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O imperador da América

FOTO Mike McGregor/Getty Images

Os sermões de Fred Trump, o pai austero que acreditava em teses de pureza racial, a vida na ‘selva’ de Manhattan, onde atingiu a glória e o fracasso, e a luta para se ver livre da trela de Wall Street marcaram a ascensão ao poder do multimilionário nova-iorquino. O Expresso revisitou o percurso de vida do 45º Presidente do Estados Unidos e aponta caminhos para a maneira como quer governar o mundo

Os elevadores em bronze e madeira lacada, assim como o emaranhado de escadas rolantes e passadiços transparentes, tinham menos gente do que é habitual. A espaços, apenas se ouvia o gotejar da queda de água artificial que fluía sobre uma parede de mármore cor de rosa, desaguando numa pequena esplanada, também ela esmorecida naquele dia.

A 8 de novembro, data das presidenciais nos Estados Unidos, o arranha-céus Trump Tower preparava-se para uma noite cinzenta. É como se o pessimismo generalizado, embalado pela maioria das sondagens, tivesse sugado a energia do local. Disperso no átrio, já nem o exército de assessores acreditava, procurando-se reanimar com doses extra de cafeína no Starbucks, que naquela noite ofereceu borlas até às 23h.

Mas a América profunda ainda não tinha mostrado a sua raiva contra os Clintons, principalmente a cintura industrial, da Pensilvânia ao Wisconsin, e a nação do carvão, área com forte exploração mineira, situada entre a Virgínia Ocidental e o Kentucky.

Alojado no quartel-general, no 26º andar, rodeado de janelões à prova de bala, Trump pouco falava, mantendo-se numa pose quase majestática enquanto olhava para o ecrã da televisão sintonizada na CNN, onde o jornalista John King mostrava através de gráficos animados que a onda republicana estava prestes a varrer o país. Apanhados desprevenidos, os conselheiros voltaram a encher os tais elevadores e passadiços, preparando-se para injetar sangue novo na candidatura que se julgava morta.

“A reviravolta apanhou-nos quase na cama”, recorda, ao Expresso, Barry Bennet, um daqueles indivíduos. “Trump saboreou aquele momento meio incrédulo, mas lá no fundo sempre acreditou que merecia, simplesmente porque se acha o melhor e porque se chama Donald Trump”, conta-nos Timothy O’Brian, autor da biografia “Trump Nation”.

FOTO Drew Angerer/Getty Images

Melania, a mulher, foi a primeira a tratá-lo por “senhor Presidente”. Seguiram-se os filhos, o staff e, via telefone, alguns chefes de Estado e de governo estrangeiros. Neste capítulo, o primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, foi o único a fintar o protocolo depois de ter pedido o número de telemóvel do líder americano a um amigo comum, o golfista Greg Norman. A ousadia valeu-lhe quinze minutos de conversa.

Trump adormeceu às 4h do dia seguinte, depois de deixar no Twitter uma mensagem aos veteranos de guerra: “Que noite tão importante e bonita! Os nossos homens e mulheres nunca mais serão esquecidos. Voltaremos a ser um país unido.” Nas 24 horas seguintes, ele ficaria em silêncio naquela rede social, algo raro.

A ascensão ao poder do multimilionário nova-iorquino, que ontem tomou posse como 45º Presidente dos Estados Unidos, foi feita à margem dos corredores da política e moldada pelos ideais de Fred Trump, o pai austero e crente em teses de pureza racial, mas também pela experiência vivida na ‘selva’ de Manhattan, onde edificaria o seu negócio. Da época dourada nos anos 70 até à bancarrota em meados dos 90, Donald soube adaptar-se para sobreviver, mesmo quando Wall Street lhe pôs uma trela.

O Expresso entrevistou uma série de amigos, familiares e parceiros de negócios e traça o perfil de um homem que nasceu ‘príncipe de Queens’ e se tornou, desde novembro, o ‘deus-imperador da América’.

Motorista e limusina

Donald Trump, 70 anos, cresceu no bairro chique de Jamaica Estates, no distrito do Queens, à beira do East River e com vista para Manhattan, onde décadas mais tarde se tornaria um titã do mercado imobiliário.

Com direito a motorista e limusina desde os cinco anos, conhecido na vizinhança como o ‘príncipe de Nova Iorque’, ele vivia com a família na Tara, uma mansão com jardim privativo a toda a volta, 23 quartos, 12 casas de banho, uma garagem para 20 viaturas e seis extravagantes colunas romanas à entrada. Apesar de imponente, era um luxo made in Queens, diferente do de Manhattan, onde as grandes fortunas andam de mão dada com o glamour, um universo que sempre fascinou Donald, ao contrário do pai, Fred Trump.

Austero, o patriarca preferia passear com os filhos ao fins de semana pelos locais de construção, obrigando-os a apanhar os pregos ferrugentos caídos no chão, para que fossem reutilizados pelos operários da empresa. Filho de imigrantes alemães, vivera na pobreza depois de o pai, Frederick, ter morrido quando ele tinha apenas 13 anos. Arregaçaria as mangas e faria fortuna com o primeiro negócio, numa sociedade com a mãe, Elizabeth, visto que precisava de alguém maior de idade para assinar os cheques.

Família. Antes de conhecer Melania, a atual primeira-dama, Donald Trump foi casado com Ivana (em cima) e Marla Maples (em baixo)

Família. Antes de conhecer Melania, a atual primeira-dama, Donald Trump foi casado com Ivana (em cima) e Marla Maples (em baixo)

FOTO Tom Gates/Getty Images

FOTO Ron Galella/Getty Images

Nos anos 20, especializou-se em garagens e vivendas. Duas décadas depois, já tinha construído metade de Jamaica Estates e uma série de bairros sociais em Brooklyn. Mesmo assim, raramente se divertia e até nos dias de praia mantinha-se de fato e gravata.

Os momentos mais ternos eram passados na Tara, em frente à lareira, onde Fred gostava de dar sermões. Donald sempre disse que o pai foi o seu maior professor. “Os Trumps olhavam para a vida como uma corrida de cavalos de raça pura. Acreditavam que se juntarmos os genes de uma mulher superior aos genes de um homem superior obtemos a criança perfeita”, conta Dave Shiflett, coautor do livro sobre o magnata “The America We Deserve”.Outra das teses prediletas era a de que a vida é uma eterna competição, com vencedores e perdedores. Fred classificava os primeiros como “matadores” e os últimos como “escumalha”. “Os sermões em frente à lareira tornavam-se por vezes um pouco medonhos”, confirma Louise Sunshine, amiga de longa da família e vice-presidente da Trump Organization entre 1973 e 1985.

Donald aprendera a lição e na escola chorava sempre que não conseguia ser o primeiro nos testes ou nas provas desportivas. Tal feitio levou o próprio irmão mais novo, Robert, a reconhecer numa entrevista à “Vanity Fair”, em 1990, que “Donald era o típico menino embirrento que, se visse alguém a construir um lego, vinha por trás e derrubava tudo pelo simples prazer de destruir”.

Teimoso e brigão, acabou por esgotar a paciência do pai, que o enviou, aos 13 anos, para a Academia Militar de Nova Iorque (NYMA, sigla em inglês). Ali, no distante vale do Hudson, os sargentos tinham voz grossa e mão pesada e eram considerados o último recurso para pais desesperados, entre eles o gangster John Goti, líder da família Gambino, e o ditador cubano Fulgêncio Batista.

“Era um sítio assustador. Nas primeiras noites, chorei tanto que tive de ser posto na enfermaria”, conta, ao Expresso, Harry Falber, colega de Trump na Academia. “Éramos arremessados contra as paredes, humilhados e forçados a participar em lutas constantemente. Era um pesadelo diário.”

Playboy na caserna

Apesar de tudo, Trump gostava da experiência, principalmente das contas prestadas, das regras, medalhas e prémios para tudo o que se fizesse.

Namoradeiro, tornou-se conhecido como o the ladie’s man, inspirado em Hugh Hefner e na sua “Playboy”, cujas edições eram partilhadas para consulta e discussão nas “noites de caserna”.

Nessas alturas, os traquinas da NYMA forravam as paredes dos quartos com imagens de mulheres nuas e, durante horas a fio, encenavam concursos de beleza virtual, finalizados com a eleição das mais belas. Donald, que mais tarde viria a investir nos concursos de Miss Universo, Miss America e Miss America Teen, vibrava com aqueles debates.

Depois de terminar o curso da Academia, aos 18 anos, ele regressou a Queens, embora estivesse sempre com um pé em Manhattan, onde a vida eletrizante contrastava com o bucolismo do vale do Hudson.

FAmília. Com a família, durante a inauguração, no passado mês de outubro, do Trump International Hotel, em Washington

FAmília. Com a família, durante a inauguração, no passado mês de outubro, do Trump International Hotel, em Washington

FOTO Jabin Botsford/Getty Images

Após licenciar-se na faculdade de gestão Wharton School, na Universidade da Pensilvânia (uma das oito instituições de ensino superior da Ivy League), o Presidente dos Estados Unidos entregou-se aos negócios da família, no início da década de 70.

“Olhado como um forasteiro, a forma que arranjou para se integrar nos meandros da baixa nova-iorquina foi através da ostentação de riqueza. Nas festas, ele queria ser John Travolta, Hugh Hefner e James Bond ao mesmo tempo”, conta ao Expresso Lucy Klebanow, uma amiga de então, que ainda hoje vive em Jamaica Estates.

O clube 54, hoje convertido num dos teatros da Broadway, era o paradeiro predileto de Donald Trump. “Conheci-o por ali quando ele era ainda um jovem meio tímido”, lembra Nikki Haskel, apresentadora do programa televisivo “The Nikki Haskell Show”, nos anos 70 e 80. “Era muito esperto e já era claro que tinha muitos sonhos. E, em Nova Iorque, sonhar é importante.”

Sobreviver na selva

Mas a capital do entretenimento também podia ser uma selva e até um jovem ambicioso, de bolsos cheios e peito feito, precisaria de um mentor, de alguém que o guiasse por entre as feras do mercado imobiliário sem ser devorado nos negócios de milhões.

O advogado Roy Cohn foi esse homem. Anticomunista, destacou-se como conselheiro-chefe do Congresso durante o período de caça às bruxas, em que várias pessoas, suspeitas de serem agentes e simpatizantes soviéticos, foram investigadas por aparentemente participarem em operações antiamericanas. Baixo e com voz estridente, era conhecido por discursar apaixonadamente, mas também por se deixar enamorar por jovens loiros. A sua homossexualidade só seria revelada poucos anos antes da sua morte, em 1986, após uma longa batalha contra a sida.

Barbara Res, vice-presidente da Trump Organization entre 1990 e 1992, descreve-nos Cohn como um “selvagem”. “Ele era amoral, não tinha centro. Regozijava-se por ter destruído as vidas de muitas pessoas durante o período após a II Guerra Mundial.”

Nikki Haskell também conhecia o advogado. “Ele era um tipo rijo, que não dava a outra face. Se lhe dessem um murro, ele respondia logo na mesma moeda. Ele passou essa agressividade ao Donald.”

Em 1973, Fred e o filho contratam Cohn para os defender da acusação da procuradoria-geral de que teriam recusado alugar apartamentos a negros. Cohn convence a família a não capitular e a contra-atacar com um processo por difamação no valor de 100 milhões de dólares. Aos poucos, o advogado ensinava o jovem empreendedor a usar a Justiça e os tribunais a seu favor.

Família O pai, Fred foi seu mentor e ajudou-o financeiramente durante décadas

Família O pai, Fred foi seu mentor e ajudou-o financeiramente durante décadas

FOTO Ron Galella/Getty Images

Apesar do espírito combativo, a acusação de racismo acabou por imperar na Justiça e os Trump saíram derrotados. Mesmo assim, Cohn deixara a sua marca. “Trump nunca admite nada. Nunca reconhece um erro. E se perde, declara vitória. Ele cria a sua própria realidade”, diz-nos Gwenda Blair, autora de “The Trumps”. “Esse comportamento era a imagem de marca daquele seu amigo.”

Obstinado em conquistar Manhattan, ele passava os finais de tarde a bordo do helicóptero pessoal, sobrevoando o sul da ilha à procura da propriedade certa. Encontrou-a na 5ª avenida, em 1979, entre as ruas 56 e 57, um velho edifício desenhado pelo reconhecido arquiteto Der Scott, entretanto caído em desgraça.

Seguiu-se a demolição para desagrado dos vizinhos, nascendo o Trump Tower, “o primeiro arranha-céus com apartamentos superluxuosos”, diria Donald Trump. Até hoje esta morada continua a ser o centro de toda a atividade do magnata, dos negócios à política. Após a vitória nas presidenciais de 8 de novembro, o local tornou-se a sede da equipa de transição, que escolheu o elenco governativo.

Aos 33 anos, Donald tinha a sua torre dourada no meio de Nova Iorque. Preço de cada apartamento na altura? Onze milhões de dólares. A inauguração, em 1983, trouxe celebridades de todo o país. É como se o frenesim do clube 54 tivesse sido transferido para lá, com as bailarinas seminuas no topo de pequenos palcos e as bandejas com caviar e champanhe a planar sobre as cabeças dos convidados. O ambiente não fazia o estilo de Fred, mas o pai estava orgulhoso. Donald provara que era um “matador”.

Marinheiro bêbedo

A notoriedade pública tinha disparado, multiplicando-se as capas de revista com perfis espampanantes sobre a sua fortuna. A televisão também não o largava, com extensas entrevistas no seu triplex no Trump Tower, onde os tetos de talha dourada, as pinturas de deuses gregos, as colunas de mármore e os candeeiros mastodônticos de cristal refletiam a imagem de sucesso.

Bancos e investidores repetiam propostas de crédito e o jovem, que se gabava de ter juntado até então mais de mil milhões de dólares, não se importava de ser o alvo das atenções. “A partir daí, ele começou a gastar dinheiro como um marinheiro bêbedo”, parodia Nikki Haskell.
Seguiu-se a compra de uma companhia aérea, de um iate e o início da aventura no mundo do jogo, na cidade de Atlantic City, onde construiria dois casinos e um hotel. “Ele meteu-se em coisas que claramente não sabia gerir. O negócio dele era outro. O que é que ele sabia de transportes aéreos e casinos? Nada”, lembra, ao Expresso, Ben Berzin, antigo vice-presidente do Midlantic National Bank, um dos credores de Trump.

Família. A companhia de aviação foi um dos muitos negócios ruinosos em que esteve envolvido

Família. A companhia de aviação foi um dos muitos negócios ruinosos em que esteve envolvido

FOTO Neil Schneider / Getty Images

Continuou com a aquisição do Plaza Hotel em Nova Iorque e mais uma série de outros investimentos, que Barbara Res classifica como “erráticos”.

A fama era tal que, pela primeira vez, se ouviu falar de ambições políticas. Aparecem os primeiros cartazes Trump 88 em sinal de apoio a uma candidatura presidencial às eleições daquele ano, que seriam ganhas por George H. Bush.

Apesar de não ter concorrido, deixou uma recomendação (“o país tem de ser governado com força e competência extrema”) e um lamento (“estou farto de ver os Estados Unidos serem enganados por outros países”). Ambas as mensagens seriam as traves mestras dos discursos de campanha no ano passado.

O descalabro

No início dos anos 90, após vários rumores de casos extraconjugais, o divórcio com Ivana Trump alimentou as primeiras páginas dos tabloides. O foco sobre o multimilionário começava a mudar.

Porém, a devassa da vida privada não o preocupava. “As pessoas dizem coisas horríveis de mim, mas pelo menos sabem quem eu sou! Um mês depois da polémica, elas já não se lembram porque é que não gostam de mim, mas tenho a certeza que me conhecem e isso é bom para os negócios. Não existe má publicidade”, lê-se no seu livro “The Art of the Deal”.
Quando avançou com a construção do casino Taj Mahal, na cidade de Atlantic City, cujo salão de jogos tinha uma área superior à de dois campos de futebol, soaram os primeiros alarmes na banca.

Só em candeeiros, tinham sido gastos 14 milhões de dólares, uma pequena fração do total investido — mil milhões de dólares. Estes números começaram a ser notícia, primeiro em pequenas notas de rodapé, depois em artigos de investigação em jornais como “The New York Times”.

Ao mesmo tempo, a partir de 1990, as reuniões com financeiros de Wall Street passaram a ser diárias. Inspirado em Roy Cohn, recorre ao grito e ao insulto, fazendo o mesmo com dezenas de pequenas empresas que tinham ajudado a erigir o Taj Mahal. A Triad Building Specialties foi um desses casos. Especializada na construção de divisórias para casas de banho, avançou com um projeto de 300 mil dólares. “Uma coisa gigante. Mais de 300 casas de banho... Uma delas tinha 25 sanitas”, recorda, ao Expresso, Steven Jenkins, o atual proprietário da empresa que, naquela altura, com apenas 20 anos, já trabalhava às ordens do pai, Forest Jenkins.

Os cheques das prestações iniciais tinham chegado à medida que o trabalho avançava. Setenta mil dólares ao todo. “A relação com os empregados do senhor Trump era magnífica, quase de amigo para amigo”, diz Steven. A amizade esboroou quando a Triad entregou a última fatura, no valor de 232 mil dólares. Após 30 dias de espera, começaram os telefonemas para o escritório de Donald Trump, ficando-se a saber que havia mais empresas a reclamar. Forest ficou em pânico.

Em 1991, o Taj Mahal faliu. “O meu pai ficou desorientado. Valeu-lhe o empréstimo de 40 mil dólares de um amigo. Mesmo assim tivemos de despedir familiares o que deixa marcas.” No final, dos 232 mil dólares em falta, a empresa recebeu 70 mil.

Ao longo de 40 anos de atividade, Donald Trump envolveu-se em mais de 3500 processos judiciais por falta de pagamento a pequenos empresários, noticiou o “USA Today”, no final do passado verão. Na lista de queixosos, oriundos de 33 estados diferentes, figuram, por exemplo, fornecedores de cortinados, vendedores de pianos, advogados e arquitetos.

Salvo por Wall Street

Trump azedava à medida que as suas empresas sangravam até à morte, culpando quem estava à sua volta. “Ele despediu só porque podia e também porque foi incapaz de assumir as suas responsabilidades. Ele estava em pânico”, diz Barbara Res, que acompanhou a fase negra, acabando por sair da Trump Organization em 1992.

Com uma dívida superior a 3 mil milhões de dólares aos mesmos bancos que lhe tinham escancarado crédito uma década antes, rapidamente ele passou de símbolo do empreendedorismo a empresário tóxico. “Acho que ele nunca percebeu a dimensão do problema, continuando com o semblante de rei sol, de predestinado, o que nos irritou ainda mais”, afirma o antigo vice-presidente do Midlantic National Bank, Ben Berzin.

Após uma série de encontros, a nata da finança nova-iorquina conclui que o património do magnata vale mais com o seu nome associado, até porque vender tudo apenas pagaria parte do prejuízo. “A marca valia tanto que os bancos estavam dispostos a perder dinheiro. A decisão final foi prendê-lo a uma trela e obrigá-lo a promover a marca Trump para gerar dinheiro”, diz Berzin. O iate e a companhia aérea seriam, entretanto, vendidos.

Famosos. Donald Trump sempre adorou estar rodeado de celebridades. Aqui com o reverendo Jesse Jackson

Famosos. Donald Trump sempre adorou estar rodeado de celebridades. Aqui com o reverendo Jesse Jackson

FOTO Ron Galella/WireImage

“Ele estava furioso”, recorda Res, que, em 2013, publicou “All Alone on the 68th Floor: How One Woman Changed the Face of Construction”, um livro onde descreve o seu trajeto, nas décadas de 70 e 80, como engenheira no mundo da construção civil nova-iorquina, repleto de descriminação sexual e assédio.

Durante a campanha para as presidenciais de 8 de novembro, quando vieram a lume diversos episódios de alegados abusos sexuais perpetrados pelo então candidato republicano — o próprio reconheceu que gostava de agarrar mulheres pelos genitais —, Res revelou que não estava surpreendida. “Honestamente, acho que a morte da mãe desempenhou um papel. Antes de ela morrer, ele era bastante respeitador. Após o seu desaparecimento, ele tornou-se inconveniente, chegando a dizer que a culpa era das mulheres que queriam ter relações sexuais com ele a toda a hora.”

Mary Trump faleceu em agosto de 2000, mas passou a última década acamada, depois de, em outubro de 1991, aos 79 anos, ter sido vítima de um assalto em Queens.

Mary escapou com uma hemorragia cerebral, costelas partidas, várias fraturas e praticamente cega e surda. O agressor, um jovem de 16 anos, seria capturado por um camionista que circulava na altura perto do local do ataque e que, segundo o relatório médico, salvou a vida da idosa. Trump agradeceu-lhe e, alegadamente, entregou-lhe um cheque chorudo, suficiente para pagar o empréstimo da casa, que estava prestes a ser penhorada.

Pizas e hambúrgueres Trump

Nas mãos de Wall Street, Donald Trump passa a vender o próprio nome, associando-o a campanhas publicitárias de marcas como Pizza Hut, McDonalds ou até mesmo em combates de luta livre da WWE.

“Ele percebeu que a economia americana baseia-se no consumismo. Toda a gente consome, é algo que se aprende quase à nascença nos EUA. Ele é um grande vendedor e soube promover a marca Trump com enorme sucesso”, afirma Gwenda Blair.

O último passo na recuperação da imagem dá-se na televisão, com “The Apprentice”, um reality show feito à medida do magnata, onde ele ajuizava a capacidade de gestão de um grupo de concorrentes, que obedeciam às suas ordens. Em troca, ele tratava-os com desdém, despedindo-os com a célebre frase: “You’re fired!”

“Money! Money! Money! Money!”, ouvia-se no genérico do programa, e Trump, o empresário que tinha enfrentado várias insolvências, ressurgiu aos olhos da América como uma autoridade no mundo dos negócios. “Ele tornou-se novamente credível, mesmo que isso contrariasse a realidade. A televisão fez um milagre”, recorda Blair.

Durante 14 temporadas, Trump afinou a aparência, mais senhorial e menos espalhafatosa. A aura de vencedor que Fred lhe tinha instigado estava de volta. O próprio pai tinha ajudado a que isso acontecesse, visto que terá ajudado o filho financeiramente durante décadas a fio. Segundo documentos obtidos pelo diário “The Wall Street Journal”, publicados no passado mês de setembro, o montante das dádivas rondava os 14 milhões de dólares, em 1990.
Perfeitamente maquilhado, sentado numa poltrona de pele cor de vinho, ele tomava decisões difíceis em “The Apprentice”, rodeado de uma equipa de conselheiros sentados ao longo de uma mesa de madeira. O perfil presidencial ganhava corpo, ao ponto de ele perguntar aos participantes se votariam nele.

Famosos. Donald Trump com o pugilista Mike Tyson

Famosos. Donald Trump com o pugilista Mike Tyson

foto Ron Galella/WireImage

O professor Samuel Clovis foi presidente da campanha presidencial republicana e, em declarações ao Expresso, explica como o mundo televisivo ajudou a projetar a candidatura de Trump. “Durante 14 temporadas ele foi visto e analisado pelos americanos. Essa audiência gerou votantes. Bem sei que, ao dizer isto, terei muitos dos meus amigos de esquerda a dizer que não é bem assim, que tudo aquilo era apenas reality TV, mas não. Os eleitores não observam as coisas dessa maneira. Entretenimento televisivo e informação televisiva são a mesma coisa. É tudo televisão!”

Graças à experiência, Trump melhorou a sua comunicação, algo que ele usou para iniciar a sua corrida à Casa Branca, muito antes da campanha para as presidenciais de 2016.

Seis anos antes, apareceu em vários programas de televisão, defendendo que Barack Obama não era cidadão americano. O mesmo país que, em 2008, tinha elegido o primeiro chefe de Estado negro, atravessava uma fase conturbada, graças ao aumento do número de ataques contra minorias e ao recrudescimento do Tea Party.

Este movimento ultraconservador bebia as palavras de Trump e reproduzia-as nas manifestações realizadas pelo país fora. A figura de um macaco com o rosto de Obama tornou-se símbolo de uma América que se julgava desaparecida, mas que de repente parecia ter encontrado um porta-voz à medida.

Nesse ano, o Tea Party injetou nova energia no Partido Republicano e levou a direita a uma vitória nas intercalares, reconquistando a Câmara do Representantes, além de consolidar a maioria dos cargos de governador. Trump ganhava capital político, a tal ponto que, em abril de 2011, Obama apresentou a certidão de nascimento em plena Casa Branca. “Imagine-se… O Presidente dos Estados Unidos foi obrigado por uma estrela de televisão com um passado obscuro e por uma fação política de extrema-direita a provar que era cidadão desta terra. O que será que Obama tem que os levou a exigir tal coisa? A cor da pele, não tenho dúvidas”, diz-nos Graham Allison, professor de Ciência Política em Harvard e ex-membro da Administração Reagan.

Famosos. Donald Trump com o cantor Michael Jackson

Famosos. Donald Trump com o cantor Michael Jackson

foto Donna Connor/FilmMagic

Ainda no final daquele mês, durante o jantar anual para os correspondentes acreditados nos Casa Branca, Obama teve a desforra, gozando com Trump perante centenas de pessoas convidadas. “Ninguém está mais satisfeito com o fim desta polémica do que o Donald. A partir de agora ele poderá dedicar-se a assuntos relevantes: O que aconteceu em Roswell? Será que os EUA falsearam a chegada à Lua?”

Segundo o professor Allison, a humilhação teve um efeito perverso. “Ele quis vingar-se e planeou desde logo ocupar o lugar de Obama.” Samuel Covis concorda: “Essa foi a noite em que ele, verdadeiramente, decidiu avançar.”

Quatro anos depois, em julho de 2015, acompanhado pela antiga modelo e terceira mulher, Melania, o republicano imprevisível anunciou a sua candidatura à presidência dos EUA. Numa curta mensagem, apresentaria o slogan “Make America Great Again” e reciclaria a mensagem repetida ao longo da vida, de que o país é vítima de uma classe política corrupta e incompetente. Sempre dado a polémicas, diria também que os mexicanos são “violadores” e “assassinos” e que “trazem drogas para os Estados Unidos”.

De imediato, as sondagens colocaram-no à frente da corrida, embora analistas e rivais desvalorizassem a iniciativa.

Na darknet, renascia o orgulho branco, aquele que o tinha apoiado em 2010 na cruzada contra o alegado presidente estrangeiro. Movimentos como o Alt-Right mobilizaram-se e apelaram ao voto.

O establishment republicano não sabia como controlar a corrente populista, entusiasmada com propostas como a construção de um muro na fronteira com o México e a proibição de entrada de muçulmanos em território americano.

Numa entrevista recente ao Expresso, o líder do Alt-Right, Jared Taylor, ecoava essa paixão, explicando que “os EUA não são uma extensão do México” e que “os negros são incapazes de manter a sociedade ocidental”.

Steve Bannon, ex-diretor da publicação “Breitbart”, que nas palavras do próprio serviu de plataforma para o Alt-Right, é o estratego político da Casa Branca, o que segundo Taylor confirma que a América está a mudar para melhor. “Chamamos ‘deus-imperador’ a Donald Trump, porque sentimos que ele quer construir algo novo. Nós, brancos, temos de deixar de pedir desculpa por existir.”

Barbara Res ouve estas declarações e relaciona-as com os sermões na Tara: “É óbvio que me fazem lembrar as teses sobre raça pura do Fred, mas não quero acreditar que aquelas palavras do pai e as idiotices do Alt-Right venham a ter impacto na governação. Espero que a vida tenha ensinado algo melhor a Donald Trump”.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 de janeiro de 2017