstruadas na Índia e em África você disse que irão existir no futuro? Vamos então para esse mercado fornecer às mulheres pensos higiénicos adequados!"

E o facto de países em desenvolvimento como o Brasil terem já hoje um número de filhos por mulher (1,8) inferior à taxa de substituição de gerações (2,1) não é um problema?
Bom, apesar desse número de 1,8 filhos por mulher, a população do Brasil continua a crescer e já ultrapassa os 200 milhões de habitantes. Mas porque é que você diz que o Brasil é um país em desenvolvimento? Qual é o seu critério para definir países desenvolvidos e em desenvolvimento? É que se for ao website das estatísticas das Nações Unidas não encontra lá esse critério.

Habitualmente, distinguem-se países desenvolvidos e em desenvolvimento através do PIB e do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU...
Essa divisão não existe! Na realidade ela reflete a velha maneira de pensar dos europeus e dos norte-americanos de que irão continuar a ser superiores ao resto do mundo eternamente. A Rússia é um país em desenvolvimento? E a Ucrânia, a Turquia ou a Grécia? A velha ideia de países desenvolvidos e em desenvolvimento não se ajusta à realidade atual. Repare neste gráfico que aqui tenho e que mostra o rendimento per capita de todos os países do mundo. Você vê aqui os países divididos em dois grupos?

Não.
Na verdade, não existe uma fronteira entre países desenvolvidos e em desenvolvimento mas antes um grande grupo de países - a maioria - no meio deste gráfico. Esta maioria de cinco mil milhões de pessoas é muito mais relevante do que os extremos, isto é, os mil milhões que vivem na pobreza extrema e os mil milhões muito ricos. É uma imensa maioria que tem famílias de dois filhos, eletricidade em casa, crianças vacinadas e que vão à escola, bicicleta ou um meio de transporte mais avançado como moto ou automóvel, telemóvel. E estão todos a evoluir, a crescer em termos de rendimento per capita. Portugal, a Suécia, todos estão a progredir ao longo do tempo. A Somália quer ser como Moçambique, Moçambique quer ser como o Gana, o Gana quer ser como Brasil, o Brasil quer ser como a Europa Ocidental.

Mas há diferenças...
Claro, na igualdade de género, por exemplo, Portugal e a Suécia são diferentes em muitos aspetos e noutros não são, como é o caso da participação das mulheres no mercado de trabalho, onde em Portugal se registaram mudanças profundas em pouco tempo. Só que a vida prática não mudou. Na Suécia, 35% dos homens tomam conta dos filhos em casa, mas em Portugal são muito poucos a fazê-lo. Nesse sentido, os homens portugueses mais jovens são como eu, com 68 anos. Estão uma geração atrás. Mas se há dez anos me dissessem que a igreja protestante da Suécia iria ter um bispo mulher em Estocolmo, como tem hoje, casada com outra mulher que é pastora protestante, eu diria: "Nem pensar! Estão a brincar!" Essa é a realidade atual e esta mulher é muito respeitada na Suécia. Hoje temos valores que não tínhamos há dez anos e todos os países estão em mudança.

Isto quer dizer que o Hans Rosling é mais otimista do que os cenários sobre o futuro traçados pelas grandes organizações internacionais?
Não, não sou mais otimista, tenho antes uma atitude séria e preocupada porque baseio-me nos factos. Não é uma questão emocional, de ser mais pessimista ou otimista, mas de ignorância ou de conhecimento da realidade através das estatísticas. E é por isso que as grandes companhias e os grandes bancos estão tão interessados nas minhas conferências.

Tem dito que as mortes provocadas por desastres naturais diminuíram drasticamente nos últimos 100 anos, mas os media, governos, ambientalistas e até a ONU dizem que as alterações climáticas estão a provocar mais desastres naturais. Afinal o que se passa?
Há um ligeiro aumento de alguns desastres naturais que se deve provavelmente às alterações climáticas. O que me preocupa é como avaliar o perigo real que vão representar as alterações climáticas dentro de 25 a 30 anos. Os cientistas andam a procurar desesperadamente qualquer coisa que hoje seja um sinal dessas mudanças no clima. Temos de atuar a tempo mas não devemos exagerar a situação através de exemplos como a suposta extinção do urso polar. A razão por que morrem menos pessoas nos desastres naturais é porque estamos mais preparados para os enfrentar e esta mudança está a ser mais rápida do que as mudanças climáticas. Quando eu era estudante, houve grandes cheias no Bangladesh e morreu um milhão de pessoas. Há 20 anos, houve outra vez grandes cheias e morreram 100 mil pessoas. Há poucos anos, repetiu-se de novo o mesmo fenómeno e morreram 'apenas' 10 mil pessoas, porque o Bangladesh está mais preparado para enfrentar as cheias, a população tem casas melhores, refúgios em locais elevados, sistemas de alerta, telecomunicações.

Os dados estatísticos que apresenta nas suas conferências mostram que o mundo está a evoluir de uma forma muito mais positiva do que as pessoas pensam. Não há nada que esteja a correr mal?
Sim, há. O número de crianças que não vão à escola, por exemplo, tem diminuído sistematicamente nas últimas décadas, mas nos últimos dez anos parou e fixou-se em 60 milhões de crianças. Na sua maioria são crianças que vivem em regiões muito remotas de África ou da Ásia onde é muito difícil chegar.

Para acabar com a ignorância

O desconhecimento das estatísticas leva o público em geral a ter uma visão simplista, distorcida e incompleta da realidade.

Nas suas conferências por todo o mundo, Hans Rosling costuma chamar a atenção para "a ignorância estatística" da generalidade da população nos países mais desenvolvidos, incluindo no mundo académico.

O presidente da Fundação Gapminder insiste ainda que há uma quantidade e diversidade imensa de estatísticas disponíveis que não têm sido estudadas e interpretadas devidamente, em particular pelos media, o que leva o público em geral a ter uma visão "simplista, distorcida, preconceituosa e incompleta da realidade".

O objetivo das conferências e programas de TV de Rosling e da Fundação Gapminder, é precisamente acabar com esta visão e combater a ignorância estatística.

Maria João Valente Rosa, diretora da Pordata, a base de dados estatísticos sobre Portugal da Fundação Francisco Manuel dos Santos, dá dois exemplos em que a perceção dos portugueses não corresponde à realidade: o número de bebés nascidos em Portugal por nível de escolaridade das mães (ver gráfico) e a taxa de desemprego por nível de escolaridade.

Fecundidade: portugueses têm perceção errada

Muitos pensam que a fecundidade em Portugal é mais elevada entre as mães com níveis de escolaridade mais baixos. "Na verdade, há 20 anos era assim, porque as mães de 73% dos bebés nascidos em 1995 tinham, no máximo, o 9º ano de escolaridade", reconhece a diretora da Pordata. Mas hoje a situação é completamente diferente: só 30% das mães têm, no máximo, o 9º ano, mas 67% completaram o ensino secundário ou superior. Esta mudança é muito recente em Portugal (desde 2008) e acompanha a tendência que se verifica nos países mais desenvolvidos.

"À escala mundial, os níveis de fecundidade são maiores nos países mais pobres, com baixo nível de desenvolvimento e de escolaridade", constata Maria João Valente Rosa. "Na Europa a situação inverte-se e são os países mais ricos do norte, à exceção da Alemanha, que têm a fecundidade mais elevada", aproximando-se mesmo da taxa de 2,1 filhos por mulher que permite a substituição de gerações. Claro que desde 1995 houve um aumento geral da escolaridade entre a população feminina portuguesa, "mas esta tendência não explica tudo".

Quanto à taxa de desemprego por nível de escolaridade, generalizou-se a ideia de que um jovem com o curso superior não tem mais hipóteses de arranjar trabalho. Até os líderes de opinião transmitem essa ideia nos media. "O discurso de que estudar não compensa é altamente perigoso e não corresponde à realidade das estatísticas, mesmo tendo em conta o aumento da emigração de jovens licenciados", insiste a diretora da Pordata. "Tal como no resto da Europa, estudar continua a ser uma medida de prevenção contra o desemprego." Em 2014, a taxa de desemprego atingiu 10% entre os portugueses com curso superior, 15,3% com o ensino secundário e pós--secundário e 15% com o básico.

Em Lisboa, na conferência que deu esta semana no Teatro D. Maria II, Hans Rosling repetiu o que tem feito noutras conferências por todo o mundo para testar a ignorância estatística das pessoas. E os resultados não foram muito diferentes. Os participantes receberam à entrada do evento um dispositivo eletrónico para responderem a um conjunto de questões relacionadas com dados estatísticos que o conferencista colocava ao longo da sua intervenção, escolhendo uma de três opções possíveis (A, B e C). As respostas eram então comparadas com a realidade das estatísticas mundiais. E a opinião do público era sempre mais pessimista.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 26 de setembro de 2015

  • Morreu o homem que fez das estatísticas um espetáculo

    Hans Rosling, o professor e médico sueco que falava dez línguas, entre as quais o português, morreu aos 68 anos e tornou-se muito popular em todo o mundo graças ao verdadeiro show que dava nas suas conferências e programas de TV sobre um tema aparentemente árido, complexo e maçador: as estatísticas

  • A “pop star” das estatísticas

    Hans Rosling participou em Lisboa, em 2015, numa conferência que assinalou os cinco anos da Pordata, a base de dados sobre Portugal criada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O Expresso republica um trabalho divulgado nessa ocasião sobre o o professor e médico sueco que transformou as estatísticas num espectáculo mediático