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Choque de realidade para Trump e “Bibi”

Polícia israelita retira à força ocupantes judeus do colonato ilegal de Amona, a norte de Ramallah (Cisjordânia), na quarta-feira

JACK GUEZ/AFP/Getty Images

Passados delírios verbais do novo Presidente, Casa Branca obrigada a moderar excessos de entusiasmo do PM israelita relativamente aos colonatos e a sossegar aliados (Coreia do Sul e Japão)

Julio de La Guardia, 
Correspondente em Jerusalém

A chegada de Donald Trump ao poder foi aplaudida por Benjamin Netanyahu que esperava do novo Presidente, no mínimo, um sim tácito à política israelita de expansão dos colonatos em território palestiniano. Não foi assim, e quinta-feira à noite o porta-voz da Casa Branca emitiu um comunicado alertando para que a questão dos colonatos na margem ocidental do Jordão seja vista com prudência e sugerindo implicitamente o congelamento de novas construções ou autorizações até à visita de Trump a Israel no dia 15. Como se sabe, Obama, nas suas últimas semanas, mandara os EUA absterem-se no Conselho de Segurança da ONU, permitindo a aprovação da resolução 2334, que declarou ilegais os colonatos israelitas.

Diga-se de passagem que não é este o primeiro choque da Administração Trump com a realidade. Dois membros destacados da equipa presidencial, os responsáveis pela Defesa e pela política externa, estão a realizar missões de controlo de estragos junto dos aliados históricos dos EUA, revoltados contra os delírios verbais de Trump sobre a NATO, a presença militar no Extremo-Oriente, etc. Foi o caso da visita do general John Mattis à Coreia e ao Japão (que termia hoje), assegurando a continuidade do empenhamento militar americano. E também de Rex Tillerson junto dos aliados da UE ontem reunidos em malta.

Outro ponto de possível marcha-atrás é a possível transferência da embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém (que israelitas e palestinianos reclamam como capital), defendida na campanha de Trump. Seria um triunfo da linha dura israelita mas representaria um terramoto político no Médio Oriente, podendo virar todo o mundo árabe contra Israel, mesmo as potências sunitas discretamente namoradas por Telavive como contrapeso ao Irão xiita, caso da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, etc.

Isto não obsta a que Trump seja a favor da colonização por Israel da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. Nomeou para embaixador em Israel um judeu fundamentalista, o advogado David Friedman, membro destacado da “Associação de Amigos Americanos de Beit El”, que angaria fundos para os colonatos. Segundo o diário israelita “Ha’aretz”, um dos financiadores desta e de outras organizações israelitas a operar na Cisjordânia é o pai de Jared Kushner, o genro de Donald Trump, que já distribuiu “dezenas de milhares de dólares”.

1000, 2000, 3000...

Além dos novos ventos que sopram de Washington, Netanyahu conta com o apoio dos partidos da coligação e tudo indica que chegará sem problemas ao fim da legislatura. Está a caminho de ser o primeiro-ministro mais duradouro do Israel democrático, superando até o pai da pátria, David Ben-Gurion. As sondagens mostram que continua a ser o líder mais apreciado, encarnando a divisa popular “Bibi, Melej Israel” (Bibi, rei de Israel).

Ainda assim, investigações por alegada corrupção e nepotismo podem convertê-lo num gigante de pés de barro. Na primeira, o “caso 1000”, Netanyahu é suspeito de ter aceitado presentes valiosos (charutos para ele, joias e champanhe para a mulher) da parte de amigos abastados, não declarados ao Fisco. O israelita Arnon Milján, produtor do filme “Pretty Woman”, terá feito ofertas ao primeiro-ministro no valor de mais de 700 mil shekels (170 mil euros). Em contrapartida, Netanyahu tê-lo-á ajudado a renovar por dez anos o visto de residência nos EUA, recorrendo aos contactos privilegiados junto do secretário de Estado, John Kerry.

A justiça também suspeita que Netanyahu tenha recebido favores de terceiros que procuravam contrapartidas económicas. Entre eles estará o multimilionário australiano James Packer, que emprestou o seu avião privado e financiou o alojamento do filho mais velho do governante, Yair, em hotéis de luxo. Em troca, Netanyahu terá ajudado o magnata a obter residência permanente em Israel, onde tem negócios.

A segunda investigação, o “caso 2000”, atribui ao primeiro-ministro a negociação de um acordo simbiótico com Arnon Mozes, editor do jornal “Yediot Aharonot” — até há pouco o diário em hebreu com maior tiragem, entretanto superado pelo gratuito “Israel Hayom” —, pouco antes das eleições de março de 2015.

Mozes terá proposto a Netanyahu que tanto o jornal como a sua popular versão digital “Ynet” passassem a fazer uma cobertura favorável, a troco de benefícios para a publicação. O pacote incluía a aprovação parlamentar de uma nova lei dos media que obriga o “Israel Hayom” (conhecido como “Bibiton”, por fusão do petit-nom do primeiro-ministro, Bibi, com a palavra hebraica iton, que significa jornal) a cobrar um preço mínimo por exemplar e mesmo a encerrar a edição de fim de semana.

No “caso 3000”, averigua-se a compra de três submarinos nucleares alemães, dado que Netanyahu obrigou o Ministério da Defesa a contornar o concurso público e fazer adjudicação direta ao grupo Thyssen-Krupp, de cujo Conselho de Administração faz parte o seu primo e advogado David Shimrom, que terá embolsado. A imprensa diz existir um “caso 4000”, mas ainda não se conhece a sua natureza.

Netanyahu parece ter do seu lado os principais agentes envolvidos: o procurador-geral, Avijai Mandelblit, e o diretor-geral da Polícia Nacional, Roni Alsheij. Mas o Canal 2 da televisão israelita e o diário “Ha’aretz”, tiveram acesso às transcrições das gravações do “caso 2000” e não vão desistir.