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“Se não falarmos abertamente sobre ele, o passado pode voltar como um zombie”

HISTORIADOR E POLÍTICO Tuomioja é um social-democrata e veterano da política finlandesa. Foi ministro por três vezes, duas delas como chefe da diplomacia do seu país

RONI REKOMAA / AFP

A propósito de uma visita a Lisboa para um seminário no ISCTE sobre o seu projeto “Historiadores Sem Fronteiras”, o historiador e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros finlandês Erkki Tuomioja falou com o Expresso sobre o papel da História, a “pós-verdade”, a Rússia de Putin, o momento que a Europa atravessa e a nova América, onde “se podia dizer tudo durante a campanha, mesmo que não tivesse nada que ver com a verdade”. “E não podemos ser demasiado sérios a criticar os americanos, porque temos o mesmo fenómeno em muitos países europeus”

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Nascido numa família de políticos, Erkki Tuomioja desde cedo ocupou diversos cargos públicos como membro do partido social-democrata finlandês. Conhecido ativista antiguerra, o jovem que em tempos participou na ocupação de parte da Universidade de Helsínquia em protesto viria mais tarde a ter a seu cargo a pasta dos Negócios Estrangeiros por duas vezes (2000-2007 e 2011-2015). Foi também ministro do Comércio e tem mais de 30 anos de experiência como deputado, cargo que ainda exerce. Para o próprio, o facto de vestir o fato de historiador além do de político não é um problema, já que “História e política sempre estiveram interligadas”, diz. Por isso mesmo, Tuomioja decidiu criar a rede “Historiadores Sem Fronteiras”, fundada em maio de 2016.

Ultimamente têm surgido muitas comparações entre o momento atual que vivemos, tanto na Europa como nos EUA, com a ascensão de movimentos fascistas no passado. Como analisa este tipo de comparações?
Vivemos tempos perigosos. Uma razão para isto é a falta de entendimento histórico que está generalizada: quando os povos não sabem como chegaram ao ponto em que estão podem mais facilmente ser conduzidos. Daí que estejamos a viver nestes tempos pós-factuais. Vimos isso na campanha presidencial americana: podia dizer-se tudo, mesmo que não tivesse nada que ver com a verdade. Uma parte dos media ainda se tenta agarrar aos princípios jornalísticos, mas para muitos nas redes sociais não interessa se algo é verdade ou não. Se parece possível, então isso chega. E não podemos ser demasiado sérios a criticar os americanos, porque temos o mesmo fenómeno em muitos países europeus. Uma forma de lutar contra isto é tentar educar as pessoas sobre a História.

Essa foi uma das razões que o levou a criar a “Historiadores Sem Fronteiras”?
Sim. Mais em particular, a primeira razão prende-se com o que vemos em muitos conflitos hoje em dia, onde a História continua a ter um papel e por vezes dificulta a resolução de conflitos. Por isso começámos a pensar “como é que podemos alterar isto?”. A lista de países que conseguiram lidar bem com o seu passado é muito curta. O melhor exemplo apontado é geralmente a Alemanha e a sua Vergangenheitsbewältigung [termo alemão para descrever o processo de a sociedade lidar com a História recente do país]. Também a África do Sul, com o Comité de Verdade e Reconciliação, pode ser um bom exemplo, mas há muitos mais exemplos negativos.

Esse sucesso da Alemanha ajuda a prevenir o regresso de determinadas ideias ou isso é imprevisível?
Ninguém está completamente vacinado e a prova disso é o que se passa atualmente com a Alternativa para a Alemanha, o PEGIDA e outros. Contudo, durante muito tempo, os alemães estiveram vacinados contra aquilo a que chamam “o passado castanho” [expressão alemã que se refere à ação de esconder um passado nazi] e o seu regresso. Há que olhar para a nossa História, mas também é necessário analisar a História que temos em comum com os nossos vizinhos − e isso é ainda mais difícil. Estas dificuldades são sublinhadas pelos políticos quando tentam legislar a História.

PASSADO Para Tuomioja, a Alemanha é um dos países que melhor soube lidar com o seu passado, o que não impediu o surgimento de movimentos xenófobos como o PEGIDA (na foto) ou do partido Alternativa para a Alemanha

PASSADO Para Tuomioja, a Alemanha é um dos países que melhor soube lidar com o seu passado, o que não impediu o surgimento de movimentos xenófobos como o PEGIDA (na foto) ou do partido Alternativa para a Alemanha

FOTO OLIVER KILLIG / AFP

Estamos a assistir a esse fenómeno em países como a Hungria ou a Polónia?
Estão precisamente a fazê-lo! Também está a ser feito na Ucrânia, na Rússia… A lista é longa e não é exclusivamente europeia. Olhe-se para o Extremo-Oriente: as relações Japão-Coreia e Japão-China mantêm-se envenenadas porque os países não lidam com a sua História comum.

Como interpreta então a ação de governos - como o ucraniano ou o polaco - quando decretam a destruição de estátuas e monumentos soviéticos?
É compreensível que quando uma ditadura cai as estátuas dos ditadores também caiam, mas estas são camadas da História. Claro que há exceções: se houvesse um túmulo de Hitler, por exemplo, seria usado como santuário pelos neonazis. Mas, no geral, à medida que o tempo passa conseguimos viver com a História. Ninguém quer deitar abaixo o Coliseu de Roma porque morreu lá gente em lutas de gladiadores no passado... Há outro bom exemplo na Finlândia, com a estátua de Alexandre II [czar responsável pela concessão de uma maior autonomia ao país durante o domínio russo] na praça do Senado, que ficou por lá. Tenho algumas dúvidas se o mesmo teria acontecido se a estátua fosse [do último czar russo] Nicolau II [risos].

Pensa que a relação atual da Finlândia com a Rússia pode servir de exemplo para outros países?
Até certo ponto, sim. Nós começámos isto ainda durante o período soviético, através de cooperação relativamente aos arquivos históricos, já que muita da História finlandesa está ainda nos arquivos russos.

E é possível cooperar em pleno com os arquivos russos quando a Rússia não parece estar muito aberta a discutir a sua própria História?
Nos últimos anos têm sido dados alguns passos atrás. Há dez anos, o acesso aos arquivos russos era muito mais fácil, mas apesar de tudo eles ainda não estão totalmente fechados. Se procurarmos os de há 100 anos eles estão abertos, quando chegamos ao período do pós-guerra começa a ser mais difícil.

Como vê então esta tendência russa dos últimos anos de um certo renascimento e nostalgia pelo período soviético?
Será muito interessante ver como é que os russos tratarão o centenário da Revolução Russa. Os historiadores russos estão divididos, obviamente. Tem havido muita pressão de círculos próximos do Governo para revitalizar um visão nacionalista da História. Ao mesmo tempo, ainda no ano passado, um grupo de historiadores russos publicou um manifesto em que pedia respeito pela sua independência. A situação é difícil, mas não é a preto e branco.

PROJETO A rede de historiadores fundada por Tuomioja, “Historiadores Sem Fronteiras”, tem como objetivos fomentar a discussão pública sobre a História e aumentar o seu peso nos processos de resolução de conflitos

PROJETO A rede de historiadores fundada por Tuomioja, “Historiadores Sem Fronteiras”, tem como objetivos fomentar a discussão pública sobre a História e aumentar o seu peso nos processos de resolução de conflitos

FOTO SOEREN STACHE / AFP

Um conhecido membro da sua organização, Timothy Garton Ash, escreveu, a propósito da queda do muro de Berlim, que cada país atribuía uma explicação diferente para o facto − os polacos destacavam o papel do Papa, os americanos de Reagan, os russos de Gorbachev e por aí adiante. Pensa que é possível criar uma ideia da História como sendo resultado de vários fatores ou a maioria das pessoas irá sempre olhar para os acontecimentos através de uma perspetiva nacional?
O primeiro passo para isso é reconhecer que há diferentes narrativas e que é preciso ouvir as narrativas dos outros. Não temos de as aceitar, podemos contestá-las, mas temos de as ouvir. Esse é o ponto de partida. É provavelmente um processo longo − aliás, é interminável, não é possível estabelecer uma verdade histórica inequívoca −, mas começa por ouvir o outro lado. Na História finlandesa, o período de autonomia que tivemos no século XIX começou por ser muito positivo, mas depois houve uma russificação e seguiram-se várias discussões sobre a História. No entanto, hoje em dia, os historiadores finlandeses já reconhecem que os argumentos que se usaram à altura eram ambíguos e que os russos também tinham bons argumentos. Era uma questão política e nesse período a História foi usada para fins políticos.

Tem destacado o papel que a História pode ter na resolução de conflitos. Poderia ser útil ter a perspetiva de historiadores num processo como o acordo de paz na Colômbia?
É um bom exemplo. Na nossa conferência inaugural tivemos a presença de Eamon Gilmore, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros irlandês que é também o representante da UE no processo de paz colombiano. A Irlanda é um desses países onde ainda há muita História com a qual é preciso lidar, por isso pode contribuir para este processo. É que esta não é uma questão apenas legal: se tentarmos pôr o passado para trás das costas sem falar abertamente sobre isso, ele pode voltar como um zombie. Vimos isso em Srebrenica, nos Balcãs, e vemos isso com a guerra civil na Síria, que ainda decorre. Lidar com os conflitos do passado ajuda a lidar com os do presente.

POPULISMO “Os Finlandeses”, partido liderado por Timo Soini (na foto), é uma das poucas forças políticas populistas a fazer parte de um Governo na Europa

POPULISMO “Os Finlandeses”, partido liderado por Timo Soini (na foto), é uma das poucas forças políticas populistas a fazer parte de um Governo na Europa

JONATHAN NACKSTRAND / AFP

Falámos do reaparecimento de alguns movimentos xenófobos na Europa. Atualmente, a Finlândia é um dos poucos países onde um partido populista [Os Finlandeses, ex-Verdadeiros Finlandeses] está no poder. O que pensa disto?
Bem, este é um partido que representa apenas um terço da coligação. Este partido populista historicamente era um partido populista do centro. Desde então tem evoluído para um partido mais semelhante às forças políticas europeias de extrema-direita nacionalistas. Infelizmente, os restantes partidos no Governo, apesar de não partilharem da sua visão, têm deixado que este partido consiga alguns ganhos em termos de uma política de imigração mais restritiva, em troca do seu apoio às políticas económicas de direita do Governo.

A Europa já teve outras crises de refugiados no passado, algumas ainda maiores do que a atual, como no pós-II Guerra. Por que razão é esta em particular vista como um problema tão grande?
Isto é algo que nós historiadores deveríamos relembrar. A Europa sempre foi um continente onde as pessoas se movimentavam livremente. Até 1914 não havia vistos, nem passaportes, todos podiam ir para qualquer lado. O fenómeno de estabelecer fronteiras é relativamente novo e o processo de integração europeu e Schengen tentaram afastá-lo. Nós podemos ajudar a relembrar isto. Sempre existiram períodos de migração económica. E sempre existiram momentos em que alguém teve a necessidade de procurar abrigo num país vizinho.