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Investigação revela que 7% dos padres australianos foram acusados de abuso sexual de menores entre 1950 e 2010

WILLIAM WEST

Comissão encarregada de investigar pedofilia na Igreja e noutras organizações não-católicas apurou que quase 4500 pessoas foram vítimas de abuso sexual enquanto crianças entre 1980 e 2015 em mais de mil instituições católicas australianas. “São números chocantes, trágicos e indefensáveis”, acusa diretor executivo do Conselho para a Verdade, Justiça e Cura

Uma investigação formal aberta em 2013 a casos de pedofilia na Austrália recolheu testemunhos de que 7% dos padres católicos da nação cometeram abuso sexual de menores entre 1950 e 2010, um número que sobe para 40% dos membros da hierarquia da Igreja numa das congregações, a dos Irmãos de São João de Deus. Só entre 1980 e 2015, quase 4500 pessoas terão sido vítimas de abusos, aponta a Comissão Real para Repostas Institucionais ao Abuso Sexual de Menores.

A comissão, que está encarregada de investigar casos de pedofilia na Igreja Católica e em organizações não-religiosas, já tinha ouvido dezenas de testemunhas a relatarem os abusos sexuais sofridos enquanto crianças às mãos do clero, mas a verdadeira extensão do problema ainda não era conhecida até esta segunda-feira, quando a comissão divulgou pela primeira vez as estatísticas que já foram recolhidas ao longo da investigação formal.

As histórias das vítimas, aponta Gail Furness, a advogada que está a prestar apoio à comissão em Sydney, são "semelhantes de uma forma deprimente". "As crianças foram ignoradas, ou pior, castigadas. As alegações nunca foram investigadas. Padres e [outros] religiosos foram transferidos e as paróquias e comunidades para onde foram nunca souberam do seu passado."

De acordo com os números compilados pela comissão, entre 1980 e 2015 houve 4444 crianças a sofrer abusos sexuais em mais de mil instituições da Igreja Católica em toda a Austrália, denunciou Furness. A ideia média das vítimas ronda os 10,5 anos nas raparigas e 11,5 nos rapazes. Em média, levou 33 anos para que cada vítima denunciasse às autoridades os abusos que sofreu. A mesma comissão aponta que houve denúncias contra pelo menos outras 10 ordens religiosas nas seis décadas desde 1950. Em quadro ordens houve acusações contra mais de 20% dos seus membros.

Criada em 2013, a comissão real tem estado a investigar as alegações de abuso físico e sexual em dezenas de instituições na Austrália, incluindo escolas, clubes desportivos e organizações religiosas. Cerca de 60% dos sobreviventes, aponta Furness, sofreram abusos em organizações religiosas, quase dois terços delas ligadas à Igreja Católica.

Os dados, aponta Francis Sullivan, diretor-executivo do Conselho para a Verdade, Justiça e Cura, demonstram que houve "falhas em massa" da parte das autoridades em proteger as crianças do país. "Estes números são chocantes, trágicos e indefensáveis", disse Sullivan, cuja organização foi criada há quatro anos, assim que o Estado australiano anunciou uma investigação formal a crimes de pedofilia no país para dar apoio à comissão. "Enquanto católicos, baixamos as nossas cabeças com vergonha."

A investigação está a ser acompanhada de perto pelo Vaticano, sobretudo na sequência das declarações do cardeal George Pell, em tempos a mais alta figura da Igreja Católica australiana antes de ser nomeado conselheiro financeiro do Papa Francisco. Em audiências da comissão, o cardeal Pell testemunhou como as autoridades católicas cometeram "graves erros" a lidar com as alegações de abuso sexual no país.

Ao longo das próximas semanas, vários altos cargos da Igreja australiana irão prestar depoimento sobre os casos de pedofilia registados em ordens católicas nas últimas seis décadas. O relatório final da comissão é esperado antes do final do ano. Na semana passada, os líderes católicos australianos começaram a avisar os paroquianos e escolas de que a investigação da comissão entrou na sua reta final e que devem estar preparados para lidar com os resultados do inquérito.

Num vídeo transmitido aos pais e nas igrejas de Brisbane, o arcebispo daquela cidade, capital do estado de Queensland, pede aos católicos que se preparem para "momentos sombrios" e "choques inevitáveis" na conclusão da investigação. "Mas também vamos ter a oportunidade de contar melhor a história sobre o que foi feito e o que está a ser feito agora" para dar resposta aos abusos, aponta Mark Coleridge nessa mensagem vídeo, citado pelo "The Guardian". "Não é suficiente alterar os procedimentos e os protocolos, isso também tem de acontecer mas temos de mudar a cultura e isso vai ser muito mais difícil de fazer."