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Internacional

Pretensas lutas ideológicas não conseguem ocultar simples pugnas pessoais pelo controlo do poder

Espanha está politicamente a ferver: há uma luta fratricida no Podemos, os socialistas lambem as feridas, os Cidadãos não querem depender do PP, Rajoy não oculta a preferência por alcançar acordos pontuais com os socialistas. Todos os partidos do arco parlamentar celebram congressos nas próximas semanas

Angel Luis de la Calle

Angel Luis de la Calle

correspondente em Madrid

Atacados por uma súbita febre de congressos, os principais partidos políticos do arco parlamentar espanhol organizam por estes dias as reuniões dos seus órgãos máximos de direção. Ocorrerão dentro de poucas semanas, entre os primeiros dias de fevereiro e meados de junho.

Com a exceção da força política governante, o Partido Popular (PP, centro-direita), onde tudo é tranquilidade e calma, as demais formações encaram estes congressos num clima de convulsões internas, lutas pessoais pelo poder e indefinições ideológicas que auguram duros confrontos. Superado o bipartidarismo tradicional que encarnavam na recente história política do país o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, social-democrata) e o próprio PP, devido ao surgimento de novos agentes com um cenário próprio — o Podemos (P’s, esquerda populista) e o Cidadãos (C’s, centro-direita liberal) —, o multipartidarismo não propiciou, como se esperava, uma clarificação da oferta ideológica e um processo de regeneração democrática, que a prevalência da corrupção torna muito necessários.

Não há novidades no PP

RAJOY O primeiro-ministro chegará ao congresso que o seu partido vai celebrar de 10 a 12 de fevereiro sem um pingo de contestação interna

RAJOY O primeiro-ministro chegará ao congresso que o seu partido vai celebrar de 10 a 12 de fevereiro sem um pingo de contestação interna

JUAN CARLOS HIDALGO/EPA

Levando ao extremo a máxima de Giulio Andreotti (antigo primeiro-ministro italiano) segundo a qual o poder só desgasta quem não o possui, nem uma folha se move no PP sem a autorização do imperturbável Mariano Rajoy, líder do partido desde 2003 e do Governo desde 2011. O primeiro-ministro chegará ao congresso que o seu partido vai celebrar de 10 a 12 de fevereiro (adiado dois anos devido às sucessivas eleições legislativas) sem um pingo de contestação interna. Não se vislumbra sequer a sombra de uma figura emergente que apareça daqui a cinco anos como aspirante a pegar no testemunho quando o governante galego decidir que chegou o momento de se afastar.

A maior preocupação de Rajoy é convencer os que não pensam que seja necessário reconduzir no poder a atual secretária-geral do partido, María Dolores de Cospedal, que acumula tais funções com as de recém-nomeada ministra da Defesa e líder regional do PP em Castela La Mancha. A incómoda reaparição pública do antigo primeiro-ministro José María Aznar, empenhado, dia sim dia não, em zurzir Rajoy pela sua pusilanimidade na resolução do problema catalão, é uma mera pedrinha no sapato, mas o certo é que a questão separatista propriamente dita de torna mais negra, minuto a minuto, devido à absoluta falta de imaginação política e ao sempiterno recurso à letra da lei por parte de Rajoy.

O pacto pós-eleitoral assinado pelo PP e pelo C’s está estagnado e Rajoy não oculta a preferência por alcançar acordos pontuais com os socialistas para vencer os obstáculos à governabilidade resultantes da sua situação minoritária. Isto favorece a visibilidade do PSOE, sequioso de afirmação pública.

Luta fratricida no Podemos

IGLESIAS Uma luta pelo poder antecede o congresso de fevereiro

IGLESIAS Uma luta pelo poder antecede o congresso de fevereiro

EMILIO NARANJO/EPA

Por mais que os dirigentes do P’s procurem ocultá-lo, dissimulando-o sob uma camada de tinta ideológica, os cidadãos estão cientes de que o debate prévio ao congresso que o partido vai realizar nos primeiros dias de fevereiro, conhecido como “Vistalegre II”, não é mais do que uma desabrida luta pessoal pelo poder. Pablo Iglesias, líder da formação, quer conservar o controlo absoluto sobre a organização interna e externa do P’s, submetendo-se a escasso escrutínio e reservando para si e para o seu núcleo duro as decisões táticas e estratégicas do grupo.

Iglesias sabe que isto é incompatível com as posições mais abertas e democráticas daquele que era, até há pouco, o seu irmão político Íñigo Errejón. Agora, este disputa a liderança a Iglesias, defendendo maior colaboração com as instituições do Estado, organização territorial mais aberta e distanciamento dos postulados mais radicais da esquerda que quer rutura.

Não é de excluir que em “Vistalegre II” estejam em confronto não apenas duas conceções mas também duas listas de dirigentes. Iglesias assegurou que, caso haja votação e a sua lista perca, demite-se de todos os seus cargos. O líder paga bem caro o facto de ter quebrado a promessa eleitoral de empenhar-se a fundo para desalojar o PP do Governo. Após as legislativas de dezembro de 2015 e junho de 2016, recusou-se a apoiar a investidura como primeiro-ministro do então líder do PSOE, Pedro Sánchez. O politólogo Josep Ramoneda descrevia hoje na perfeição, num artigo publicado no diário “El País”, a situação do P’s. “Está a gastar tantas energias para superar a adolescência que corre o risco de chegar esgotado a maioridade.”

Cidadãos não querem depender do PP

RIVERA Há poucas dúvidas sobre a sua recondução como líder do partido

RIVERA Há poucas dúvidas sobre a sua recondução como líder do partido

DANIEL OCHOA DE OLZA/REUTERS

Até ontem, na prática, o líder do C’s, Albert Rivera, preocupava-se com a ausência de qualquer contestação interna no seu grupo. Esta tendência ameaçava desprestigiar a consulta informática às bases do partido sobre a sua preferência para os respetivos órgãos de direção. Apresentada como uma espécie de eleições primárias, a consulta tem por fim dois candidatos dispostos a disputar a hiperliderança de Rivera.

Estes aspirantes não têm qualquer possibilidade de conquistar uma posição de domínio. Ninguém duvida de que Rivera será reconduzido. Para se consolidar, o jovem político catalão reforçou a cúpula diretiva, incorporando como porta-voz nacional Inés Arrimadas, figura máxima do C’s na Catalunha (região onde o partido nasceu) e valente defensora das posições anti-independentistas do partido num parlamento regional muitíssimo hostil.

Rivera deseja que o congresso acabe, para ver consolidado o seu desejo de redefinição ideológica do C’s. Quer que o partido passe a ser liberal, progressista, democrata e constitucionalista, soltando-se da desagradável etiqueta de ser uma mera excrescência do PP, uma espécie de “marca branca” da direita espanhola, sempre dependente dos movimentos do partido de Rajoy. Esta redefinição daria ao C’s maior margem para fazer exigências ao primeiro-ministro, que parece ter esquecido que foram os votos favoráveis do C’s que lhe permitiram, na realidade, voltar a sentar-se na cadeira que ocupa.

Socialistas lambem as feridas

Outrora grande partido da esquerda espanhola, o PSOE ainda tenta cicatrizar as dolorosas feridas causadas pelo debate de investidura de Rajoy. A força política é dirigida, desde a demissão de Sánchez, em outubro, por uma comissão gestora que procura promover a concórdia, a sensatez e a calma. Esta proporá nos próximos dias o primeiro fim de semana de junho para realizar o tão ansiado congresso federal que deve aclarar as revoltas águas socialistas.

De momento falta quase tudo. A líder do partido na Andaluzia, Susana Díaz, que boa parte dos militantes encara como uma espécie de todo-poderosa enviada dos céus para superar divisões, ainda não se pronunciou sobre uma eventual candidatura a secretária-geral do PSOE. Quem já avançou foi o basco Patxi López, antigo presidente do governo regional, bom gestor mas com escassa musculatura política. O anterior líder nacional do PSOE, Pedro Sánchez, desalojado do poder após um ruidoso Comité Federal celebrado a 1 de outubro de 2016, alimenta ânsias de vingança, mas é provável que o seu tempo já tenha passado. No próximo fim de semana, um comício em Sevilha pode ser a ocasião para esclarecer definitivamente a sua posição.