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Também tu, François?

LIONEL BONAVENTURE

A revelação de que a mulher de François Fillon, um dos candidatos de direita às presidenciais francesas, terá recebido indevidamente meio milhão de euros caiu que nem uma bomba. Um inquérito na justiça já foi aberto. E vamos ver que efeitos colaterais poderá isto ter nas eleições

Uma investigação do jornal "Le Canard Enchainé", divulgada quarta-feira, veio revelar que o candidato preferido da direita às eleições presidenciais, François Fillon, teve durante oito anos (de 1998 a 2002) uma "assistente parlamentar" assalariada, que era a sua mulher, Penelope Fillon. Até 2001, o salário bruto era de €3900, tendo no ano seguinte subido para €4600. Este emprego fictício terá somado, ao todo, meio milhão de euros de dinheiro do erário público.

O problema não é haver uma relação familiar entre deputado e assistente parlamentar - a lei francesa permite a cada deputado contratar até 5 colaboradores para assistentes, e não é ilegal contratar na família - mas sim o facto de, na prática, ninguém reconhecer a Penelope Fillon algum tipo de trabalho na Assembleia, na circunscrição eleitoral ou em alguma missão política do marido. Na altura, a atividade declarada da mulher de Fillon era "doméstica", cuidando dos cinco filhos do casal. Mais do que a quantia em causa, o grande abalo pode ser na imagem de seriedade que Fillon sempre defendeu acerrimamente. Recorde-se que foi um caso de corrupção - o escândalo L'Oréal - que deu o golpe de misericórdia a Nicolas Sarkozy enquanto político. Os franceses castigaram-no duramente nas urnas.

Penélope Fillon, mulher de François Fillon e mãe dos seus 5 filhos, ocupou o cargo de assistente parlamentar do marido de 1998 a 2002. Corre agora um inquérito para saber se este foi realmente exercido ou foi apenas uso indevido do dinheiro público

Penélope Fillon, mulher de François Fillon e mãe dos seus 5 filhos, ocupou o cargo de assistente parlamentar do marido de 1998 a 2002. Corre agora um inquérito para saber se este foi realmente exercido ou foi apenas uso indevido do dinheiro público

JEAN FRANCOIS MONIER

Este caso pode abalar a imagem de seriedade implacável que Fillon sempre defendeu. O porta-voz do candidato à presidência, o deputado Philippe Vigier, apressou-se a declarar que o contrato de trabalho tinha a aprovação e era do conhecimento da Assembleia Nacional – e François Fillon também já reagiu: "Não vou comentar porque não há nada a comentar", disse, numa visita a Bordéus, no sudoeste da França. "Mas estou chocado com esta história desprezível e misógina. Só porque é minha mulher não devia poder trabalhar? Conseguem imaginar um político dizer, como diz esta história (a investigação do "Canard Enchainé"), que uma mulher só sabe fazer compotas? As feministas iam gritar", afirmou. A verdade é que na Justiça já foi aberto um inquérito para investigar a veracidade das acusações. Entretanto, o candidato favorito da esquerda, François Hamon, veio propor que o financiamento que permite aos deputados contratar cinco colaboradores não permita a inclusão de familiares.

Natural da região da Sarthe, no nordeste do país, Fillon representa uma certa aristocracia rural. Habita desde 1993 o castelo de Beaucé, propriedade que lhe custou €440.000 e que hoje valerá cerca de €650.000. O seu castelo encontra-se rodeado de um parque de 6 hectares. Vamos agora ver como é que o eleitorado do castelão é ou não afetado por esta notícia.