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Menos de um terço dos americanos dizem sentir-se mais seguros com interdição a muçulmanos

Spencer Platt

Maioria dos inquiridos numa nova sondagem do Ipsos para a Reuters diz que controverso decreto assinado por Donald Trump na sexta-feira e suspenso temporariamente por uma juíza federal no sábado não é solução para proteger os Estados Unidos do terrorismo

Proibir temporariamente a entrada de refugiados e de imigrantes de sete países de maioria muçulmana nos Estados Unidos sob o pretexto de "manter a América segura", como Donald Trump fez com a assinatura de um decreto na sexta-feira, está longe de angariar consenso entre os norte-americanos. Assim aponta uma nova sondagem do Ipsos para a Reuters conduzida entre 30 e 31 de janeiro, cujos resultados foram divulgados esta quarta-feira.

Apesar de um em cada dois dos cidadãos inquiridos ter dito que apoia a ordem executiva do novo Presidente, 33% dizem que esta não faz qualquer diferença no contexto de proteger os EUA de ataques terroristas e 26% dizem que, na realidade, o decreto os faz sentir "menos seguros". Apenas 31% do total de inquiridos diz sentir-se "mais seguro" desde que Trump ordenou a suspensão de entrada no país de cidadãos do Iémen, Iraque, Irão, Líbia, Síria, Somália e Sudão por um período de 90 dias, bem como a suspensão por 120 dias dos programas de acolhimento de refugiados e por tempo indefinido no caso dos refugiados da Síria.

Quando anunciou a medida, Trump garantiu que o processo de "avaliação extrema" dos imigrantes e refugiados tem como objetivo proteger o país e as suas fronteiras. "Não tem nada a ver com religião", garantiu o Presidente em comunicado, "tem a ver com o terrorismo e com manter o nosso país seguro".

Para os democratas e várias organizações da sociedade civil como a União Americana para as Liberdades Civis, trata-se de uma ação discriminatória contra muçulmanos. E muitos especialistas e legisladores, incluindo membros do Partido Republicano pelo qual Trump foi eleito, dizem que a medida vai pôr em causa a segurança dos EUA ao reforçar a mensagem de organizações radicais como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), que recrutam militantes em todo o mundo. "Esta ordem executiva envia um sinal, com ou sem intenção, de que a América não quer muçulmanos a virem para o nosso país", reagiram os senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham no fim-de-semana.

De acordo com a sondagem da Reuters — conduzida junto de 1201 norte-americanos incluindo 453 democratas e 478 republicanos — 49% dos americanos concorda com a ação de Trump e, sem surpresas, há mais eleitores democratas a "condenar fortemente" a proibição — 53% contra 51% de eleitores registados enquanto republicanos que dizem "concordar muito". O inquérito de opinião demonstra que há três vezes mais democratas a defender que "os EUA devem continuar a aceitar imigrantes e refugiados" e três vezes mais republicanos a concordar que "proibir a entrada de pessoas de países muçulmanos é uma medida necessária para prevenir o terrorismo".

Ouvido pela agência, Westy Egmont, diretor do Laboratório de Integração de Imigrantes no Boston College, aponta que há cada vez mais hostilidade dos norte-americanos em relação aos refugiados e imigrantes tendo em conta que, atualmente, são sobretudo pessoas de países como o Iraque, a Somália e o Afeganistão que procuram asilo nos Estados Unidos. "A subida nestes números, que apesar de tudo são reduzidos, tem angariado atenção suficiente para gerar uma pequena reação de pessoas que se sentem genuinamente desconfortáveis com a diversidade à sua volta."

A sondagem da Reuters aponta, contudo, que a maioria dos americanos não concorda que seja dada preferência a refugiados cristãos em detrimento de muçulmanos, outro passo previsto na ordem executiva de Trump que uma juíza federal de Nova Iorque suspendeu temporariamente no sábado. Quase 56% dos inquiridos, incluindo 72% dos democratas ouvidos e 45% de republicanos, discorda que o país deve "acolher refugiados cristãos mas não muçulmanos". Ontem, e por causa desta alínea específica do decreto, a administração Trump clarificou publicamente que os cidadãos de Israel nascido em países árabes não são abrangidos pela ação executiva e que vão continuar a ser aceites nos Estados Unidos. Também ontem, o Presidente despediu a procuradora-geral interina dos EUA, cargo correspondente ao de Ministra da Justiça, depois de Sally Yates ter ordenado aos funcionários do departamento que não acatem a ordem de Trump.