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Internacional

Mudar embaixada dos EUA para Jerusalém “será um crime de guerra”

HANDOUT/ Reuters

“Será o mesmo que reconhecer Jerusalém como a capital unida de Israel, não há forma de o mundo árabe aceitar isso”, diz ex-chefe da diplomacia da Autoridade Palestiniana. Esta quarta-feira, o Governo de Netanyahu autorizou construção de mais três mil casas em colonatos na Cisjordânia ocupada

Os planos da nova administração norte-americana para alterar a morada da sua embaixada em Israel continuam em marcha e prometem fazer escalar as tensões no Médio Oriente para níveis não vistos em décadas. Para os que não conhecem a realidade no terreno, a mudança da representação diplomática dos EUA da atual morada em Telavive para 70 quilómetros mais a leste, em Jerusalém, pode parecer mínima. Mas, aponta esta quarta-feira a Al-Jazeera citando vários analistas e fontes no terreno, a verdade é que arrisca provocar um "terramoto político e diplomático" que vai opôr o Governo de Benjamin Netanyahu e os seus aliados no novo Governo norte-americano de Donald Trump a todo o mundo árabe.

Se a Casa Branca aprovar o realojamento da embaixada, essa medida vai reverter décadas e décadas de consenso internacional sobre o estatuto da disputada cidade. Assim o ditam pessoas como Nabil Shaath, funcionário da Autoridade Palestiniana que já foi responsável pela pasta dos Negócios Estrangeiros no único Governo da Palestina ocupada reconhecido pela comunidade internacional. "Mudar a embaixada é o mesmo que reconhecer Jerusalém como a capital unida de Israel, é um crime de guerra", diz ao canal qatari. "Não há forma de o mundo árabe aceitar isto. Vai traduzir-se no fim do papel dos EUA como intermediário do processo de paz. Vamos lutar contra isso e mobilizar o resto do mundo contra este passo."

É um receio que transborda para o lado hebraico. Segundo uma notícia avançada na semana passada pelo jornal israelita "Yedioth Ahronoth", o Exército está investido em lembrar ao executivo de Netanyahu as potenciais consequências negras de tal mudança, sob pena de ser lida como um aval dos EUA à extensão de soberania de Israel sobre Jerusalém e sobre todos os seus locais sagrados, incluindo a mesquita Al-Aqsa, um dos mais importantes locais de culto do mundo islâmico.

As reações, tem alertado o Exército israelita, podem passar por protestos em massa de movimentos islamitas dentro de Israel, motins nos territórios palestinianos que Israel ocupa há várias décadas e em países vizinhos como a Jordânia, cujo reino é o guardião oficial da Al-Aqsa, e até pelo colapso da Autoridade Palestiniana de Mahmoud Abbas. A derradeira consequência, avisam as chefias das tropas hebraicas, será a inflamação de todo o mundo muçulmano contra Israel.

Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém

Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém

AHMAD GHARABLI

A questão Jerusalém

Jerusalém está sob disputa desde que as Nações Unidas anunciaram os seus planos de partição da cidade no final de 1947, quando os britânicos se preparavam para a abandonar a Palestina, meses antes de o Estado de Israel ter sido fundado naquele território. Nesse ano, a ONU definiu a cidade como uma zona sob proteção internacional, distinta dos dois Estados que, no futuro, seriam criados na histórica Palestina. Na guerra que estalou um mês depois, Jerusalém ficou dividida em dois, a parte ocidental sob controlo israelita e a parte oriental sob controlo jordano.

Ao longo dos anos seguintes, Israel pressionou vários países para que instalassem as suas embaixadas na Jerusalém ocidental, sempre sob forte oposição do seu grande aliado, os Estados Unidos, aponta Nimrod Goren, autor de um livro em hebraico sobre as batalhas diplomáticas de embaixadas estrangeiras em Israel.

"Inicialmente, Washington respeitou o consenso internacional de forma tão estrita que os seus diplomatas chegaram até a recusar-se a viajar até Jerusalém para encontros políticos e cerimónias", diz Goren, diretor do Mitvim, um think-tank dedicado à política externa israelita. Essa posição mudou na década de 1950, quando as principais instituições do Estado hebraico, do Parlamento ao gabinete do Presidente, foram mudadas para a parte oeste de Jerusalém.

Uma década depois, outro ponto de viragem: "Os EUA começaram a cultivar relações muito mais próximas com Israel, sobretudo em questões de Defesa", explica o autor. Na altura em que Israel invadiu e ocupou a Jerusalém Oriental em 1967, mais de um terço das 54 missões diplomáticas em Israel já estavam instaladas na cidade e não em Telavive, capital de facto dos hebraicos. O território seria anexado em 1980, em violação da lei internacional e do ditame da ONU. Israel declarou então toda a Jerusalém como a sua "capital unida e eterna" e os EUA retomaram as pressões sobre vários países para que retirassem as suas embaixadas dali. El Salvador e Costa Rica foram as últimas nações a acatar o pedido, em 2006.

Antes disso, com a entrada em vigor dos acordos de paz de Oslo em 1994, Jerusalém Oriental ficou definida como a capital do futuro Estado da Palestina, uma promessa até hoje por concretizar. Em 1995, num passo que veio retirar importância ao tratado assinado por Yasser Arafat e pelo então Presidente israelita Yitzhak Rabin, sob mediação de Bill Clinton, o Congresso norte-americano aprovou a Lei da Embaixada de Jerusalém, onde a cidade era reconhecida como a "capital" de Israel e onde se ditava que a embaixada devia ser mudada de Telavive para a disputada cidade no máximo até maio de 1999.

Trump não foi o primeiro a prometer a alteração de morada para Jerusalém. Tanto Clinton como George W. Bush fizeram campanha com essa promessa mas assim que chegaram ao poder abandonaram o plano por causa das suas antecipadas ramificações. Enquanto mediador do processo de Oslo, o Presidente Clinton não podia dar-se ao luxo de reconhecer Jerusalém como capital de Israel quando a cidade é um dos pontos de maior contenda nas já longas negociações de paz para a região.

A questão continua a ser uma das mais sensíveis até à data no contexto do conflito israelo-palestiniano e voltou a ganhar protagonismo durante a presidência de Barack Obama. Em 2015, o Presidente pediu ao Supremo Tribunal dos EUA que anulasse outra medida aprovada pelo Congresso criada para reconhecer implicitamente Jerusalém como a capital do Estado hebraico. Se tivesse sido aprovado, o projeto-lei teria, entre outras coisas, permitido que pais americanos de crianças nascidas em Jerusalém listassem Israel como o país de origem nos passaportes das suas proles.

Em dezembro, já depois das presidenciais que ditaram a derrota de Hillary Clinton e a eleição de Donald Trump, a administração Obama absteve-se pela primeira vez na votação de uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que condena a expansão dos colonatos israelitas ilegais nos territórios ocupados da Palestina. A abstenção dos EUA e o facto de não ter havido votos contra o documento pelos países com poder de veto no Conselho ditaram que fosse aprovado, o que enfureceu Israel e a equipa de Trump.

Na quinta-feira da semana passada, em entrevista à Fox News, o novo Presidente indicou que não vai alterar o seu plano para mudar a embaixada dos EUA em Israel mas deu a entender que não tem pressa em avançar com ele. "Não quero falar disso para já, ainda é muito cedo", disse ao canal conservador.

Para Nathan Thrall, analista do International Crisis Group sediado em Jerusalém, foi mais um sinal confuso da nova administração, depois de a equipa de Trump ter apostado em força nessa promessa assim que se instalou na Casa Branca – e depois de o novo líder norte-americano ter escolhido para seu embaixador em Israel um homem que rejeita a condenação internacional aos colonatos que os hebraicos continuam a expandir nos territórios ocupados da Palestina (esta quarta-feira, Israel anunciou mais três mil novas unidades habitacionais na Cisjordânia, a juntar aos planos de novas casas a serem construídas em Jerusalém Oriental). "A verdade é que ninguém sabe o que Trump vai fazer, nem sequer os diplomatas veteranos dos EUA", diz à Al-Jazeera. Apesar de parecer mais empenhado em mudar o estatuto de Jerusalém do que os seus antecessores, aponta ainda Thrall, Trump deverá enfrentar forte resistência institucional interna se tentar avançar com a medida.

Ao mesmo canal, um diplomata europeu que trabalha em Israel diz, sob anonimato, que o Presidente norte-americano pode ser forçado a abandonar os planos, embora aponte que o seu novo embaixador em Israel poderá seguir a rota oposta. "Parece que o ladrar de Trump é pior do que a sua dentada, mas ainda existe um perigo de que [David] Friedman e Netanyahu encontrem uma forma de contornar isso." Esta suspeita tem por base declarações recentes de Morton Klein, diretor da Organização Sionista Americana, um dos principais grupos de lóbi israelitas em Washington. Ao "Haaretz", Klein disse há uma semana que Friedman lhe confidenciou que pretende trabalhar em Jerusalém mesmo que fora dos escritórios oficiais dos EUA em Israel.

Yossi Alpher, que foi conselheiro do primeiro-ministro israelita Ehud Barak (1999-2001), diz que um dos cenários possíveis é ter Friedman a ocupar o consulado americano em Jerusalém, o gabinete diplomático dos EUA para os territórios ocupados, mantendo a embaixada em Telavive a funcionar sem ele. "Se os líderes judeus americanos insistirem na relocalização da embaixada, consigo ver a administração [Trump] a escolher esse caminho como compromisso." As consequências de tal passo são imprevisíveis mas é provável que passem por algumas senão todas as ramificações que até o Exército israelita antecipa.