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Internacional

Secretária de Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, morre aos 106 anos

CHRISTOF STACHE

Num documentário que estreou em 2016, Brunhilde Pomsel disse que nunca soube da matança de seis milhões de judeus pelo regime de Adolf Hitler e que não sente culpa pelos crimes cometidos na Alemanha nazi – “a menos que acabemos a culpar toda a população alemã”

Brunhilde Pomsel, que foi secretária do ministro da propaganda nazi Joseph Goebbels, morreu este fim de semana na sua casa em Munique. Tinha acabado de completar 106 anos. Enquanto secretária pessoal de Goebbels, um dos grandes criminosos de guerra do século XX, Pomsel teve acesso aos mais altos escalões do regime de Adolf Hitler na Alemanha nazi, e só quebrou o silêncio sobre o seu papel no regime de terror já na reta final da sua vida.

Num documentário recente estreado no ano passado, "A German Life" ("Uma Vida Alemã"), Pomsel disse que nunca soube do homicídio em massa de seis milhões de judeus e de centenas de milhares de comunistas, ciganos e de pessoas de outras minorias e fações críticas às mãos do regime de Hitler. No mesmo filme, revelou que nunca sentiu culpa pelo que aconteceu, justificando que para isso "seria preciso culpar toda a população alemã".

Nascida em janeiro de 1911, Pomsel trabalhou alguns anos como escriturária de uma agência de seguros judaica antes de aceitar uma oferta de emprego semelhante feita pela extrema-direita alemã. Apesar de garantir que nunca foi partidária ou política, alistou-se como tantos outros alemães no Partido Nazi quando este chegou ao poder em 1933, a fim de conseguir um emprego na rádio nacional alemã. Os seus dotes de escriba – revelaria há seis anos pela primeira vez – valeram-lhe o cargo de secretária de Joseph Goebbels, funções que assumiu em 1942, quando o braço-direito de Hitler já era ministro "da propaganda e do esclarecimento público", três anos antes da queda do regime.

No documentário, Pomsel descreveu Goebbles como "um homem bem-parecido, um pouco baixo", que estava sempre bem vestido e apresentável mas que era arrogante. De si, dizia que era uma "simples secretária" que pouco sabia sobre as brutais ações dos nazis durante o Holocausto. "As pessoas que hoje dizem que teriam feito mais pelos pobres judeus perseguidos, acredito sinceramente que elas pensem assim, mas também não teriam feito nada."

Sobre a sua quota-parte de responsabilidade nos crimes cometidos contra a Humanidade, Pomsel remeteu sempre a culpa para os seus superiores. "Não me olho como culpada. A menos que culpemos toda a população alemã por, em última instância, permitir que o Governo assumisse o controlo. Aí fomos todos [responsáveis], eu incluída."

Dizia que só descobriu que a sua melhor amiga judaica, Eva Lowenthal, tinha morrido 60 anos depois de esta ter sido enviada para o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia ocupada, em novembro de 1943.

Pomsel foi capturada pelas tropas soviéticas no final da II Guerra Mundial e passou cinco anos em campos de detenção antes de voltar à Alemanha e arranjar emprego na televisão em 1950, um trabalho que manteve durante os 20 anos seguintes. Sobre o seu papel no regime nazi só falou numa entrevista a um jornal alemão em 2011 e de forma mais extensa no documentário estreado em 2016.