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Número de crianças mortas ou feridas na guerra do Afeganistão aumentou 24% desde 2015

Em 2016 houve mais civis a morrer ou a sofrer ferimentos de guerra no país do que nos 15 anos anteriores, aponta relatório da ONU. “Já vai sendo tempo de as várias partes envolvidas no conflito cessarem estes crimes de guerra e pensarem no mal que fazem a mães, pais, crianças e futuras gerações ao continuarem a alimentar este conflito sem sentido e sem fim”, sublinha Zeid Ra'ad al-Hussein, alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos

O número de crianças mortas e feridas na guerra do Afeganistão sofreu um aumento acentuado no último ano, apontam as Nações Unidas num relatório onde é revelado que o número de vítimas civis em 2016 foi o mais elevado desde o início do conflito em 2001.

No documento divulgado esta segunda-feira, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR, na sigla inglesa) diz ter documentado um total de 11.418 baixas, incluindo 3498 mortes, um aumento de 3% em relação a 2015. O aumento é ainda maior entre as crianças: 24% em relação ao ano anterior, com 923 menores mortos e 2589 feridos, sobretudo como resultado de combates no terreno que ocorreram perto de zonas residenciais ou de explosivos por detonar.

Embora o número de mortos tenha sofrido uma ligeira queda, o número de adultos e crianças feridos aumentou 6% entre 2015 e o ano passado. "Já vai sendo tempo de as várias partes envolvidas no conflito cessarem estes crimes de guerra e pensarem no mal que fazem a mães, pais, crianças e futuras gerações ao continuarem a alimentar esta guerra sem sentido e sem fim", sublinha Zeid Ra'ad al-Hussein, alta responsável por aquele departamento da ONU.

Para além de documentar o balanço de vítimas, o alto comissariado sugere na sua investigação que a dinâmica de guerra se alterou desde 2014, quando a maioria das forças internacionais no terreno abandonou o país e os combates passaram a ocorrer mais perto de aldeias e cidades. A principal causa de mortes e ferimentos, aponta a ONU, são essas batalhas, 61% delas envolvendo grupos anti-Governo, sobretudo os talibãs, e 22% as forças afegãs pró-Governo.

Segundo dados do "Long War Journal", atualmente os talibãs controlam ou estão a lutar pelo controlo de 97 dos 407 distritos do Afeganistão; o grupo radical está prestes a capturar pelo menos cinco capitais de província, incluindo a da província de Helmand. Foi ali que na semana passada um rapaz de 14 anos foi atingido por um morteiro a 20 metros da sua casa, quando saiu para comprar pão para o almoço. Apenas no 7.º ano de escolaridade, Qodratullah era um dos dois únicos responsáveis por sustentar a família. "Não temos pai, não temos ninguém que nos alimente", diz o seu irmão mais velho, Ahmadullah, de 17 anos, citado pelo "The Guardian".

As batalhas pelo controlo de território estão a deixar no caminho munições por detonar, com a ONU a apontar que 86% das vítimas destes engenhos eram crianças – 183 menores morreram e 426 morreram só no ano passado enquanto recolhiam metal para vender a sucatas, enquanto cuidavam do gado ou brincavam. Em 2016, ao 15.º ano de guerra e depois de quase 100 países terem assinado o protocolo V da convenção da ONU, o acordo sobre armas convencionais foi finalmente ratificado pelo Governo afegão, obrigando-o a levar a cabo operações de limpeza dos resquícios explosivos da guerra.

Os engenhos explosivos improvisados (IEDs, na sigla inglesa) continuam a representar um dos principais perigos para a população afegã, sobretudo numa altura em que, de acordo com informações recolhidas pela ONU, este tipo de artefactos está a ser cada vez mais usado, de forma indiscriminada, por militantes talibãs e ligados a outros grupos, como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), de denominação sunita.

Três ataques recentes em Cabul, a capital, dois deles contra mesquitas, que provocaram mais de 100 mortos foram executados contra membros da minoria xiita do Afeganistão, o que levou a ONU a referir pela primeira vez num relatório desta natureza que podem estar a ser cometidos "crimes contra a humanidade" no país. Com os talibãs a ganharem terreno e o Daesh a encontrar vazios para ocupar, os EUA reforçaram a campanha de ataques aéreos no território, passando de um total de 947 em 2015 para 1337 no ano seguinte.

Um dos frutos do reforço dessa ofensiva foi o aumento de civis feridos; metade deles foram vítimas de ataques aéreos internacionais em 2016, sobretudo na província de Nangarhar. Apesar de a coligação internacional liderada pelos EUA só ser responsável por 2% das baixas civis, esteve por trás de alguns dos piores incidentes registados no ano passado no conflito afegão, incluindo um ataque aéreo contra uma aldeia perto de Kunduz que matou 32 civis, incluindo 20 crianças.