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Efeito Trump. Bolívia condena Argentina por reforçar postura anti-imigração

Presidente da Argentina, Mauricio Macri

DAVID FERNANDEZ/EPA

O Presidente argentino assinou esta semana uma ordem executiva anti-imigração que está a agitar as relações com os vizinhos. Alfredo Olmedo, senador da província de Salta que faz fronteira com a Bolívia, sugeriu entretanto que deve haver um muro a separar os dois países. “Concordo a 100% com Trump”, disse

Não é só nos Estados Unidos que a retórica anti-imigração e o isolacionismo estão a ganhar força e espaço na sociedade. Tal como Donald Trump, Mauricio Macri é um magnata tornado Presidente, no caso da Argentina, que à semelhança do que o novo Presidente dos EUA fez há sete dias, também assinou esta semana uma ordem executiva para proibir a entrada de migrantes e para acelerar a deportação de residentes estrangeiros suspeitos de cometerem crimes. Na Argentina, até as conversas sobre muros são iguais à postura de Trump em relação à fronteira com o México — há alguns dias, depois de Macri ter assinado o decreto em questão, o senador de uma província que faz fronteira com a Bolívia sugeriu que ali deve ser construída uma barreira física para impedir a entrada de migrantes clandestinos.

O milionário Macri já comprou a guerra diplomática com as nações vizinhas. Ao assinar a ordem executiva contra a entrada de imigrantes, o seu governo de centro-direita defendeu que tem a responsabilidade de lutar contra crimes relacionados com droga, que atribui em larga medida ao fluxo de migrantes vindos dos países a norte. "Cidadãos peruanos e paraguaios vêm para aqui e acabam a matar-se uns aos outros pelo controlo do comércio de droga", disse Patricia Bullrich, ministra da Segurança da Argentina, na sequência da ordem assinada pelo Presidente. "Muitos paraguaios, bolivianos e peruanos envolvem-se [no tráfico] ou enquanto capitalistas ou enquanto mulas, enquanto condutores ou outros postos na cadeia de tráfico de droga."

As palavras da ministra e as acusações diretas a três povos distintos já angariaram a condenação furiosa da Bolívia. "Rejeitamos este tipo de estigmatização contra os nossos compatriotas, que coincide com a atitude xenófoba de Trump", respondeu o ministro do governo boliviano Carlos Romero. No Twitter, o Presidente Evo Morales também contestou o passo argentino: "Não podemos seguir o exemplo do norte e as suas políticas, construindo muros que nos dividem."

Myriam Bregman, advogada de Direitos Humanos filiada ao Partido Socialista dos Trabalhadores, acrescentou: "Macri está empenhado em copiar a agenda de Trump. Eles estão a tentar associar a imigração ao crime. E enquanto perseguem pessoas pobres das favelas por causa da cor da sua pele ou da sua nacionalidade, o tráfico de droga continua a ser gerido por membros do governo e polícias corruptos", acusou.

Em comunicado, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Bolívia, David Choquehuanca, disse que a ordem executiva de Macri "faz afirmações infundadas que não contribuem para a luta contra a discriminação e a xenofobia nos nossos países". Esta quinta-feira, Morales acrescentou no Twitter que tem "confiança" no Presidente Macri para trabalharem em conjunto pelos "nossos povos irmãos".

Logo a seguir a estas reações, o senador argentino Alfredo Olmedo, que representa a província de Salta, no norte, na fronteira com a Bolívia, veio atiçar ainda mais o vizinho ao sugerir que também a Argentina deve erguer um muro na fronteira. "Temos de construir um muro. Concordo a 100% com Trump."

A nova ordem anti-imigração de Macri, que foi anunciada na segunda-feira, proíbe a entrada na Argentina de cidadãos estrangeiros com cadastro criminal e acelera a deportação de imigrantes acusados de violar a lei, mesmo que não tenham sido julgados e condenados pelos alegados crimes. Ao contrário da ordem de Trump, que no caso da entrada de imigrantes diz respeito apenas a cidadãos do Iémen, Iraque, Irão, Líbia, Síria, Somália e Sudão, o decreto de Macri não especifica países e abrange apenas pessoas condenadas por crimes.

A imigração para a Argentina dos países mais a norte, onde a maioria da população é mestiça ou indígena, como o próprio Presidente Morales, tem sido sempre uma fonte de tensões raciais num país onde cerca de 79% da população é descendente de imigrantes europeus. Tal como acontece nos EUA e noutros países, na Argentina os imigrantes tendem a trabalhar na construção civil e noutros setores com trabalhos mal pagos que, acusam ativistas, os cidadãos argentinos não querem para si.

"O que vai a mulher de Macri fazer sem bolivianos para trabalhar nas suas fábricas?", questionou esta quinta-feira José Alberto Gonzáles, presidente do Senado da Bolívia, referindo-se ao facto de Juliana Awada, a primeira-dama argentina, ter sido acusada de empregar bolivianos clandestinos na sua cadeia de produção de vestuário. "Antes de pensarem em muros, pensem na vossa economia."