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O escândalo Fillon e a orquestra da direita que poderá ver “o Titanic a afundar-se”

François Fillon acompanhado pela sua mulher Penelope

ERIC FEFERBERG/Getty Images

Sondagem divulgada pela Europe 1 dá conta de que 76% dos franceses não ficaram convencidos com a resposta de François Fillon ao escândalo em que ele e a mulher estão envolvidos e que apenas 29% ficaram convencidos com os argumentos do ex-primeiro-ministro. No seu Partido Republicano começam a surgir as primeiras vozes críticas e na imprensa já são avançados nomes de prováveis substitutos na corrida da direita às presidenciais

Helena Bento

Jornalista

François Fillon, que até há bem pouco tempo era apontado como o provável vencedor das eleições presidenciais francesas, pode ter agora os dias contados como o candidato da direita à corrida ao Eliseu. O escândalo em que ele e a mulher, Penelope, estão envolvidos, por suspeita de “uso indevido” de dinheiros públicos, já começou a fazer os primeiros estragos. Não só as sondagens apontam para uma queda brusca da sua popularidade, como dentro do seu partido (Partido Republicano) há já quem exija que o ex-primeiro-ministro se retire da corrida às presidenciais.

Fillon, que foi primeiro-ministro durante a Presidência de Nicolas Sarkozy (2007-2012), está a ser investigado no âmbito de um inquérito desencadeado na semana passada por uma notícia do jornal satírico “Le Canard Enchaîné”, segundo a qual Penelope Fillon recebeu 831.440 euros brutos como assistente parlamentar do marido, e também do seu sucessor na Assembleia Nacional, Marc Joulaud, entre 1998 e 2013, funções que, segundo o jornal, nunca terá desempenhado.

Mas este não foi o único “emprego fictício” que a mulher do candidato da direita terá tido. Penelope, revelou ainda o jornal, recebeu cerca de 100 mil euros da revista literária “La Revue des Deux Mondes”, dirigida por um empresário multimilionário amigo de Fillon, entre 2012 e 2013, para a qual, alegadamente, escreveu apenas duas críticas de livros.

Já na quarta-feira, o “Le Canard Enchaîné” revelou que Fillon terá ainda remunerado dois dos seus filhos, Marie e Charles Fillon, com 84 mil euros entre 2005 e 2007, na qualidade de assistentes parlamentares, quando ambos eram ainda estudantes e não exerciam profissionalmente como advogados. Depois de ter sido eleito senador, a 1 de outubro de 2005, o ex-primeiro-ministro terá assinado um contrato com a sua filha Marie (que tinha, então, 23 anos) como assistente, com um salário inicial de 3773 euros brutos mensais, que passaram a 3814 euros até ao final do ano seguinte, revelou o jornal francês.

Em 2007, Marie terá sido substituída pelo irmão Charles (que tinha também 23 anos), tendo este passado a auferir 4846 euros brutos mensais até 17 de junho de ano. No total, os dois filhos de Fillon terão recebido 84 mil euros em dinheiros públicos. Segundo o diário “Le Parisien”, Marie e Charles deverão ser interrogados “rapidamente” pelos agentes do Gabinete Central de Luta contra a Corrupção e as Infrações Fiscais e Financeiras.

Apesar de François Fillon negar todas as acusações e ter já prometido que vai levar a sua candidatura “até ao fim”, a pressão para que se retire e deixe o lugar à disposição é cada mais notória. Na quarta-feira, em declarações à rádio France Info, Georges Fenech, deputado do Partido Republicano, disse que a candidatura de Fillon é “nula e vazia” dadas as circunstâncias atuais e que a situação do vencedor das primárias à direita “deixou de ser sustentável”.

“São questões éticas e morais que estão aqui em causa”, disse Fenech, para quem o partido “não pode simplesmente sentar-se e ficar à espera, como a orquestra que vê o Titanic a afundar-se”. Outro deputado do partido, Bruno Le Maire, afirma que a quantia de dinheiro envolvida no escândalo “chocou muito o povo francês”, embora tenha deixado claro que mantém o seu apoio ao candidato da direita.

Apesar de considerar que tudo isto não passa de um “golpe de Estado institucional” orquestrado pelos socialistas, François Fillon sabe quão graves são estas acusações e sabe também quão importante e decisivo é manter os membros do partido do seu lado. Foi por isso que esta quarta-feira solicitou a presença de todos os deputados do Partido Republicano numa reunião, durante a qual lhes terá pedido que permaneçam do seu lado pelo menos durante as próximas duas semanas, tempo que deverá ser suficiente para se conhecerem as primeiras conclusões da investigação de que agora é alvo, refere o britânico “The Guardian”.

Antes de rebentar o escândalo do “emprego fictício” da sua mulher, Fillon era considerado um dos favoritos às presidenciais de abril e maio (primeira e segunda volta, respetivamente) e as sondagens davam-no como o provável vencedor das eleições. Mas a população francesa parece agora pouco inclinada a continuar a confiar nele. As últimas sondagens divulgadas apontam para que Fillon seja eliminado logo na primeira volta, ficando atrás da candidata da extrema-direita Marine Le Pen e do candidato independente Emmanuel Macron.

O jornal britânico cita em partitular uma sondagem divulgada esta terça-feira pela Europe 1, que dá conta de que 76% dos franceses não ficaram convencidos com a resposta de Fillon ao escândalo em que ele e a mulher estão envolvidos, e que apenas 29% dos inquiridos dizem aceitar os argumentos apresentados pelo ex-primeiro-ministro. De acordo com a mesma sondagem, 54% dos inquiridos acreditam que Fillon é “capaz de unir a direita” e 48% consideram que ele tem as qualidades necessárias para ser Presidente, mas apenas 28% reconhecem a sua honestidade e 27% acreditam que “compreende as pessoas”.

Embora oficialmente ainda não seja abordada a substituição de Fillon na corrida às presidenciais por outro candidato da direita francesa, há já vários nomes em cima da mesa. O mais óbvio é o de Alain Juppé, que perdeu as primárias de novembro de 2016 para Fillon. Philippe Gosselin, membro da Assembleia Nacional de França, verbalizou aliás esse desejo esta quinta-feira, apelando a Juppé para avançar com uma candidatura alternativa, mas o ex-primeiro-ministro durante a presidência de Jacques Chirac já disse não estar disponível para tal.

Entre os restantes potenciais candidatos avançados pelos media franceses encontram-se o antigo ministro das Finanças François Baroins, Xavier Bertrand, presidente da região de Norte-Passo de Calais-Picardia, e Valérie Pécresse, presidente da região de Ille-de-France (Paris).

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    A revelação de que a mulher de François Fillon, um dos candidatos de direita às presidenciais francesas, terá recebido indevidamente meio milhão de euros caiu que nem uma bomba. Um inquérito na justiça já foi aberto. E vamos ver que efeitos colaterais poderá isto ter nas eleições