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Internacional

Parlamento Europeu unido contra Ted Malloch, o homem que Trump quer nomear embaixador para a UE

Empresário que apoiou o Brexit tem uma postura de “malevolência ultrajante” quanto “aos valores que definem a União Europeia”, acusam líderes dos principais grupos políticos do Parlamento em Bruxelas. Numa carta inédita enviada à Comissão Europeia e ao Conselho, pedem que a escolha do líder americano seja chumbada. “A última coisa de que precisamos na Europa é de mais nacionalismo exportado pela administração Trump”, diz Guy Verhofstadt

As principais famílias políticas do Parlamento Europeu estão unidas numa tentativa sem precedentes de bloquear a nomeação do futuro embaixador dos Estados Unidos na União Europeia, perante indicações de que o homem que Donald Trump vai escolher para fazer a ponte com o bloco europeu é Ted Malloch, um empresário que foi um "estridente apoiante" do Brexit durante a campanha para o referendo de junho e que o Presidente norte-americano já terá entrevistado para o cargo.

A notícia está a ser avançada pelo "The Guardian", que refere esta sexta-feira que, "num passo surpreendente que ameaça abrir uma frente de guerra diplomática, os líderes dos grupos conservador, socialista e liberal em Bruxelas escreveram à Comissão Europeia e ao Conselho a pedir-lhes para que rejeitem a escolha" de Trump para o posto de embaixador na UE.

Numa entrevista recente à BBC, quando foi questionado sobre o seu interesse em mudar-se para Bruxelas, Malloch assumiu um tom desafiante ao recordar que na sua carreira já ocupou um cargo diplomático que lhe permitiu ajudar a "derrubar a União Soviética" e ao sublinhar que "se calhar há outra união que precisa de ser amansada". Na mesma entrevista Malloch também disse que Trump não é um fã da UE por ser "supranacional e não-eleita" e atacou o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, que "era mais adequado enquanto autarca de alguma cidade no Luxemburgo" e que por isso "devia talvez voltar [ao seu país-natal] para fazer isso outra vez".

Na quinta-feira, o "Politico" foi o primeiro a noticiar que Bruxelas está unida na condenação a Mallloch e que ameaça chumbar essa nomeação de Trump. Esta manhã, o "The Guardian" cita cartas dos líderes dos principais grupos políticos do Parlamento Europeu que confirmam esta união de forças contra o possível futuro embaixador dos EUA. Manfred Weber, líder do Partido Popular Europeu (PPE) que é aliado da chanceler alemã, Angela Merkel, e de Guy Verhofstadt, líder da Aliança de Liberais e Democratas Europeus (ALDE), acusa Malloch de "malevolência ultrajante" quanto aos "valores que definem esta União Europeia".

Numa carta enviada por Weber e Verhofstadt a Juncker e ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que o jornal britânico consultou, lê-se: "Nas últimas semanas, Ted R. Malloch, o provável nomeado do Presidente dos EUA [Donald] Trump para se tornar o novo embaixador para a União Europeia, proferiu uma série de declarações públicas que denigrem a UE. Nestas declarações, o potencial candidato expressa a sua ambição de 'amansar o bloco como derrubou a União Soviética', um apoio eloquente à dissolução da União Europeia, e faz uma aposta explícita no colapso da moeda única dentro de meses. Estas declarações revelam uma malevolência ultrajante face aos valores que definem esta UE e, ao serem pronunciadas por um representante oficial dos Estados Unidos, têm o potencial de minar seriamente a relação transatlântica que, nos últimos 70 anos, deu um contributo essencial para a paz, a estabilidade e a prosperidade do nosso continente."

Numa outra carta que o líder da Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (S&D) também enviou às chefias europeias, Gianni Pitella descreve as declarações de Malloch como "chocantes" e insta as instituições da UE a tratarem-no como persona non grata. "O sr. Malloch disse abertamente que é favor da dissolução da UE — que deve ser "derrubada como a União Soviética" — e que quer o fim da moeda única dentro de meses, claramente demonstrando a sua hostilidade não apenas contra a União Europeia mas também contra os nossos valores e princípios comuns. Acreditamos firmemente que ignorar esta postura inaceitável vai minar a nossa futura relação com a administração dos EUA e pode potencialmente contribuir para a disseminação do populismo e do euroceticismo por toda a Europa. Por esse motivo, o grupo S&D é claro quando defende que Malloch não deve ser aceitado enquanto representante oficial [dos EUA] para a UE e deve ser declarado persona non grata."

Na missiva assinada por Weber e Verhofstadt, os líderes dos grupos conservadores e liberais acrescentam que estão "fortemente convencidos de que as pessoas que têm como missão perturbar ou dissolver a União Europeia não devem ser acreditadas enquanto representantes oficiais para a UE". Para que um embaixador nomeado para o bloco regional receba acreditação para chefiar uma missão diplomática em Bruxelas, é preciso que tanto a Comissão como o Conselho aprovem o nome proposto a par dos Estados-membros e do Serviço Europeu para a Ação Externa. "Em nome dos nossos grupos políticos no Parlamento Europeu", acrescentam os dois homens, "pedimos-vos que não aceitem as credenciais de Malloch se ele for proposto pelos EUA para ser embaixador na UE".

Citado pelo "The Guardian", Verhofstadt, que também está encarregado de liderar as negociações do Brexit em nome dos 27 Estados-membros, reforçou a mensagem da carta, acusando Malloch de "denegrir a UE" e de "ameaçar minar a nossa relação tradicionalmente forte com os EUA". "A última coisa de que precisamos na Europa é de mais nacionalismo exportado pela administração Trump. Exigimos que a sua acreditação seja rejeitada."

Numa terceira carta que o mesmo jornal publicou na quinta-feira, intitulada "Os líderes europeus têm de dar uma resposta a Trump", 52 figuras associadas ao Conselho Europeu para as relações externas pediam aos líderes da UE que aproveitem a cimeira desta sexta-feira a decorrer em Malta para fazerem frente a Donald Trump e à sua ordem executiva que proíbe a imigração de sete países muçulmanos e suspende os programas de acolhimento de refugiados nos EUA. "A ordem condena nações inteiras e impede os refugiados que não cometeram quaisquer crimes de encontarem segurança, o que dificulta ainda mais uma resposta internacional à crise dos refugiados", é dito. "Isto também põe em risco a cooperação no combate ao terrorismo e estimula o recrutamento pelo ISIS [autoproclamado Estado Islâmico ou Daesh]."

Os signatários, entre os quais se contam o antigo secretário-geral da NATO Javier Solana e os portugueses Carlos Gaspar, diretor do IPRI, e os ex-ministros Miguel Poiares Maduro e Teresa Gouveia, pedem que a UE responda a esta ação política de Trump com uma frente unida em defesa dos Direitos Humanos, criando uma missão de Estado de Direito que preste assistência nos portos e aeroportos americanos e que "repense a segurança europeia de uma forma mais consolidada e responsável".