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Internacional

Trump vai publicar lista semanal de “crimes cometidos por imigrantes”

Chip Somodevilla

Ordem executiva está a ser comparada a política da era nazi que disseminou o medo entre os alemães e que reforçou o ódio contra judeus

Donald Trump ordenou esta semana à sua administração que publique e atualize semanalmente uma lista de crimes cometidos por imigrantes nos Estados Unidos. A medida está incluída numa das ordens exectuvias que o novo líder norte-americano assinou esta semana para controlar e combater a imigração, ao quinto dia da sua presidência. No parágrafo, lê-se que o Departamento de Segurança Nacional "deve tornar pública uma lista abrangente de ações criminosas cometidas por estrangeiros" nos EUA.

"Para melhor informar o público sobre as ameaças à segurança pública associadas às jurisdições-santuário, a Secretaria deve [...], numa base semanal, publicar uma lista abrangente das ações criminosas cometidas por estrangeiros e por qualquer jurisdição que ignore ou falhe em honrar quaisquer embargos que digam respeito a estes estrangeiros."

Na medida, integrada na ordem executiva "Melhorias na Segurança Fronteiriça e no Controlo da Imigração", não é especificado se essa lista vai apenas citar crimes cometidos por imigrantes clandestinos ou por qualquer pessoa não-americana a viver legalmente nos Estados Unidos. Esta e outras ordens assinadas por Trump esta semana incluem várias das promessas de campanha do candidato republicano, entre elas erguer um muro em toda a fronteira partilhada com o México, deportar imigrantes sem documentos, criar novos centros de detenção para imigrantes e contratar mais cinco mil agentes de patrulha fronteiriça.

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A par disso, a ordem dita que, "para garantir a segurança e integridade territorial dos Estados Unidos" e combater "a ameaça significativa à segurança nacional e pública" que os imigrantes clandestinos representam, as chamadas cidades-santuário, que protegem imigrantes sem papéis e impedem a sua deportação, fiquem sem qualquer financiamento federal até aceitarem cumprir as ordens da nova administração.

Em resposta a esta ameaça, autarcas democratas de uma série de grandes cidades americanas, entre elas Nova Iorque, Chicago e Seattle, garantiram que não vão cooperar com Trump nem com as autoridades federais quando estas tentarem deportar imigrantes clandestinos. Os republicanos responderam que a ordem executiva, que entra em vigor de imediato, os vai privar de fundos federais.

Especialistas dizem que tal passo viola a Constituição, já que a lei dos EUA dita que os fundos federais atribuídos a determinada cidade ou estado só podem ser suspensos se a autarquia ou estado em questão se recusar a aplicar esses fundos na área para a qual são atribuídos. Ou seja, se a cidade de Nova Iorque, por exemplo, se recusar a deportar imigrantes, o governo não pode cortar o financiamento à educação ou ao investimento económico.

Durante a campanha presidencial, Trump já tinha prometido que ia expulsar "milhões de imigrantes criminosos" dos Estados Unidos, quando na realidade existem apenas 820 mil imigrantes sem documentos com registo criminal. Depois de ter garantido que ia expulsar 11 milhões de imigrantes clandestinos nos primeiros dois anos da sua presidência, o então candidato republicano reviu esse número para "dois ou até três milhões" de imigrantes.

Esta semana, quando assinou as ordens executivas relacionadas com imigração e "segurança nacional", Trump fez questão de ler os nomes dos cidadãos norte-americanos que foram mortos por imigrantes sem documentos. A ideia de criar uma lista com os crimes cometidos por não-americanos, a ser atualizada a cada semana, está a ser comparada a uma política da era nazi que alimentou o medo e ódio contra judeus na Alemanha de Adolf Hitler.

"Vale a pena lembrar que o Instituto Nazi para a Investigação sobre a Questão Judaica também criava ficheiros sobre os 'crimes cometidos pelos judeus'", escreveu no Twitter a autora Andrea Pitzer, em referência à operação que os nazis iniciaram em 1941. Em "Studiying the Jew: Scholarly Antisemitism in Nazi Germany", o escritor e investigador Alan E. Steinweis revelou que, nesses ficheiros nazis, "o ['crime' de] impureza racial constituía a maior parte do material", entre o qual estavam ainda incluídas referências à "responsabilidade dos judeus em crimes contra a moralidade, aborto e prostituição".

Recentemente, a Breitbart News, um site da extrema-direita que foi fundado e chefiado pelo atual estratega-chefe de Trump, Steve Bannon, também publicou uma lista de "crimes negros" onde citava todas as ações contrárias à lei cometidas por afro-americanos.