Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Trump faz inversão de marcha e aproxima-se da estratégia de política externa de Obama

MANDEL NGAN

Depois de passar meses a prometer um corte radical com as políticas da anterior administração, o novo Presidente parece agora estar a assumir os principais pilares da estratégia do democrata: avisou Israel contra a expansão dos colonatos nos territórios ocupados da Palestina, exigiu à Rússia que abandone a Crimeia e ameaçou o Irão e a Coreia do Norte com sanções caso continuem a testar mísseis balísticos

Donald Trump parece estar menos investido do que nunca na sua promessa de cortar radicalmente com a estratégia de política externa seguida por Barack Obama nos últimos oito anos, aproximando-se esta semana da anterior administração nos avisos deixados a Israel, à Rússia, ao Irão e à Coreia do Norte e nas garantias de apoio manifestadas pelo seu chefe militar, o general James Mattis, aos aliados Coreia do Sul e Japão.

No que o "New York Times" diz ser a sua mudança mais surpreendente desde que Trump tomou posse há duas semanas, a Casa Branca emitiu esta quinta-feira um inesperado comunicado onde apela ao Governo israelita que páre de expandir a construção de mais casas em colonatos judaicos para lá das fronteiras definidas de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia, dois dos territórios palestinianos que os hebraicos ocupam há várias décadas.

Fazê-lo, como o Governo de Benjamin Netanyahu já autorizou por duas vezes desde que Trump assumiu oficialmente a presidência dos EUA, "não vai ajudar a atingir o objetivo" da paz na região. "Embora não acreditemos que a existência de colonatos seja um impedimento à paz, a construção de novos colonatos ou a expansão dos que já existem para lá das atuais fronteiras pode não ajudar a alcançar esse objetivo", diz a Casa Branca em comunicado.

Na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, Nikki R. Haley, a mulher que Trump escolheu para embaixadora dos EUA na organização, deu mais um passo inesperado ao anunciar que os norte-americanos não vão levantar as sanções impostas à Rússia pela anterior administração enquanto o país não parar de desestabilizar a Ucrânia e não retirar as suas tropas da Crimeia, a península do leste ucraniano que foi anexada pelos russos há quase três anos.

"Queremos melhorar as nossas relações com a Rússia, contudo, a terrível situação no leste da Ucrânia exige uma condenação clara e forte das ações russas", disse esta quinta-feira Haley, evocando a posição da sua antecessora Samantha Power e revertendo a aproximação a Moscovo em que Donald Trump se empenhou durante a campanha.

O anúncio de Haley surgiu depois de o senador republicano Jonh MCain ter avisado o Presidente de que Vladimir Putin está a testá-lo com as suas recentes ações no país vizinho, onde continua em marcha uma guerra que já provocou mais de dez mil mortos. Há dois dias, o "Washington Post" já referia num artigo de análise que "a nova erupção de violência na Ucrânia" pode marcar o "primeiro testo da Rússia a Trump".

Em resposta aos testes balísticos do Irão, a administração está a preparar sanções semelhantes às que a administração Obama impôs há pouco mais de um ano, com a Casa Branca de Trump a continuar a não dar qualquer indicação de que vai anular o histórico acordo nuclear que o seu antecessor alcançou com Teerão – essa tinha sido outra promessa de campanha do republicano. A par disso, e apesar de Trump ter sugerido que ia começar a cobrar aos aliados pela sua proteção, ontem o general James Mattis, novo secretário da Defesa, esteve em Seul e estará esta sexta-feira em Tóquio, para reafirmar o compromisso de defesa norte-americano sem qualquer compensação.

Não é incomum, aponta o "New York Times", que governos acabados de chegar ao poder não consigam cortar tão radicalmente com as políticas externas das anteriores administrações como desejariam, em larga medida porque estar no poder é muito diferente de estar em campanha eleitoral. Mas no caso de Trump, a inversão de marcha e o facto de estar a seguir os principais pilares da estratégia de Obama é particularmente surpreendente, depois de duas semanas de telefonemas tempestuosos entre Trump e líderes estrangeiros, caso das chamadas com o Presidente mexicano e o primeiro-ministro australiano, nas quais o novo Presidente continuou a pôr em causa o status quo diplomático e em risco algumas relações bilaterais dos EUA.

Sobre Israel, a Casa Branca sublinhou esta quinta-feira que o Presidente "ainda não assumiu uma posição oficial quanto à atividade de colonização" da Palestina ocupada e diz que Trump vai discutir esse assunto com o primeiro-ministro Netanyahu no seu encontro oficial em Israel a 15 de fevereiro, a quem pediu para suspender a construção de novos colonatos e a expansão dos existentes até lá. Esta alteração de estratégia surgiu depois de o líder norte-americano se ter encontrado com o Rei Abdullah II da Jordânia, à margem do pequeno-almoço de oração nacional – um encontro em que o monarca jordano, um dos mais respeitados líderes do mundo árabe e aliado da Autoridade Palestiniana, passou à frente de Netanayhu na lista de reuniões privadas de Trump.

A alteração de posição também coincidiu com a confirmação de Rex Tillerson enquanto chefe da diplomacia norte-americana e com as primeiras visitas oficiais do novo secretário da Defesa James Mattis à Coreia do Sul e ao Japão. Os dois ministros são tidos como potenciais catalizadores de uma atitude mais moderada da parte de Trump e da sua equipa de conselheiros quanto a uma série de temas quentes de política externa.