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Internacional

Reino Unido e União Europeia estão em rota para uma “guerra fria económica”

Vice-ministro italiano dos Negócios Estrangeiros diz acreditar que, apesar de a vitória do Brexit ser vista como um grande golpe à união do bloco europeu, vai haver cada vez mais vozes críticas do Reino Unido ao longo das negociações de saída

O número dois do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália acredita que o Reino Unido e a União Europeia estão encaminhados para uma verdadeira "guerra fria económica" por causa do Brexit, que poderá instalar o caos no ocidente e enfraquecer o continente europeu. Em declarações ao "The Guardian", o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros disse, contudo, que apesar de o referendo britânico de junho ter sido antecipado como um potencial duro golpe à união dos países europeus caso o Brexit vencesse, vai haver cada vez mais críticos dentro da UE contra o Reino Unido do que à partida se poderia julgar.

"Quando se está entre os 27 [Estados-membros da UE, excluindo o Reino Unido], os conservadores de linha dura são mais numerosos do que parece", defende Mario Giro na entrevista ao jornal britânico. "Não posso citar um país em particular neste momento. Vamos assistir a isso quando começarem as negociações" de saída do país. "Estamos a ouvir cada vez mais pessoas, interesses económicos, que sentem que podem herdar uma boa posição económica, que acham que podem obter do Reino Unido uma boa posição na City londrina. Itália não, claro, porque não estamos nessa posição. E isto vai ser uma guerra económica. Ou melhor, uma guerra fria económica e nós não somos a favor disso."

As declarações de Giro surgem uma semana depois de Theresa May, a primeira-ministra britânica, ter declarado que o Reino Unido está preparado para um "Brexit duro", que passa por tirar o país do mercado único e da união aduaneira, caso não consiga alcançar um acordo razoável com Bruxelas durante as negociações de saída. No seu antecipado discurso sobre como essa saída se vai proceder, May acusou outros países da UE de quererem vingar-se do Reino Unido e disse que fazerem-no será "um ato calamitoso de autoflagelação" porque o Reino Unido está preparado para cortar radicalmente nos impostos a empresas estrangeiras para atrair grandes negócios e investimentos — a sugestão de fazer do Reino Unido um paraíso fiscal foi recebida com desagrado e duras críticas por vários líderes europeus, entre eles o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem.

As autoridades italianas, a par de outros países, têm sempre mantido que a grande prioridade durante as negociações do Brexit deve ser garantir os direitos de centenas de milhares de italianos que vivem no Reino Unido. Sobre isso, Giro fala numa "batalha de interesses" à espreita, mais entre interesses económicos e não tanto entre Estados individuais, com sérias consequências. "Vai ser uma desgraça. Entrar numa nova era de competição dura sobre questões de grande capital envolvendo empresas vai ser muito mau para o mundo ocidental", vaticina. "Não precisamos deste tipo de tensões nesta altura de Parque Jurássico geopolítico", acrescenta na mesma entrevista, referindo-se a um mundo em que é cada um por si.

Questionado sobre preocupações específicas sobre estes interesses económicos, Giro recusou-se a destacar um e explicou que está a referir-se a um "reposicionamento do próprio mundo financeiro" com o Brexit. "Temos de negociar com paciência e calma, temos de ser honestos uns com os outros e também temos de fazer jogo limpo, porque se não fizermos assim, se agirmos a partir do nosso umbigo, com vingança, com sentimentos, vamos todos enfrentar problemas."