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Guerra antidrogas vai ser suspensa nas Filipinas para limpar “corrupção” na polícia

Ronald dela Rosa, chefe da polícia nacional das Filipinas

NOEL CELIS

Anúncio foi feito esta segunda-feira pelo chefe da polícia filipina, um dia depois de o Presidente Rodrigo Duterte ter criticado a corrupção endémica entre as autoridades

A polícia das Filipinas diz que vai suspender a controversa guerra contra as drogas lançada pelo Presidente Rodrigo Duterte, sob o argumento de que as forças policiais "corruptas" precisam de uma "limpeza". A informação foi avançada esta segunda-feira por Ronald dela Rosa, chefe nacional da polícia, que aos jornalistas disse que as unidades antidroga vão ser dissolvidas no imediato. "Primeiro temos de limpar a organização [policial]", explicou o comissário da polícia. "Vamos limpar as nossas fileiras e depois disso talvez possamos retomar a guerra contra as drogas."

A decisão e o anúncio surgem após um empresário sul-coreano ter sido morto numa sede da polícia, após ter sido raptado por uma dessas unidades de combate ao tráfico e consumo de droga, explicou dela Rosa. Desde que Duterte tomou posse no ano passado, mais de sete mil pessoas já foram mortas no âmbito da guerra contra a droga no país.

O elevado balanço de mortos e a postura dura do "Justiceiro", como o Presidente é conhecido, têm atraído intenso criticismo por grupos de direitos humanos e por vários países do Ocidente, apesar de entre os filipinos Duterte continuar a angariar um elevado nível de popularidade e que foi eleito com maioria absoluta sob a promessa de limpar as Filipinas de traficantes e toxicodependentes.

Inicialmente, o Presidente filipino tinha prometido erradicar o problema até dezembro do ano passado, alargando depois esse prazo para março deste ano. Numa conferência de imprensa na noite deste domingo, garantiu que esta guerra não acabou. "Vou alargá-la até ao final do meu mandato [em 2022]. Março deixou de se aplicar".

Leila de Lima, senadora do Partido Liberal e uma das vozes mais críticas do Presidente dentro do Parlamento filipino, disse que o Presidente e o chefe da polícia "devem dar ordens categóricas para acabar com a matança". O desmantelamento da operação antinarcóticos da polícia, acrescentou, significa que "eles têm noção de que os mesmos homens que estão envolvidos nas operações antidroga estão envolvidos em atividades ilegais sob a fachada da chamada guerra contra as drogas", disse no domingo ao canal ANC.

Já esta segunda-feira, num comunicado enviado às redações do país, Lima acusou a polícia filipina de ser a maior organização criminosa a operar nas Filipinas. "No momento em que Duterte transformou a polícia nacional filipina (PNP) num esquadrão da morte vigilante, a sua transformação para um sindicato de crime organizado ficou completa. A PNP, sob Duterte, pode agora ser considerada o maior grupo de crime organizado do país. Quando se fala de crime organizado nas Filipinas, fala-se da PNP ao leme de Duterte."

No domingo, e embora não tenha indicado o fim da perseguição indiscriminada de alegados traficantes e consumidores de droga, Duterte também prometeu "limpar" a polícia filipina em resposta ao homicídio de Jee Ick-joo em outubro passado. "Vocês, polícias, são os mais corruptos. Vocês são corruptos até ao tutano. Está-vos no sistema", declarou aos jornalistas, referindo ainda que acredita que até 40% da força policial do país está envolvida em corrupção. "Quando eu prometi proteger a polícia estava a falar a sério, mas não vou proteger os mentirosos."

Jee, empresário sul-coreano a viver nas Filipinas, foi capturado em outubro pela polícia na sua casa em Angeles, perto da capital, Manila, num alegado raide antidrogas. De acordo com Departamento da Justiça, depois de ter sido estrangulado, os seus homicidas fingiram que ele ainda estava vivo a fim de conseguirem que a sua família pagasse um elevado preço pela sua libertação.