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Um voto histórico no Senado dos EUA e a controversa eleição de Betsy DeVos

ERIK LESSER/EPA

O Senado norte-americano teve a seu cargo, esta tarde, a votação final para o cargo de secretária da Educação. Mas mais uma vez no Executivo de Trump, a nomeação foi polémica. E esta terça-feira pela primeira vez, um vice-presidente teve de usar o seu voto de qualidade para confirmar a nomeação de um secretário do Gabinete

A nomeação de Donald Trump para a pasta da Educação era controversa. Muitas foram as vozes que, por diversas vezes, se levantaram contra Betsy DeVos por considerarem que a republicana não tinha capacidade para exercer o cargo para o qual foi esta terça-feira eleita. A multimilionária, na opinião dos seus críticos, configura uma ameaça para a escola pública, pois por diversas vezes se manifestou a favor do sistema de vouchers e da privatização do ensino. É acusada de não possuir experiência na área da educação pública e de beneficiar os interesses de instituições privadas.

A votação que lhe deu o cargo de secretária da Educação foi à tangente: 50 votos a favor e 50 votos contra. Para além dos 48 senadores democratas que votaram contra, também duas senadoras republicanas, Lisa Murkowski (do Alasca) e Susan Collins (de Maine), votaram contra a eleição de DeVos. O motivo? Não conseguiram votar em alguém que não consideravam estar apta para o cargo. Os votos a favor vieram assim, exclusivamente, dos republicanos, mas não foram suficientes. Dessa forma, foi preciso que o vice-presidente, Mike Pence, pusesse termo ao impasse e desempatasse o resultado com o seu voto de qualidade – o que representou a primeira vez na história norte-americana que um vice-presidente desempatou uma votação na escolha de um secretário para o Executivo dos EUA.

Antes da votação, teve lugar uma maratona de 24 horas, durante o dia e a noite de segunda-feira, na qual vários deputados democratas foram ao senado fazer discursos de oposição a DeVos. Tinham como objetivo fazer uma derradeira tentativa de persuadir pelo menos um republicano a votar contra a candidata, ao sublinharem que a republicana não acredita na escola pública nem está comprometida a reforçar as leis que protegem os direitos civis relacionados com a educação. De acordo com Chuck Schumer, líder da minoria democrata no senado, citado pelo “Washington Post”, mesmo perante a ineficácia dos discursos, os democratas “estão orgulhosos do que fizeram, porque a nomeada é desqualificada [para o cargo] e agora os americanos sabem disso mesmo”, referiu na segunda-feira.

Desde a criação do Departamento de Educação em 1979, nunca um nome para a sua chefia esteve envolto em tanta controvérsia. Em parte, esse facto deve-se à vasta experiência na área da educação dos nomeados anteriores, que não causavam oposição e a sua votação era relativamente fácil.

Os democratas argumentam ainda que toda esta polémica contra DeVos vai dificultar a sua capacidade para liderar. Patty Murray, senadora de Washington, referiu também na segunda-feira que a republicana vai ser a secretária “mais controversa” da história do departamento. “Vai começar o seu trabalho sem credibilidade dentro da instituição que é suposto liderar, sem influência no Congresso e sem a confiança do povo americano”, acrescentou.

Já o senador John Cornyn, senador do Texas, aplaudiu a escolha de Trump por não configurar “outro burocrata da educação” familiar com o sistema e todas as pessoas dentro dele, e é complacente com o que está “definido”. Em vez disso, “escolheu alguém de fora, alguém como ele próprio – mais interessado nos resultados do que a alimentar o que está estabelecido na área da educação”.

A nova secretária da Educação passou as últimas três décadas a usar a sua riqueza e influência política para apoiar alternativas à escola pública, sendo a favor do sistema de vouchers financiados com dinheiro dos contribuintes, para ajudar os pais a pagar escolas privadas e religiosas.

Aquando da sua nomeação por Donald Trump em novembro, escreve o “Washington Post”, Betsy DeVos não era muito conhecida. Contudo, na sua primeira audiência este mês, DeVos começou a dar que falar, quer por deixar aberta a possibilidade de futuros cortes no financiamento da educação, quer por defender a privatização das escolas públicas. Na mesma audiência mostrou ainda desconhecimento nalguns temas básicos sobre o cargo que vai desempenhar.

Drew Angerer/Getty Images

Betsy DeVos é uma multimilionária que, em conjunto com a sua família, tem feito várias doações para financiar campanhas de vários senadores republicanos que eram responsáveis pela votação na sua nomeação para secretária da Educação. Durante as eleições em 2014 e 2016, DeVos e os seus parentes deram pelo menos 818 mil dólares (cerca de 765 mil euros) para 20 atuais senadores republicanos e ainda mais de 250 mil dólares (cerca de 233 mil euros) para cinco membros do comité de Saúde, Educação, Trabalho e Pensões do Senado norte-americano que aprovou, na passada terça-feira, a escolha de Trump para o Departamento de Educação. Estes valores são o resultado de uma análise feita pelo “Washington Post” aos registos da Comissão Eleitoral Federal.

Mas as doações de DeVos não se ficam por aqui: em novembro o instituto Acton defendeu que as crianças devem voltar ao mercado laboral, num artigo publicado inicialmente com o título “Tragam o trabalho infantil de volta”. Este título foi posteriormente retirado, devido às várias críticas que recebeu. O Acton é um think tank conservador, com estatuto de organização sem fins lucrativos, mas que durante anos recebeu milhares de dólares em doações de Betsy DeVos e da sua família.