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Os factos reais e alternativos sobre a mulher mais poderosa da Casa Branca

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Ainda há uns meses, Kellyanne Conway era conhecida como a analista que apoiava Ted Cruz e criticava os comportamentos “pouco presidenciais” de Donald Trump. Hoje, é o braço direito do multimilionário que chegou à Casa Branca. Este é o retrato da mulher que foi à televisão defender os “factos alternativos” da era Trump e que justifica as medidas contra refugiados com um atentado terrorista que nunca aconteceu

Não sejas tão dramático, Chuck. Dizes que o chefe do gabinete de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, disse mentiras quando na verdade ele estava apenas a oferecer… factos alternativos”, respondeu Kellyanne. Estava a meio de uma entrevista com o jornalista da NBC Chuck Todd, respondendo a perguntas sobre a polémica conferência de imprensa em que Sean Spicer insistira que a “multidão que esteve presente na tomada de posse [de Donald Trump] foi a maior de sempre. Ponto”.

A expressão “factos alternativos” pegou fogo nas redes sociais e os comentadores políticos apressaram-se a comparar o conceito aos que o regime político vigente no clássico “1984”, de George Orwell, usava para controlar a população.

Ainda não acalmara a polémica – é difícil prever que acalme, ao ritmo que saem as notícias polémicas sobre as primeiras decisões de Donald Trump – quando estalou, esta quinta-feira, mais uma controvérsia protagonizada por Kellyanne em plena televisão. Foi numa entrevista com o jornalista da MSNBC Chris Mattews que, falando da proibição da entrada nos EUA de cidadãos de sete países de maioria muçulmana, a conselheira de Trump relembrou a suposta proibição de “seis meses para refugiados iraquianos” adotada em 2011 por Barack Obama, em resposta a um tal “massacre de Bowling Green”: “A maior parte das pessoas não sabe disto porque não foi noticiado”.

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Contas feitas pela imprensa norte-americana e a empresa de pesquisa Lexis, houve 90 notícias sobre o incidente em Bowling Green – sobre o massacre não houve, porque, citando o “Washington Post”, “nunca houve qualquer ataque terrorista em Bowling Green, Kentucky”. Os dois refugiados iraquianos que Conway referiu na entrevista, apresentados por ela como os “cérebros por trás do massacre”, foram detidos nesse ano e sentenciados a penas de prisão federal por enviarem armas e dinheiro com o objetivo de matar soldados americanos no Iraque, crime que confessaram. Ninguém morreu em solo norte-americano e, como resultado disto, Obama aprovou medidas que tornaram a entrada nos Estados Unidos mais difícil para os iraquianos, com mais medidas de segurança, e abrandou o ritmo de aprovação dos vistos.

Kellyanne Conway, que outrora geriu a campanha vitoriosa de Trump e agora se tornou sua conselheira na Casa Branca, teve de fazer novamente mais uma espécie de controlo de danos colaterais, como já se tornou hábito – disse no Twitter que por “massacre de Bowling Green” se referia aos dois refugiados que foram presos, remetendo para um link da ABC (que, afinal, noticiara o crime na altura).

Kellyanne é uma presença permanente nos programas noticiosos norte-americanos a defender o agora presidente e a atacar quem o ataca. Mas nem sempre foi assim – houve um tempo, muito próximo do que vivemos, em que Kellyanne classificava o comportamento de Trump como “muito pouco presidencial”.

É difícil de imaginar, mas a internet ajuda: os vídeos mostram uma Kellyanne bem diferente, criticando nos painéis de comentário político as atitudes de Trump, acusando-o de ter comportamentos pouco adequados ao cargo a que se candidatava, de pensar pouco nas questões importantes para o eleitorado, de ter construído negócios como a sua “universidade falsa” às costas dos “pequenos trabalhadores”, criticando-o por se recusar a mostrar as declarações de impostos.

Nessa altura, como desde o início da corrida à Casa Branca, Conway trabalhava a favor de Ted Cruz, que até maio, quando perdeu para Trump nas primárias do estado do Indiana, foi um dos seus mais sérios oponentes. Na superPAC “Keep the Promise”, Conway colocava em prática o que décadas de trabalho no mundo político, e sobretudo no mundo das sondagens, lhe tinham ensinado: como apelar aos eleitores, sobretudo às eleitoras, com um candidato masculino em mãos.

De Ted Cruz a Donald Trump, rumo à vitória

Conway não demorou a ser criticada pela troca radical de candidato: afinal, se até maio apoiara Ted Cruz e criticara publicamente Donald Trump, cedo se aproximou da equipa do multimilionário – que já conhecia desde 2001, ano em que com o marido se mudou para um apartamento na Trump World Tower – e se tornou analista da campanha dele. Depois, em agosto, quando Steve Bannon – líder do site de extrema-direita Breitbart – foi convidado para ser CEO da campanha de Trump, aceitou o convite com uma condição: “Nunca liderei uma campanha. Aceito se Kellyanne também for para a equipa como minha parceira”, relata a “New Yorker”.

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Rapidamente, Kellyanne passou a ser vista como a mulher com a chave para suavizar Donald Trump e torná-lo um candidato mais aceitável aos olhos de boa parte do partido republicano. “Ela é uma profissional da política, com muitos anos de experiência, e o seu papel na campanha também enviou um sinal aos republicanos de que pelo menos alguém nos níveis superiores sabia o que estava a fazer”, diz ao Expresso Matthew Dallek, historiador, comentador político e professor na Universidade George Washington.

Não foi a primeira a tentar fazê-lo: antes dela, Corey Lewandowski, o primeiro manager da campanha, tentara lidar com Trump: aproximou-se demasiado da família e começou a desagradar os filhos, facto que lhe custou o cargo, conta a “New Yorker”. Depois veio Paul Manafort, o estratega que fez equipa com Jared Kushner, genro de Trump e marido da filha Ivanka, para destronar Corey, mas também falhou. “A ideia de Corey Lewandowski era apenas deixar Trump ser Trump, e Paul Manafort não o conseguia controlar. Kellyanne foi uma influência positiva. Conseguiu convencê-lo a usar um teleponto durante algum tempo, clarificar a mensagem dele, mas mantendo o seu lado improvisado que seduz os seus apoiantes”, esclarece ao Expresso Edward Elder, especialista em comunicação política e professor na Universidade de Auckland.

“Uma bulldozer e uma bailarina”

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Num perfil assinado por Katy Waldman na “Slate”, titulado “Uma bulldozer e uma bailarina”, compara-se Conway, que já fez estudos de mercado para a marca Vaseline, a uma profissional com as propriedades da vaselina: “É suavizante e relaxante. Existe para reduzir a fricção, para tornar coisas duras em coisas fáceis e agradáveis, dar glamour às superfícies. Também é muito, muito escorregadia”. Durante muito tempo, os comentadores e jornalistas norte-americanos duvidaram: qual seria, afinal, a essência de Kellyanne, a mulher que apoiara Cruz e depois Trump, que primeiro dizia que as suas atitudes eram “muito pouco presidenciais” e que agora responde com secura: “Agora são atitudes presidenciais porque ele foi eleito presidente”.

Numa primeira abordagem à personagem de Kellyanne, figura cada vez mais proeminente e omnipresente no espaço mediático norte-americano, o Saturday Night Live duvidava, como muitos outros programas, das verdadeiras convicções de Conway, retratando-a como uma mulher sã perdida no mundo de Trump, tentando conter os estragos enquanto se lamentava sobre as tarefas ingratas que andava a fazer, cobrindo a cara quando Steve Bannon entrava numa sala e proferindo amargamente falas que insinuavam que a sua alma estava “morta”. No sketch “Day Off”, que mostra um dia de folga em que Conway é constantemente interrompida para aparecer na televisão a defender tweets e declarações cada vez mais ofensivas de Trump, acaba por perder a paciência e declarar à CNN: “Ele é doido!”.

Depois, a abordagem mudou. Por entre declarações sobre o instinto de Trump de responder a tudo o que de mal dissessem dele (“Eu e ele temos em comum [esse instinto]. Ele sente que deve poder defender-se”), e por entre aparições agressivas na televisão em que acusava a CNN de espalhar notícias falsas sobre o seu chefe e acusava a imprensa de atacar demasiado Trump, a imagem de Conway começava a mudar. Seria ela apenas uma mulher a cumprir um trabalho com um peso na consciência?

A abordagem do Saturday Night Live, como de outros programas de comédia e comentário político (Samantha Bee, no seu programa “Full Frontal”, chamava-lhe “a cobra porta-voz oficial de Donald Trump”) mudou, ao ganhar a perceção de que afinal Conway não tinha problemas de consciência em estar ao lado de Trump – afinal, ela fazia há muito parte das fileiras a que pertenciam Steve Bannon ou Robert Mercer, investidor no Breitbart e inicialmente apoiante da SuperPAC de Ted Cruz que depois mudou também para o campo de Trump. Recentemente, Conway tornou-se “protagonista” de um sketch em que a sua personagem admite fazer tudo pela fama, explicando que descobriu uma arte: “a arte de mentir”.

Pode não mentir, mas faz um bom trabalho ao desviar-se das perguntas que lhe são impostas (era também Samantha Bee que traduzia o que dizia ser “a fórmula” de Kellyanne para responder a questões: “Aceita a pergunta, não respondas, queixa-te da Hillary Clinton. É simples!”), defendem os especialistas consultados pelo Expresso. “Ela é muito inteligente, mas tem de responder pelas mentiras, teorias da conspiração e outras alarvidades, pondo-a numa posição quase impossível em entrevistas televisivas. Como Trump, ela provavelmente agrada à base de apoio do presidente – os quase 40% de apoiantes brancos que ajudaram a elegê-lo. Mas não consegue necessariamente convencer mais ninguém”, defende Matthew Dalleck.

Edward Elder duvida de que esse fosse o objetivo de Conway: “A forma como ela responde às perguntas resulta junto dos apoiantes de Trump, porque confirma os preconceitos deles enquanto é agressiva o suficiente para confirmar a desconfiança e ódio que eles têm pelos media. Acho que espectadores ocasionais e pessoas pouco envolvidas politicamente veem isto como típica retórica política (coisa que não é). Também penso que os mais antiTrump veem isto como muitas mentiras. Mas vendo o que ele disse e fez desde a tomada de posse, suspeito que o objetivo é apelar a quem já gosta dele. Não estão a tentar convencer mais ninguém de que estão certos”.

Kellyanne, que podia ter sido democrata

Se os programas de humor e comentário duvidam da convicção de Conway, ela responde ao “Washington Post” sobre as críticas que fazia antigamente a Trump como “situações pontuais” e recorda que tem motivos para gostar realmente do multimilionário, como a prosperidade que empresários como ele trouxeram a famílias como a dela. Afinal, Kellyanne, que segundo a própria “devia ter sido uma democrata, criada com quatro mulheres nos anos 1970”, é uma nativa de New Jersey e, se hoje vive numa das zonas mais caras daquele estado, a vida nem sempre foi fácil.

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Nascida há 50 anos no “Garden State”, Kellyanne foi educada por uma avó, duas tias solteiras e pela mãe, que ficou solteira depois de o marido a trair e abandonar. Foi na altura em que empresários como Trump começaram os seus impérios que a mãe de Kellyanne conseguiu trabalho do Hotel e Casino Claridge. Depois, Kellyanne, que garante “não conseguir recordar nenhuma conversa política que tenha tido em casa”, começou a ouvir falar de política sozinha e interessou-se por Ronald Reagan, tornando-se republicana por convicção: “Gostava do homem inspirador, animador, mas ainda assim duro”.

A sua vida foi de conquistas, sobretudo para uma mulher solteira: saiu de casa aos 18 anos, tornou-se a primeira pessoa da sua família a tirar um curso superior (de Direito, na universidade George Washington) e pagou os seus estudos, aproximou-se de veteranos da política e, sem exercer por muito tempo a área que estudou, tornou-se rapidamente analista para estrategas republicanos bem conhecidos de Washington. Com eles, “homens sábios que se interessavam” pela sua carreira, aprendeu muito nesses anos de início de carreira, garantindo agora: “De dia, sou um homem”.

De novo mostrando-se uma mulher independente e pró-ativa, também conseguiu abrir a sua própria empresa de sondagens, a Polling Company, em 1995, aconselhando empresas sobre a melhor forma de apelar às clientes do sexo feminino (Vaseline, American Express eram algumas delas) e fazendo o mesmo para clientes políticos que queriam conquistar eleitoras (Mike Pence, a National Rifle Association ou Todd Adkins foram alguns dos seus clientes, alguns dos quais com quem manteve laços depois, no campo político). As suas experiências como mulher num mundo quase sempre de homens levam-na a considerar-se uma pós-feminista, diz ao “Washington Post”: Não me considero uma feminista. Acho que a minha geração não é grande fã de rótulos. Sinto que o movimento feminista foi tomado pelo movimento pró-aborto ou pelos sentimentos anti-homens. Sinto-me uma pós-feminista, uma daquelas mulheres que são produto das suas escolhas e não vítimas das suas circunstâncias”.

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As suas posições políticas começaram a mostrar-se nos anos 1990, quando integrava o painel de comentadores do programa de Bill Maher “Politically Incorrect”, que serviu de montra a uma nova geração de mulheres republicanas. Depois, continuando a trabalhar na sua empresa, casou com o advogado George T. Conway III – o mesmo que trabalhou no processo de destituição de Bill Clinton, em 1998 – e teve quatro filhos, todos acontecimentos que considera terem acontecido “tarde” porque estava “muito focada na sua carreira”, da qual também faz parte o livro que escreveu a meias com Celinda Lake, estratega democrata, sobre os arquétipos em que se dividem as mulheres e o que elas desejam.

Estamos a perder, mas há hipótese de recuperarmos

Com Trump, para quem já tinha produzido uma sondagem quando este considerou candidatar-se a governador de Nova Iorque, em 2013 – segundo os seus críticos, um estudo em que abrilhantava as hipóteses de Trump, mascarando números pouco animadores –, sentou-se no escritório da Trump Tower, a 12 de agosto deste ano, para discutir a oferta de trabalho que tinha em cima da mesa. “Estamos a perder, mas há hipótese de recuperarmos”, disse-lhe na altura, no meio da controvérsia que a campanha atravessava depois de Trump ter criticado o soldado norte-americano Khan, que morreu em serviço no Iraque. Trump não acreditava que estivessem a perder. “Toda a gente acha que eu adoço o que lhe digo, mas não. Eu dou-lhe as más notícias de uma forma amigável”.

Hoje em dia, Conway, que aparece na televisão quase constantemente e se tornou uma das caras principais da equipa de Trump e, na perceção pública, o seu braço direito, admite: “Cortei a minha presença televisiva para metade. E ele [Trump] diz: ‘Não te vi na televisão na última hora, onde estás?’. E eu respondo: ‘Senhor Trump, gerir a campanha significa falar com os diretores de cada estado, com o Comité Nacional Republicano’”. Em conversa com a “New Yorker” não poupa elogios ao chefe: “Estou muito grata por ter sido promovida com base nas minhas capacidades, visão e compatibilidade com ele, e por ele saber que eu executaria tudo com base na sua voz, com respeito”.

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Mike Cornfield, especialista em análise de dados e comunicações estratégicas e professor na Universidade George Washington, considera que foi a escolha ideal: “É a melhor do staff dele, tem uma grande capacidade de mudar o assunto e é uma prova simbólica de que ele respeita as mulheres”. Kellyanne esclarece que quer que a sua reputação, daqui a uns anos, seja a de uma “excelente mãe, excelente amiga”, com um dos seus filhos a fazer História porque “curou o cancro ou se tornou a primeira mulher presidente”.

Mas os analistas duvidam de que a sua química com Trump chegue para rebater todas as críticas e apagar o que houver de mau para escrever sobre a aliança dos dois, daqui a uns anos: “A estratégia dela resulta a curto prazo – pode fazer ricochete se a imprensa conseguir alguma informação escandalosa sobre laços com a Rússia e outros conflitos de interesse”, explica Cornfield. Prewitt concorda, acrescentando: “A reputação dela está ligada a eventos que não pode controlar. Ele pode ser destituído se reagir demasiado (e a economia colapsar) ou pode vencer o segundo mandato (se “tornar a América grande de novo”). Depende de se os grandes glaciares derreterem e puserem a Flórida debaixo de água, dos lançamentos de mísseis coreanos, de a China controlar o mundo enquanto os Estados Unidos observam de lado”.

  • A resistência dos funcionários de organismos públicos norte-americanos (os serviços florestais, os serviços de prevenção de doenças, a NASA, a FDA e vários serviços ligados ao ambiente e à saúde) à tentativa de instrumentalização do saber técnico produzido pelo Estado para construir “factos alternativos” e promover a ignorância científica é um bom exemplo para compreendemos que os trabalhadores do Estado podem muitas vezes ser, pelo menos em sociedades democráticas, a última barreira em defesa da democracia. A segunda lição a tirar é que defender a autonomia dos funcionários públicos face ao poder dos eleitos – o que passa por garantir a sua segurança laboral – é defender a democracia. A vitória de Trump, sendo uma tragédia, é plena de pedagogia. Redescobrimos que não podemos dar nada por garantido. Só a resistência popular e a cdadania quotidiana o pode fazer. E na linha da frente estão, muitas vezes, os tão vilipendiados funcionários públicos

  • Os “factos alternativos” da Administração Trump acabaram de ganhar um site

    Mas não foi o governo americano que o criou. Quem comprou o domínio alternativefacts.com está a redirecionar os utilizadores para um artigo de psicologia sobre abuso emocional e manipulação — a técnica de ‘gaslighting’, que vai buscar o nome a um filme protagonizado por Ingmar Bergman e que passa por confundir a noção de realidade das vítimas a fim de as controlar