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O terrorista que tirou uma foto com Merkel e outras histórias falsas (e preocupantemente populares)

IRONIA. A conservadora chanceler alemã Angela Merkel, é o maior alvo das notícias falsas da extrema-direita

Em ano de eleições, Merkel está preocupada: as histórias mais populares que se partilham sobre a chanceler nas redes sociais são falsas. O Facebook já começou a verificar as notícias que circulam na Alemanha para controlar os danos e assumir responsabilidade

Já ouviu falar do grupo de mil homens que marchou na passagem de ano, em Dortmund, na Alemanha, enquanto cantava “Allahu Akbar”, para depois pegar fogo a uma igreja? E da história sobre a rapariga de origens russa e alemã que foi raptada e violada por imigrantes que viviam na Alemanha, levando a protestos da extrema-direita no país? E a polémica que rebentou depois de Merkel ter tirado uma selfie com um dos terroristas responsáveis pelo ataque ao aeroporto de Bruxelas, no ano passado?

Se ainda não ouviu falar de nenhuma destas notícias, é bom sinal: são todas falsas, mas foram partilhadas vezes sem conta na internet e nas redes sociais, levando a consequências bem reais – no caso da suposta multidão que incendiou uma igreja, a polícia de Dortmund teve de intervir para repor a verdade; a rapariga alegadamente violada acabou por admitir a mentira, depois de o ministro do exterior russo ter criticado as autoridades alemãs; e o suposto terrorista, que é na verdade um refugiado sírio a viver na Alemanha, acaba de processar o Facebook, depois de a fotografia que o difamava se ter tornado viral no país.

Estas notícias são apenas alguns dos exemplos da vaga de notícias falsas que tem assolado a Alemanha, e que está a preocupar sobretudo em ano de eleições (em setembro, Angela Merkel vai bater-se pela recandidatura nas urnas, numa altura em que as sondagens mostram que os populistas anti-imigração da Alternativa para a Alemanha – AfD, na sigla original – deverão conquistar pela primeira vez assentos no parlamento, com 12 a 15 por cento das intenções de voto, segundo a Reuters). Em comum, muitas das notícias falsas têm o tema principal: os ataques aos refugiados e as críticas às políticas de acolhimento do Governo de Merkel.

CANDIDATA. Angela Merkel vai candidatar-se pela quarta vez ao cargo de chanceler. A Internet não quer

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Fredrik Sandberg / EPA

“A comunicação anti-refugiados em 2015 e 2016 foi um dos casos mais sérios de notícias falsas. Rumores distribuídos sobretudo no Facebook e outras redes sociais tiveram um impacto relevante no debate alemão sobre refugiados, uma vez que mobilizaram as pessoas para atitudes de extrema-direita, anti-muçulmanas e anti-refugiados (muitas histórias falsas populares são feitas para apoiar e fortalecer preconceitos e estereótipos sobre refugiados muçulmanos criminosos, sujos, criminosos sexuais)”, diz ao Expresso Martin Emmer, professor e especialista da Universidade Freie de Berlim em usos e leis para os média.

Alemanha, o novo alvo das fake news

A tendência preocupa Merkel, que já no ano passado alertava para os perigos da difusão de notícias falsas, sobretudo para a possibilidade de atores estrangeiros estarem a tentar assim intervir nas próximas eleições: “Já estamos a lidar com informação que vem da Rússia, com ataques virtuais que têm origem russa ou com notícias que espalham informação falsa”, defendia a chanceler. Perante os especialistas que alertam que a Alemanha poderá, depois dos Estados Unidos em ano de eleições, tornar-se o novo alvo preferencial para a difusão de notícias falsas, as atenções dos responsáveis políticos alemães viram-se para os principais difusores destas mentiras: as redes sociais.

PREOCUPADA. O Governo alemão quer que o Facebook pague por divulgar noticias falsas

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Felipe Trueba

“As redes sociais também têm um dever. Não pode ser do interesse do Facebook que a plataforma seja usada incorretamente para espalhar mentiras e campanhas de ódio. O conteúdo criminoso deveria ser eliminado imediatamente, uma vez que é denunciado. E deve tornar-se mais fácil para os utilizadores a denúncia de notícias falsas”, defendia recentemente Heiko Maas, o ministro da Justiça do Governo de Merkel, citado pelo “Financial Times”, onde acrescentava que, para ser obrigado a “assumir responsabilidades”, o Facebook deveria ser tratado como uma “empresa de média”.

Com as ameaças do Governo alemão, que no final do ano passado anunciou estar a trabalhar em legislação que tornaria possível multar a rede social em valores até os 500 mil euros por fazer circular notícias falsas, o Facebook já começou a trabalhar para proteger os internautas alemães neste ano decisivo para a política do país – um ano depois de, ao lado do Youtube e do Twitter, ter assinado com o Governo alemão um código de conduta para a eliminação de conteúdos que contenham discurso de ódio em menos de 24 horas, compromisso que está a cumprir em 46% dos casos e que Maas quer que chegue aos 70%. O Governo terá também, à imagem da República Checa, considerado a criação de um gabinete de imprensa para monitorizar e combater as notícias falsas, segundo o “The Verge” terá hesitado por temer que o conceito se confundisse com uma espécie de “ministério da verdade”.

451 histórias falsas sobre refugiados

Após as declarações do Governo alemão sobre as multas, altos executivos do Facebook – entre eles Sheryl Sandberg, COO e número dois na hierarquia da gigante norte-americana – deslocaram-se mesmo à Alemanha para conversar não só com membros do Executivo mas também com organizações independentes de média que se dispõem a colaborar com a rede social na deteção e verificação do conteúdo das notícias falsas.

Os cidadãos alemães, que desde dezembro já podem denunciar notícias que suspeitem ser falsas, estarão assim a enviar estes conteúdos para a Correctiv, uma organização mediática sem lucros, que vai trabalhar com o Facebook para distinguir as notícias falsas das verdadeiras. Uma vez que se confirme que o conteúdo dos artigos não corresponde à realidade, a notícia passará a estar assinalada no feed do Facebook de cada utilizador, deixando ainda de ter prioridade no algoritmo usado pelo Facebook e portanto aparecendo menos vezes a quem consultar o feed. Para mais, quem quiser partilhar estas notícias receberá ainda um aviso prévio, num conjunto de medidas que até agora só tinha sido adotado nos Estados Unidos.

A Correctiv não é a única organização que se vai dedicar à deteção de rumores e notícias falsas: em terreno alemão, existem ainda nomes como a Schmalbart, fundada para investigar as notícias publicadas pelo Breitbart, o site de extrema-direita que já existe nos Estados Unidos e que anunciou lançamento na Alemanha e em França para este ano; e a Hoaxmap, que se dedica a verificar a veracidade de notícias sobre refugiados e imigrantes na Alemanha desde fevereiro do ano passado. “Os políticos começaram a falar disto depois de Trump ganhar as eleições nos EUA”, relembra ao Expresso Karolin Schwarz, uma das fundadoras do Hoaxmap. “Temos de fazer muito mais fact-checking nesta era dos ‘media alternativos’. Notícias falsas podem significar propaganda política, títulos clickbait ou até artigos completamente inventados para ganhar dinheiro”.

Schwarz, que já veio esclarecer que se depois do pico de notícias falsas sobre refugiados durante o verão de 2015 o ritmo abrandou, desde o ataque ao mercado de Natal, em Berlim, o ritmo voltou a aumentar, não tem descanso: “Identificámos 451 histórias falsas sobre refugiados até agora. A maior parte das notícias falsas num contexto político são sobre refugiados, porque as políticas de acolhimento têm dominado a discussão política e mediática há de há algum tempo para cá”. A quantidade é muita, mas o trabalho que desenvolve, explica, é fácil: “A verificação é jornalismo básico: falas com a polícia, governos locais, tentas encontrar uma segunda fonte, etc”.

Sobre refugiados têm sido precisamente algumas das notícias mais polémicas, como a que recentemente envolveu um refugiado sírio que tirou uma fotografia com a chanceler alemã e que viu depois a imagem difundida nas redes sociais como a de um “terrorista responsável pelos ataques de Bruxelas” ao lado da líder do Governo. Agora em tribunal, onde acusa a rede social de não ter feito o suficiente para parar a circulação da mentira, o homem sírio a viver na Alemanha já não se livra das notícias falsas: a imagem com a legenda errada teve 32 mil reações no Facebook, enquanto a correta, que explicava que se tratava de um refugiado e não de um terrorista, obteve apenas 13 mil reações quando foi divulgada pelo jornal “Deutsche Welle”.

“Atores políticos (sobretudo internamente) estão a tentar mobilizar apoiantes para uma causa específica, por exemplo dominar a agenda política e fazer pressão na política, como experienciámos com o debate sobre refugiados na Alemanha”, detalha Martin Emmer, acrescentando que com as notícias falsas o papel do jornalismo enquanto intérprete e fornecedor de contexto ganha relevância especial. “Isto é um perigo particularmente em ano de eleições, quando atores escondidos podem forçar políticos a discutir assuntos como refugiados criminosos em vez de assuntos com importância mais factual (como estratégias para a recuperação económica na zona euro) em que os partidos políticos tradicionais podem ter mais credibilidade e competências”.

Notícias falsas entre as mais populares sobre Merkel

O perigo é real: segundo uma análise recente do Buzzfeed News, várias histórias falsas estiveram no ano passado entre os conteúdos mais populares sobre Merkel nas redes sociais – e, falsos ou não, os conteúdos mais partilhados foram sempre negativos. Os sites de notícias falsas, normalmente de extrema-direita, partilham muitas notícias sobre o acolhimento de refugiados pelo Governo atual, mas também outros rumores e teorias da conspiração (um dos mais populares, o anonymous.news.ru, contém propaganda ao Kremlin mas também defende que os ataques do 11 de setembro foram obra dos serviços secretos norte-americanos. Em maio o Facebook apagou o perfil deste site na rede social, mas o conteúdo passou a ser partilhado na VK, uma rede social russa).

Principalmente em inglês, há muitos sites de notícias falsas populares em território alemão (yesimiright.com, shoebat.com, endingthefed.com, truthfeed.com ou yournewswire.com são alguns dos exemplos citados no relatório), com uma semelhança: quase todos foram criados nos últimos dois anos. Enquanto muitos deles divulgam conteúdos falsos de teor político, na Alemanha a imprensa tradicional continua a ser descredibilizada por alguns partidos, com o AfD a referir-se regularmente à “imprensa Pinóquio” e o movimento anti-imigração Pegida a falar da “imprensa mentirosa”.

No meio do clima de combate às notícias falsas, e quando mais sites do género chegam à Europa num ano que é de eleições tanto para Alemanha como para França – dois países em que os movimentos populistas e de extrema-direita ganham vantagem nas sondagens – Martin Emmer pede que não se entre em “pânico”, mas duvida de que haja soluções reais para este problema: “Nunca haverá uma solução técnica ou legal viável para o problema das notícias falsas (dadas as dificuldades técnicas e, mais importante, os efeitos secundários negativos destas soluções para a liberdade de expressão, a censura…)”. Karolin Schwarz expressa a mesma preocupação, citada pelo “The Verge”: “Na Alemanha a confiança nos média é fraca, por isso temo que [soluções como a deteção de notícias falsas, pelo Correctiv ou pelo seu Hoaxmap] aumentem a desconfiança nos média, já que as pessoas estão a ver isto como uma tentativa de censura”.