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A ‘erdoganização’ de Trump reforça a sua base de apoio mas também dá força à rebelião

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Sabe qual foi o livro mais vendido na Amazon desde o início deste 2017? Acertou, é o “1984”. A julgar pela primeira semana de presidência Trump, há razões para o renovado interessa na distopia de George Orwell. Os EUA e o mundo estão em alvoroço. Em seis dias, o Presidente e a sua equipa envolveram-se em guerras de palavras e de factos com os jornalistas, censuraram a divulgação e investigação científica e começaram a cumprir algumas das mais controversas promessas de campanha do republicano, como a construção do muro na fronteira com o México e a deportação de milhões de imigrantes clandestinos. No Departamento de Estado já houve deserções e nas agências federais que a nova administração está a tentar silenciar estão a nascer movimentos underground de resistência ao novo governo, na forma de contas alternativas de Twitter e de protestos como o do passado sábado, que acabou a juntar nas ruas de dezenas de cidades milhões de pessoas de mais de 60 países contra o novo líder norte-americano. Para a semana há mais

No universo das falácias existe uma que consiste em atacar alguém que refuta um argumento que é comprovadamente falso, distorcendo aquilo que o crítico diz. Chama-se falácia do espantalho, ou falácia do homem de palha, e tem-se provado uma das armas favoritas de Donald Trump para rebater quase todas as peças jornalísticas desde que tomou posse na sexta-feira, faz hoje uma semana. Nos primeiros seis dias da nova administração, o Presidente dos EUA envolveu-se numa série de tricas com os media “da elite”, como ele e a sua equipa classificam a generalidade dos meios de comunicação americanos — a começar pela discussão sobre o número de pessoas que estiveram presentes na sua tomada de posse em Washington e a acabar na teoria, refutada pelos factos, de que o republicano perdeu o voto popular para Hillary Clinton porque milhões de imigrantes clandestinos votaram ilegalmente. (Alumiados pela alegação de “fraude eleitoral”, os jornalistas descobriram que Stephen Bannon, estratega-chefe da Casa Branca, e Tiffany Trump, a filha mais nova do Presidente, estão registados para votar em dois estados, o que viola a lei eleitoral.)

O primeiro pico deste braço-de-ferro que se prevê longo aconteceu na quarta-feira à noite, quando Bannon, fundador do site de extrema-direita Breitbart News, falou com o “New York Times” ao telefone para dizer o que pensa sobre os jornalistas. Por outras palavras, para mandá-los estar quietos. “Os media deviam sentir-se embaraçados e humilhados e manter as bocas fechadas e limitarem-se a ouvir. Quero que citem isto. Os media aqui são o partido da oposição. Eles não entendem este país. Eles ainda não perceberam porque é que Donald Trump é o Presidente dos Estados Unidos.” Os porquês da eleição de Trump estão a perder importância numa altura em que “um ator nada racional” está, “por acidente ou escolha, a isolar-se ao mesmo tempo que desfia a ordem mundial de forma errática”, disse-o Stephen M. Walt na “Foreign Policy”, num primeiro balanço da nova presidência.

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O dito comportamento errático de Trump foi a nota forte desta semana — uma que começou com Kellyanne Conway, diretora da campanha do republicano que agora funciona como “ministra da Propaganda” (nas palavras do jornalista que denunciou o escândalo de Watergate, Carl Bernstein), a defender à boca cheia que o Presidente e a sua equipa têm “factos alternativos” sobre quantas pessoas assistiram ao vivo à sua tomada de posse. “Esta ‘erdoganização’ da presidência dos EUA, esta guerra contra os media, cria um homem de palha que, a par dos imigrantes, permite a Trump consolidar a sua base de apoiantes”, dizia há alguns dias ao Expresso uma fonte da revista “Politico”, referindo a tal falácia do espantalho.

Não há silogismos nem falácias que valham quando a racionalidade e a lógica saem pela janela. Não importa que Trump e a sua equipa tenham passado esta primeira semana na Casa Branca a unir as instituições federais contra si próprios, apontava Walt na quarta-feira. “Isso não importa quando ele e os seus lacaios conseguem disseminar uma nuvem de ‘factos alternativos’ e convencer os seus muitos seguidores que o errado está certo, que o branco é preto, que 2+2 são 5 e que aquilo que o Presidente disse na televisão na semana passada na realidade nunca aconteceu”, escreveu o professor de Relações Internacionais de Harvard. “Trump e companhia parecem operar guiados pelo manual Erdogan-Berlusconi-Putin e continua em aberto se esta sua estratégia vai resultar num país com tantas fontes independentes de informação, algumas delas ainda comprometidas com os factos.”

A resistência

Ainda parece haver muita gente comprometida com os factos, a começar por vários funcionários com acesso privilegiado a Trump que têm denunciado o que se passou à porta fechada nesta primeira semana. Nos últimos dias, três grandes meios de comunicação publicaram artigos de fundo com inúmeras fontes a denunciarem “a fúria e tumultos” internos desde que Trump se instalou na Casa Branca (New York Times), o “primeiro fim de semana conturbado que preocupa até os seus principais assessores” (Washington Post) e as “dificuldades” que o líder está a ter “em livrar-se dos seus hábitos erráticos de campanha” (Politico).

Neste último artigo, por exemplo, “uma pessoa que fala frequentemente com Trump diz que, em privado, os seus assessores estão a lutar contra os seus piores impulsos e a ter de controlar informação que possa enfurecê-lo”. A mesma fonte diz que o Presidente “se aborrece e que gosta de ver televisão, pelo que é importante minimizar” a sua exposição à cobertura mediática da presidência, na sua maioria factual e crítica.

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A aparente egomania de Trump pode vir a ser um prego no caixão do seu mandato, a um ponto tal que revistas conceituadas como a “New Republican” estão a pedir aos jornalistas que “continuem o bom trabalho” de irritar o Presidente. “Não existe nada que prove a alegação de Trump sobre milhões terem votado ilegalmente, nem sequer que centenas tenham votado ilegalmente. A recontagem dos votos em estados-chave já mostrou que não existe nenhuma prova estatística significativa de fraude eleitoral. Trump está fixado no resultado da eleição porque parece estar obcecado com a sua legitimidade enquanto Presidente”, lê-se num artigo publicado na terça-feira sob o título “Continuem a deslegitimar Donald Trump. Está a funcionar”. E continua: “Esta fixação não só danifica ainda mais a sua presidência, demonstrando o narcisismo e mesquinhez de Trump, como também o amarra — danifica o seu capital político e distrai-o das suas políticas mais destrutivas. Isto obviamente não vai impedir que Trump cause muitos danos, mas serve para lembrar ao país — e ao próprio Trump — que a sua histórica falta de popularidade continua a ser uma tática política vencedora. Vamos mantê-la”.

Durante a tomada de posse, seis jornalistas foram detidos enquanto cobriam as manifestações contra o novo Presidente, no que o Comité de Proteção de Jornalistas classificou como uma “mensagem arrepiante” enviada aos críticos de Trump. Todos foram formalmente acusados de crimes graves e enfrentam até 10 anos de prisão e multas de até 23 mil euros. A essa mensagem arrepiante juntou-se uma outra, alumiada pela ideia que o Presidente tem de gerir a América como uma empresa, um dos mantras da sua campanha. Enquanto magnata do sector imobiliário, o empresário sempre obrigou quem trabalha com ele a assinar um acordo de confidencialidade, ou NDA, para impedir que a informação circule para fora. O mesmo tipo de exigência que o agora Presidente fez questão de incluir nos acordos pré-nupciais que todas as suas ex-mulheres e a atual, a primeira-dama Melania, tiveram de assinar antes de casar com ele. O mesmo tipo de acordo que Trump gostaria de obrigar todos os funcionários federais a assinar.

“Eles são funcionários públicos e estão abrangidos pelas regras de informação confidencial e de não-exposição de segredos do governo ao público, mas tudo isso é balançado pelo direito à liberdade de expressão”, explicou à revista “Salon” Orly Lobel, professora de Direito na Universidade de San Diego que se dedica há vários anos a estudar os limites e encruzilhadas das regras e direitos ao discurso livre entre os funcionários federais americanos. Lobel diz que legalmente Trump não pode obrigar as pessoas que agora trabalham para ele a assinar NDA e que estas têm o direito de não acatarem ordens se acharem que o ramo executivo está a exigir-lhes silêncio sobre coisas que não devem ser silenciadas.

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A rebelião

Trump pode estar impedido de obrigar os funcionários do Estado a assinar acordos de confidencialidade, mas há outras rotas para alcançar o objetivo que pretende. Primeiro começou por encerrar a linha telefónica que permite aos cidadãos contactarem com a Casa Branca para apresentarem sugestões e queixas. Na terça-feira, ordenou à Agência de Proteção Ambiental (EPA) que apague do seu website oficial a secção dedicada ao aquecimento global e às alterações climáticas, tal como fez assim que assumiu a gestão do site da Casa Branca no fim de semana. Logo a seguir, foram enviados memorandos à EPA, ao Departamento da Agricultura, ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos, ao Departamento dos Transportes e ao Serviço dos Parques Nacionais, a proibir “com efeito imediato” todos os funcionários de publicar quaisquer documentos ou revelar qualquer conteúdo do seu trabalho — incluindo centenas de cientistas federais que investigam o impacto comprovado da atividade humana na temperatura do planeta.

“Isto inclui, e não está limitado a, comunicados de imprensa, fotografias, fichas técnicas, publicações em news feeds e conteúdo nas redes sociais”, lê-se na ordem. A acompanhá-la Trump ditou ainda o congelamento imediato de todos os fundos federais e contratações na EPA e conseguiu que a conta de Twitter da agência fosse suspensa. Reagindo à tentativa de os amordaçar, alguém com acesso ao Twitter do Parque Natural de Badlands, na Dakota do Sul, publicou quatro alertas sobre as alterações climáticas após a ordem. “Hoje em dia, a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera é mais alta do que em qualquer altura nos últimos 650 mil anos”, lia-se num deles. O número de seguidores da página subiu de 7 mil para mais de 69 mil em poucas horas. Entusiastas criaram a hashtag #Badassalands, numa ode à postura desafiante do parque que os internautas rebatizaram ‘Breaking Badlands’. Mas em menos de nada, as quatro publicações foram apagadas e um funcionário do parque disse que o autor dos tweets era um antigo colega seu que manteve o acesso à conta oficial.

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O ex-funcionário federal ou quem quer que tenha publicado os tweets rebelou-se contra Trump, da mesma forma que no sábado milhões de pessoas marcharam em mais de 60 países contra o novo Presidente dos EUA, ou que a WikiLeaks se virou contra ele na segunda-feira, pedindo que alguém envie para o email da organização as declarações de rendimentos que Trump está empenhado em manter secretas. Não estão sozinhos. Ao longo da semana, a famosa livraria Strand de Manhattan alimentou uma nova rubrica, “Today’s Doublethink”, onde apresenta as declarações do dia de Trump e os factos que as desmentem — na internet e num edital à antiga, com folhas A4 coladas nas janelas da loja de East Village. E a par disso, começou também o que a “Politico” diz ser “a vingança dos burocratas”: ao comprar uma guerra com 2,1 milhões de funcionários federais, Trump está a gerar um movimento de resistência, para já na forma de contas de Twitter alternativas geridas por pessoas que trabalham nas agências silenciadas. “Em defesa da ciência e das notícias e factos sobre o clima. NOTÍCIAS REAIS. FACTOS REAIS”, lê-se na descrição da conta alternativa da agência espacial americana, @RogueNASA. É uma revolta que começa branda e acompanhada de preparativos para uma Marcha dos Cientistas.

“Uma série de pessoas tiveram cada uma a ideia de organizar uma marcha pela ciência em Washington e em todo o país”, explicou Caroline Weinberg, cientista de saúde pública e uma das organizadoras do evento. “Comunicámos todos pelo Twitter, que é como estas coisas parecem começar.” No novo website do movimento de base, que ainda não delineou a sua agenda de ação para o futuro, para já apenas a tentar organizar a marcha, lê-se que pretendem que o protesto seja não-partidário e que sirva para discutir o financiamento governamental de cientistas, a transparência, as alterações climáticas e a teoria da evolução. “Existem certas coisas que aceitamos como factos sem alternativas. A Terra está a ficar mais quente devido à ação humana. A diversidade da vida é fruto da evolução. Um governo americano que ignora a ciência para perseguir agendas ideológicas põe o mundo em risco.”

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O descontentamento alastrou-se entretanto ao Departamento de Estado, onde quinta-feira altos quadros que já trabalharam com administrações democratas e republicanas apresentaram demissão em bloco. Os quatro experientes funcionários da diplomacia americana, Patrick Kennedy, Joyce Anne Barr, Michele Bond e Gentry Smith, não invocaram a presidência Trump como argumento mas, sob anonimato, vários diplomatas disseram ao “Washington Post” que há muitas preocupações com a direção que os EUA vão tomar ao seu leme. No dia da tomada de posse de Trump, essa mesma preocupação já tinha levado Gregory Starr, secretário de Estado adjunto para a Segurança Diplomática, e Lydia Muniz, diretora do gabinete de Operações de Construção Exteriores, a demitirem-se dos seus cargos.

O que já foi e o que aí vem

Nos primeiros dias da presidência Trump, os anúncios e as decisões foram tantos e tão rápidos que houve um discurso que passou despercebido mas que, ao longo da semana, marcou a agenda mediática, com mais e mais espiões e outros funcionários da CIA a revoltarem-se com o que aconteceu na sua sede. Ali, no sábado, um recém-empossado Trump falou de si próprio com tons de grandeza e discursou sobre si próprio e os seus… discursos. “Mike Pence falou antes de mim, prestou homenagem ao muro. Depois fui eu, prestei homenagem ao muro. Depois falei à multidão. Tive uma ovação de pé. Na verdade, eles dizem que foi a maior ovação de pé desde que Peyton Manning ganhou a Super Bowl e eles dizem que foi igual. Durou muito tempo. Eu sei quando faço bons discursos. Aquele discurso foi um home run. As pessoas adoraram.”

Foi, para a revista conservadora “The Atlantic”, um momento memorável pelas piores razões e não tanto pelos autoelogios que Trump teceu. “Todos os americanos, independentemente de em quem votaram nesta eleição, deviam estar furiosos com o Presidente Donald Trump pelo que ele disse à CIA na sua sede. Os comentários dele sobre o Iraque deviam pôr os americanos apopléticos, porque no espaço de segundos Trump conseguiu pronunciar palavras que 1) são moralmente repugnantes, 2) vão certamente ser exploradas como ferramenta de recrutamento pelos inimigos terroristas da América e 3) vão provavelmente ajudar adversários estrangeiros a diminuir a reputação e poder da América”. O que Trump disse: “Existe uma velha expressão, ‘os despojos pertencem ao vencedor’, sabem que eu costumava dizer sempre ‘fiquem com o petróleo’. Eu não era um fã do Iraque. Eu não queria [a guerra no] Iraque. Mas deixem-me que vos diga, quando lá estávamos percebemos tudo mal. E eu sempre disse ‘fiquem com o petróleo’. Agora, digo-o por razões económicas. Mas se pensares nisso, Mike [Pence, seu vice-presidente], se vocês tivessem ficado com o petróleo provavelmente não haveria Daesh porque foi com isso que eles começaram por fazer dinheiro. Portanto devíamos ter ficado com o petróleo, ok? Pode ser que vocês tenham outra hipótese [de ficar com o petróleo]”.

Foi um discurso errático, usando uma palavra tão repetida por estes dias nos media norte-americanos, que serviu para inaugurar uma semana de tensões diplomáticas com o Médio Oriente e o México, de guerra aberta contra a ciência e a liberdade de expressão, de namoros do Presidente com a ideia de recorrer a tortura em novas prisões extrajudiciais da CIA no estrangeiro, do fim de acordos de livre comércio e do início da negociação de outro. Eis a maioria das decisões e ações do Presidente Trump nos primeiros seis dias no poder divididas em três grandes tópicos:

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Obamacare e aborto: Rodeado por sete homens brancos, Trump reavivou uma medida da era Reagan que corta o financiamento a organizações sem fins lucrativos que “promovam” o aborto no estrangeiro. Os EUA já têm uma lei, a emenda Helms, que proíbe ONG americanas a operar no estrangeiro de usarem dinheiro dos contribuintes do país em interrupções voluntárias de gravidez. A medida conhecida como Política da Cidade do México, que os grupos da área da saúde sexual e reprodutiva chamam “regra da mordaça global”, vai mais além e dita que estas organizações não podem prestar esse serviço com dinheiro algum, sob pena de perderem os fundos federais dos quais dependem para prestarem outros serviços importantes às comunidades mais vulneráveis do mundo, como o acesso a métodos contracetivos, rastreio e medicação para o VIH/Sida e rastreio de cancro da mama, dos ovários e do útero.

Antes de assinar a ordem executiva para fazer renascer a regra da mordaça global, assim que chegou à Casa Branca Trump assinou uma outra ordem para começar a desmantelar o Affordable Care Act, mais conhecido como Obamacare. Segundo Kellyanne Conway, o Medicaid, que garante a prestação de serviços básicos de saúde aos mais desfavorecidos dos EUA, vai ser transformado num programa de bolsas, tirando o programa estatal das mãos do governo federal e passando-o para a gestão de cada estado, num momento em que a maioria dos governadores americanos são republicanos e contra a grande bandeira da administração Obama.

Entretanto, Trump e o Congresso de maioria republicana preparam-se para cortar o financiamento à Planned Parenthood, uma federação não-governamental que tem clínicas espalhadas pelos EUA, e noutros países, que fornecem serviços de planeamento familiar gratuitos a mulheres e jovens. Este objetivo, bem como a possibilidade de a nova administração voltar a ilegalizar o aborto, ganham força perante rumores de que Trump vai escolher para o lugar vago do Supremo Tribunal um juiz ultraconservador. “Já tomei a decisão na minha cabeça, pode mudar ao último instante, mas penso que será uma grande escolha”, disse quinta-feira à Fox News.

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Segurança Nacional e tratados comerciais: Esta primeira semana da era Trump ficou marcada por uma guerra de palavras com o Presidente do México, que acabou por cancelar a sua visita a Washington DC na próxima semana, depois de Trump ter escrito no Twitter que se os mexicanos não aceitam que vão pagar o muro na fronteira, não valia a pena manter o encontro agendado. Tudo surgiu depois de ter assinado uma ordem executiva a ordenar a construção “imediata” de uma “barreira física intransponível” na fronteira sul dos EUA, uma das suas grandes promessas de campanha, cujo investimento será reembolsado pelo México, garantiu. Enrique Peña Nieto respondeu que não e o braço-de-ferro permanece (entretanto, Nieto e Trump falaram esta sexta-feira uma hora ao telefone).

As ordens que assinou na área da imigração preveem ainda a deportação de imigrantes clandestinos, a criação de novos centros de detenção de imigrantes, a contratação de cinco mil novos guardas para a patrulha da fronteira com o México e a publicação de uma lista, a ser atualizada a cada semana, com todos os crimes cometidos por imigrantes, sem especificar se por clandestinos ou legais. A medida foi de imediato comparada a uma política da era nazi que ajudou a fomentar o ódio contra os judeus. Trump também ordenou que sejam cortados fundos federais às chamadas cidades-santuário, que não deportam pessoas por não terem papéis legais para residir nos EUA. Especialistas dizem que é ilegal cortar fundos a autarquias ou estados a não ser que se recusem a aplicá-los nas áreas para as quais o dinheiro foi alocado. Autarcas de grandes cidades como Nova Iorque, Chicago e Seattle já garantiram que não vão colaborar com a administração nem com as autoridades na deportação de imigrantes.

Em nome da “segurança nacional”, Trump também está a preparar-se para suspender a entrada nos EUA de pessoas oriundas de sete países do Médio Oriente e de África, bem como os programas de acolhimento de refugiados sírios e a entrada de outras pessoas fugidas da guerra, que sob a lei internacional têm direito à proteção do país onde pedem asilo mas que, sob a administração Trump, ficarão pelo menos 120 dias presas enquanto o seu historial é “analisado ao pormenor”.

Quinta-feira, e perante o finca-pé do México quanto a não pagar o muro, a administração americana disse que está a ponderar taxar em 20% as importações mexicanas para financiar o projeto, ao que o governo de Nieto ripostou que, assim, os preços dos “abacates, máquinas de lavar” e outros produtos made in Mexico vendidos nos EUA vão subir exponencialmente, pondo os americanos e não os mexicanos a pagar a fatura do muro.

Reince Priebus, chefe de gabinete de Trump, diz que a cobrança do novo imposto pode vir a ser alargada a todas as importações no âmbito de uma alargada reforma tributária que está a ser preparada e que vai prever tarifas mais elevadas para tudo o que não for made in America — ou, aparentemente, ,ade in Great Britain, agora que o Presidente americano disse que vai negociar “ele” com a primeira-ministra britânica, Theresa May, um novo acordo de livre comércio com o país, a entrar em vigor assim que o Brexit for concluído. May já deu a entender que, sob esse tratado comercial, parte ou a totalidade de serviços públicos como o NHS (saúde) vão ser privatizados, com a entrada de capital de grandes empresas estrangeiras. Este e outros potenciais acordos a serem negociados por Trump vêm substituir a Parceria Transpacífico, um tratado alcançado por Obama com 12 países do Pacífico que o novo Presidente americano acabou de suspender, e o NAFTA, um acordo mais antigo dos EUA com o México e o Canadá.

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O ambiente e a tortura: uma das coisas que mais ondas de choque provocou nesta primeira semana de presidência Trump foi a sua entrevista à ABC News na quarta à noite, a primeira desde que tomou posse, na qual defendeu o regresso às práticas de tortura a que a CIA recorreu durante a administração de George W. Bush, em ‘black sites’, ou prisões extrajudiciais americanas, no Iraque, no Afeganistão e na baía de Guantánamo, em Cuba. Este último centro de detenção, que Obama quis fechar durante oito anos e que não conseguiu porque os republicanos controlavam o Congresso, deverá continuar aberto a mando de Trump, que entretanto ordenou a James Mattis, o novo secretário da Defesa, e a Mike Pompeo, o novo diretor da CIA, que analisem o que é que os EUA podem fazer “legalmente” no âmbito da guerra contra o terrorismo.

“Quando eles estão a disparar armas, a cortar as cabeças das nossas pessoas e de outras pessoas, quando estão a cortar cabeças de pessoas que são cristãs no Médio Oriente, quando o ISIS está a fazer coisas das quais não se ouvia falar desde os tempos medievais, isso faz-me ser favorável ao waterboarding [afogamento simulado]?”, questionou Trump em tom retórico numa entrevista à ABC News. “Tenho falado com pessoas dos mais altos níveis da comunidade de serviços de informação e colocado a pergunta: ‘Funciona? A tortura funciona?’ e a resposta tem sido ‘sim, absolutamente’. Vou contar com Pompeo e Mattis e o meu grupo e se eles não quiserem fazê-lo tudo bem. Se quiserem fazê-lo, vamos trabalhar para alcançar esse fim. Quero fazer tudo o que puder fazer legalmente. Mas se sinto que [a tortura] funciona? Sinto absolutamente que funciona.”

Leon Panetta, ex-diretor da CIA que Obama incumbiu de investigar os programas secretos de tortura da era Bush e apurar a sua eficácia, desmentiu o Presidente na BBC. “A realidade é que não temos de usar estas técnicas de interrogatório para conseguirmos a informação de que precisamos. O general Mattis acredita nisso, outros na comunidade de serviços secretos acreditam nisso e o FBI acredita nisso, portanto penso que seria um erro voltar atrás.”

É também de uma espécie de tortura que os cientistas federais americanos se queixam, agora que Trump congelou as contratações e programas de investigação das agências ligadas ao ambiente e proibiu os seus funcionários de discutirem publicamente o trabalho desenvolvido. A par disso, deu ordens imediatas para que sejam retomados os controversos projetos de oleodutos Keystone XL e o Dakota Access. Ambos tinham sido bloqueados pela anterior administração por causa de questões ambientais: o primeiro, que vai ligar o Canadá ao Nebraska e à restante rede de conduta de petróleo oriundo de refinarias dos EUA na costa do Golfo, foi suspenso no final de 2015 por Obama, sob o argumento de que iria impossibilitar que o país cumprisse o acordo do clima que passa por impedir que a temperatura global do planeta continue a subir. O segundo foi impedido de avançar pelo Corpo de Engenheiros do Exército, que no final do ano passado exigiram que o governo analise rotas alternativas para não destruir a reserva natural do lago Oahe.

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A fechar a semana, duas notícias - a primeira: o painel de ciência e segurança do Boletim dos Cientistas Atómicos adiantou esta sexta-feira em 30 segundos o relógio do juízo final, uma espécie de ampulheta moderna que conta o tempo que resta aos humanos para salvarem o planeta. A justificar o avanço do relógio, agora a dois minutos e meio da “meia-noite”, os cientistas citaram “os comentários perturbadores sobre o uso de armas nucleares feito por Donald Trump, bem como a descrença expressa em relação ao consenso científico esmagador sobre as alterações climáticas, tanto por Trump como por vários membros da sua administração”.

A segunda: dois legisladores democratas acabaram de introduzir uma legislação para impedir que Trump avance com um ataque nuclear. A “ignorância” de Trump sobre amas nucleares e os tais comentários “perturbadores” que o Presidente fez no Twitter há algumas semanas a defender a sua proliferação “aumentam o risco” de uma guerra nuclear acidental, defendem o representante Ted Lieu e o senador Edward Markey. Se a proposta de ambos for aprovada, Trump só poderá recorrer à bomba atómica caso o Congresso emita uma declaração de guerra contra o alvo.