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Internacional

Padre rejeitou a pena capital para quem eventualmente o matasse. E foi morto

Agora, um tribunal dos Estados Unidos vai ter de decidir o peso a dar a essa declaração

Luís M. Faria

Jornalista

"Requeiro que a pessoa declarada culpada de homicídio por me matar não seja sujeita ou ameaçada pela pena capital em quaisquer circunstâncias, independentemente de quão horrível tenha sido o seu crime ou quanto eu possa ter sofrido". Com estas palavras escritas num documento, o padre norte-americano Rene Roberts, de St. Augustine (Florida), manifestou a sua fidelidade pessoal a uma posição que há muito é a da Igreja Católica: oposição total à pena de morte.

O documento, assinado na presença de testemunhas e reconhecido notarialmente, esteve nos ficheiros de Roberts desde 1995 até abril do ano passado – quando morreu assassinado.

O assassino foi Steven Murray, um jovem de 28 anos que o padre tinha conhecido poucos dias antes e a quem tentara ajudar, como ajudava tantos outros. Roberts, de 71 anos, dedicava-se especialmente a toxicodependentes. Levava a generosidade ao ponto de lhes entregar dinheiro e emprestar o carro – aspetos da sua atividade que eram criticados por muita gente, incluindo parentes de alguns dos seus assistidos.

A 11 de abril do ano passado, Murray, que deixara recentemente a cadeia, pediu uma boleia ao padre. A seguir raptou-o, levou-o da Florida para a Georgia e matou-o com múltiplos tiros, deixando o corpo num bosque.

O alerta do desaparecimento foi dado rapidamente, e surgiu logo um suspeito: Murray, que foi foi visto a guiar o carro do padre. Dias depois, admitiu o crime e levou as autoridades até ao corpo. Nessa altura disse publicamente: "Peço desculpa, e quem quer que realmente ame o padre Rene também me perdoará, pois ele era um homem de Deus e perdão é perdão". Explicou que tinha problemas mentais e se achava perturbado aquando do crime, um argumento a que a natureza disfuncional da sua família (abusos de vários tipos, o pai e um irmão frequentemente presos) dá uma certa credibilidade.

Que a decisão seja final, pede um irmão

Apesar disso, a procuradora Ashley Wright decidiu pedir o castigo último. "A posição de requerer a imposição da pena capital baseia-se em razões legais que emergem dos factos únicos de cada caso", explicou. "Não na opinião pública". A descoberta da 'declaração pela vida' de Roberts nao terá mudado a sua opinião. Conforme alguém lembrou, os magistrados representam o Estado, não as vitimas ou as suas famílias.

Os colegas de Roberts já tomaram uma atitude. Um deles, o bispo Felipe Estévez, lançou uma petição contra a pena capital neste caso, subscrita por mais de sete mil pessoas e será apresentada em tribunal esta terça-feira.

Quanto aos próximos de Roberts, as posições dividem-se. Há quem continue a desejar a morte para Murray e quem tenha mudado de opinião após ter conhecimento da sua declaração. "Ele acarinhava a vida onde quer que fosse, animal ou humano", diz Brian Roberts, irmão do padre.

Qualquer que venha a ser a sentença – ainda falta realizar o julgamento, e a decisão sobre a pena ocorre numa fase posterior à condenação – Brian só pede que seja final. Se Murray for condenado a prisão, que jamais possa haver liberdade condicional.