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Lava-Jato continua  a derrubar milionários

A maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro do Brasil leva Eike Batista para cadeia. Antes, já lá estava Marcelo Odebrecht

Nicole Lacerda

Mario Anzuoni / Reuters

Quase a completar três anos, a Operação Lava-Jato já derrubou dois dos maiores líderes empresariais brasileiros. Ao todo, até agora, a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro do Brasil já implicou 260 pessoas.

Com uma fortuna calculada em cerca de 30 mil milhões de dólares (€27,8 mil milhões) há apenas cinco anos, o que fazia dele o homem mais rico do Brasil e o sétimo mais rico do mundo, Eike Batista foi esta semana detido no Complexo Penitenciário de Gericinó, no Rio de Janeiro.

O empresário foi alvo de uma nova fase da Operação Lava-Jato — a Eficiência —, suspeito de envolvimento num esquema de corrupção liderado pelo ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, que terá ocultado cerca de 100 milhões de dólares no exterior (€92 milhões). Eike foi sujeito a prisão preventiva depois de ser acusado de pagar subornos no valor de 16,5 milhões de dólares (€15,3 milhões) ao ex-governador, que está preso desde novembro.

Este foi mais um dos desdobramentos do esquema. Em junho do ano passado, Marcelo Odebrecht já tinha protagonizado um dos momentos mais importantes da Lava-Jato. Foi preso na 14ª fase da operação. Era presidente da maior construtora do Brasil, com uma fortuna estimada em 13,1 mil milhões de dólares (€12,2 mil milhões), que lhe dava a 9ª posição da “Forbes Brasil” em 2015, e hoje ocupa uma das celas do Complexo Médico-Penal do Paraná.

As investigações comprovaram que a Odebrecht pagou mais de 113 milhões de dólares (€104,9 milhões) em subornos para conseguir contratos com a Petrobras. Considerado culpado pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa, teve uma pena de 18 anos e 4 meses de prisão.

Ao longo das 37 fases da operação, foram decretadas 79 prisões preventivas pela 13ª Vara Federal de Curitiba, capital do Paraná. Atualmente, há 22 arguidos presos preventivamente.

Para Sergio Lazzarini, professor da Universidade Insper em São Paulo, o Brasil está a passar por uma potencial transformação e a Lava-Jato tem sido um reforço para os órgãos de controlo do país. “À medida que essas prisões acontecem percebe-se que é preciso colocar mais critério na forma como o Governo atua com as empresas”, refere o especialista em estratégia empresarial e em organização do sector público.

No ambiente de negócios brasileiro, o Governo sempre foi muito influente a oferecer recursos, como por exemplo empréstimos do BNDES, oportunidade de concessões, mas essas formas de apoio foram ampliadas nos últimos anos.

Então os empresários viram a oportunidade de se conectarem com o sistema político de forma a obter benefícios. De acordo com Lazzarini, Eike Batista é uma expressão disso. “Inicialmente, começa a desenvolver estratégias empresariais, captando mais o mercado privado. Mas ao longo do tempo acaba por se render ao ambiente de negócios ao perceber que pode contactar políticos e captar recursos do BNDES e outros bancos”.

Entre os que já apareceram na lista mundial da “Forbes”, Eike Batista foi o primeiro a ser preso desde Pablo Escobar, que esteve no ranking durante sete anos consecutivos. O homem que já esteve entre os 10 mais ricos do mundo viu a sua fortuna ruir em câmara lenta.

Em 2012, Eike apareceu em sétimo lugar na “Forbes”. Já em 2013 deixou de ser milionário quando uma das suas empresas pediu recuperação judicial. Num intervalo de cerca de 15 meses, a fortuna do empresário passou de 30 mil milhões de dólares (€27,8 mil milhões) para 900 milhões de dólares (€836 milhões) e, a partir daí, foi sempre a descer.

O tombo foi enorme. Mais ou menos a mesma distância que vai de uma sala decorada por um Lamborghini e um piano a uma cela de 15 metros quadrados. Da ostentação a quatro refeições controladas por dia. De cabeça rapada, Eike divide espaço com outros seis presos da Lava-Jato que também não têm curso superior.