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Famílias separadas, vidas arruinadas, caos nos aeroportos. “A Rainha fez de mim cavaleiro, Trump fez de mim um alien”

Cameron Spencer / Getty Images

São os efeitos pessoais da ordem que bane dos Estados Unidos da América pessoas oriundas de sete países muçulmanos. Conheça algumas histórias

Luís M. Faria

Jornalista

O atleta Mo Farrah, também conhecido por Sir Mo Farrah, vencedor de duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016, nasceu na Somália. Foi viver para o Reino Unido em criança (tem dupla nacionalidade) e em 2014 mudou-se para o estado de Oregon, nos Estados Unidos, com a mulher e as filhas. Neste momento, encontra-se a treinar na Etiópia.

Dada a sua origem, em teoria é um dos milhões de pessoas abrangidas pela ordem executiva assinada na passada sexta-feira por Donald Trump, que proíbe a entrada nos EUA a pessoas oriundas de sete países muçulmanos, entre eles a Somália. Embora um porta-voz de Trump tenha explicado que a ordem permite exceções, Farrah não tem garantia absoluta de que poderá regressar aos EUA e juntar-se à sua família. "A Rainha fez de mim cavaleiro, Trump fez de mim um alien", resume ele.

Trump atribuiu efeito imediato à sua ordem. Porém, os termos da mesma serão algo indefinidos, e no dia seguinte foi clarificado que inclui também os detentores do chamado green card – o título mais forte de residência legal nos EUA antes da própria cidadania. Com uma abrangência tão ampla, era inevitável que as vidas de centenas de pessoas ficassem de repente viradas de pernas para o ar; algumas delas, quando se encontravam literalmente no ar, em pleno voo. O caos e a revolta instalaram-se em vários aeroportos americanos.

Entre as que agora contaram as suas histórias, está a médica Sarwa Aldoori, residente na Califórnia. Iraquiana de origem, vive há muito nos EUA. No sábado, horas depois de Trump assinar a ordem executiva, ela aterrou no país após uma peregrinação de oito dias na Arábia Saudita. Efetuara anteriormente viagens como essa sem problema nenhum. Desta vez teve a surpresa desagradável de ver os amigos passarem os controlos de passaporte mas não poder fazer o mesmo. Chamaram-na à parte e detiveram-na. Disseram-lhe que era por ter nascido onde nasceu. Só ao fim de nove horas a libertaram, deixando-a ir ter com o marido. Ainda traumatizada e a chorar, relatou o seu calvário à imprensa.

Objetivo original: banir muçulmanos

Muitos outros residentes legais nos EUA enfrentaram situações semelhantes, boa parte das quais ainda estão por resolver. Embora uma juíza federal tenha suspendido as deportações e outra tenha decidido que não se aplica aos detentores do green card, não há decisões finais sobre a (in)constitucionalidade de vários aspetos da ordem de Trump – a começar pelo facto de ela ser altamente discriminatória, e discriminar em virtude da religião. Trump não o admite, mas o seu fiel aliado Rudy Giuliani, antigo mayor de Nova Iorque, disse no sábado que inicialmente o Presidente lhe pedira para estudar a legalidade de banir dos EUA os muçulmanos, pura e simplesmente. Giuliani explicou-lhe que isso seria problemático e aconselhou a redefinir a questão como tendo a ver com perigo.

Ainda que todos os residentes legais acabem por ser autorizados a ficar no país (e há muitos, por exemplo estudantes e trabalhadores temporários, cuja situação é bastante mais precária que a dos detentores do green card; eles foram agora aconselhados a não viajarem para o exterior, dado não ser claro se poderão regressar) falta saber qual a situação das suas famílias.

Um dos dramas deste fim de semana foi o de uma mulher síria de 58 anos, Sahar Algonaimi, que viajou para os Estados Unidos a fim de ajudar a sua irmã a tomar conta da mãe de ambas, recém-operada a um cancro. Algonaimi ainda teve tempo de enviar um SMS a dizer que o avião tinha aterrado antes de ser levada por funcionários e colocada a bordo de outro avião para regressar a Arábia Saudita, onde é professora. Antes de partir, fizeram-na assinar um papel escrito que ela não conseguiu ler... a revogar o seu visto.

Refugiados sírios, não

Caso diferente é o de Hameed Khalid Darweesh. Darweesh ajudou o exército americano no Iraque como tradutor e noutras tarefas. A sua vida encontrava-se gravemente ameaçada se continuasse lá. Isso não o impediu de ficar detido no aeroporto JFK em Nova Iorque. Para ser libertado, foi precisa uma manifestação de milhares de pessoas, bem como a assistência de advogados e a presença de dois congressistas. Após o final feliz, ele fez um elogio ao seu novo país de residência, dizendo que o povo americano era o maior do mundo.

A ordem de Trump, intitulada "Protegendo a Nação da Entrada de Terroristas Estrangeiros nos Estados Unidos", proíbe a entrada no país, durante três meses, de cidadãos do Iraque, Irão, Iémen, Líbia, Síria, Somália e Sudão. Curiosamente, desde 1975 que não há nos EUA atentados terroristas cometidos por cidadãos desses países. Os autores do 11 de Setembro vieram de outras nações (15 deles, da Arábia Saudita), nenhuma delas atingidas pela ordem.

Num dos aspetos mais criticados desta última, fica permanentemente congelada a admissão de refugiados sírios nos EUA. Em contrapartida, Trump compromete-se a dar prioridade à receção de membros de "minorias religiosas", o que é entendido como uma referência aos cristãos, que enfrentam perseguições em muitos países do Médio Oriente.