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Americanos angariam em dois dias mais de 800 mil dólares para reconstruir mesquita incendiada no Texas

MOHAMMAD KHURSHEED / Reuters

Causas do incêndio ainda não são conhecidas mas há forte suspeitas de fogo posto. Aparente ataque ao Centro Islâmico de Victoria aconteceu horas depois de Donald Trump ter assinado a ordem que para proíbe “temporariamente“ a entrada no país de cidadãos de sete países de maioria muçulmana e para suspender o programa de acolhimento nos EUA de refugiados desses países

Uma página de GoFundMe criada para angariar dinheiro para reconstruir uma mesquita incendiada no estado norte-americano do Texas obteve 600 mil dólares do total pedido de 850 mil em apenas 24 horas, em resposta ao que muitos acreditam ter sido um ataque de ódio contra o Centro Islâmico de Victoria. Esta segunda-feira de manhã, o total angariado já ultrapassava os 800 mil dólares.

O incêndio aconteceu na madrugada de sexta para sábado, horas depois de o Presidente Donald Trump ter anunciado medidas para impedir a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de sete países maioritariamente muçulmanos –Iémen, Iraque, Irão, Líbia, Síria, Somália e Sudão – e suspender temporariamente o programa de acolhimento de refugiados, medidas que alimentaram inúmeros protestos em aeroportos e por parte de Governos estrangeiros e organizações de direitos civis.

"Ficámos chocados no sábado de manhã quando vimos a mesquita ardida", disse à Al-Jazeera Shahid Hashmi, presidente do Centro Islâmico atingido. Os media locais dizem que o edifício pegou fogo por volta das 2h da manhã. Apesar de ainda não se conhecerem as causas do incêndio, existem fortes suspeitas de fogo posto, que levaram à criação da página GoFundMe para angariar fundos para a reconstrução do local de culto. "É incrível, estamos muito agradecidos."

Hashmi diz que tinha acabado de chegar de um encontro com representantes das sinagogas e igrejas locais quando soube do incêndio, altura em que dezenas de pessoas começaram a reunir-se numa vigília em frente ao edifício ardido. "Vieram muçulmanos de Houston, de Dallas, que fica a quatro horas de distância... Foi realmente emocionante, tem sido tudo bom", disse ao canal qatari.

Neste momento, a polícia e os bombeiros de Victoria estão a trabalhar com uma equipa do FBI para apurar as causas do incêndio. "Espero que não tenha sido um crime de ódio", diz Hashmi, médico de profissão, que vive há 40 anos na chamada "Cintura Bíblica", o nome que designa o conjunto de estados mais conservadores dos EUA. A mesquita que dirige foi construída em 2000, um ano antes dos atentados de 11 de setembro.

Questionado sobre o clima político naquela região após as novas ordens de Trump, e confrontado com o facto de os crimes de ódio contra muçulmanos terem aumentado no rescaldo dos atentados de há 16 anos, Hashmi diz que só tem sentido apoio. "Nada odioso foi expressado localmente. A nível nacional, obviamente, há muitas muitas vozes que são anti-muçulmanos."

Ouvido pelo mesmo canal, John Esposito, da Bridge Initiative, um projeto civil que cruza estudos académicos sobre islamofobia com o espaço público, disse que o número de crimes de ódio tem estado a aumentar desde que Donald Trump tomou posse há uma semana e meia. "O que vemos com alguns crimes de ódio é que as pessoas estão a usar frases que Trump usou", disse à Al-Jazeera.

Na página de GoFundMe criada para ajudar a mesquita de Victoria, as críticas ao Presidente, à sua retórica e às medidas que já implementou são abundantes. Benjamin Tamber-Rosenau, que doou 100 dólares para a reconstrução da mesquita, diz que os seus antepassados tiveram de fugir da Europa para os EUA por causa da perseguição aos judeus. "Agora estamos a ver outra comunidade a ser vítima deste ódio cego aqui nos Estados Unidos, com a cumplicidade (no mínimo) de parte do nosso Governo que é tão grande que é deprimente, incluindo o nosso Presidente... Qualquer que seja a causa do incêndio, nenhuma comunidade deve perder o seu lar."

Martin Wagner, outro norte-americano que já contribuiu para o fundo da mesquita, é autor de um dos comentários de maior sucesso. "Sou ateu e estou profundamente triste e enojado com o que vos foi feito. A liberdade religiosa é um direito fundamental!"

Ao final do dia deste domingo, uma mesquita da Cidade do Quebec, no Canadá, foi alvo de um tiroteio que está a ser tratado pelas autoridades como um ataque terrorista e que aconteceu um dia depois de o primeiro-ministro Justin Trudeau ter declarado que o Canadá vai acolher os que forem rejeitados nos EUA sob as novas ordens de Trump. No rescaldo desse atentado, que provocou pelo menos seis mortos e oito feridos, o autarca de Nova Iorque, Bill de Blasio, ordenou o reforço da proteção das mesquitas da cidade.

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