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México avisa que tarifa sobre importações vai pôr americanos a pagar o muro

Vista de parte do muro que já separa o México dos Estados Unidos, aqui em Tijuana

Sandy Huffaker

Aos jornalistas, o chefe da diplomacia mexicana explicou que cobrar um imposto de 20% sobre as importações mexicanas para os EUA vai levar ao aumento dos preços dos produtos comprados pelos consumidores norte-americanos

O México continua a garantir que não vai pagar pela extensão do muro que Donald Trump ordenou que comece a ser construída "de imediato" na fronteira sul dos Estados Unidos, com o ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Enrique Peña Nieto a sublinhar que cobrar um imposto extra de 20% sobre as importações mexicanas vai levar à subida dos preços dos produtos que os norte-americanos consomem, resultando no pagamento do muro pelos contribuintes dos Estados Unidos.

"Um imposto sobre as importações mexicanas para os Estados Unidos não serve para fazer o México pagar pelo muro, mas serve para fazer o consumidor norte-americano pagar por ele através de abacates, máquinas de lavar roupa e televisões mais caras", sublinhou Luis Videgaray, chefe da diplomacia mexicana, que ocupou o cargo de ministro das Finanças até novembro e que se demitiu desse cargo na sequência da visita de Trump, então Presidente eleito dos EUA, à Cidade do México para se encontrar com Peña Nieto.

"Há coisas que não são negociáveis, coisas que não podemos e que não vamos negociar", garantiu numa conferência de imprensa na embaixada do México em Washington. "O facto de que está a ser dito que o México deve pagar pelo muro é algo que simplesmente não é negociável" para o governo mexicano, que tem pela frente mais 18 meses de mandato.

As declarações de Videgaray foram proferidas na quarta-feira à noite, já depois de o Presidente do México ter cancelado a sua visita oficial a Washington DC, marcada para 31 de janeiro, no seguimento de um tweet do novo líder norte-americano. “Se o México não quer pagar o muro, então é melhor cancelar a reunião marcada”, escreveu Trump no Twitter depois de Nieto ter voltado a garantir, num discurso à nação na terça à noite, que os contribuintes mexicanos não vão pagar pela "barreira física intransponível" que vai começar a ser construída ao longo dos 3200 quilómetros de fronteira partilhada.

Numa conferência de imprensa ontem à tarde, Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, anunciou que o objetivo do imposto de 20% sobre produtos mexicanos importados para os Estados Unidos é gerar aproximadamente 10 mil milhões de dólares em receitas anuais. "Neste momento a política do nosso país é taxar as exportações e deixar as importações entrar gratuitamente, o que é ridículo", disse, garantindo que o novo imposto vai "facilmente pagar pelo muro".

Reince Priebus, chefe de gabinete de Trump, acrescentaria depois que cobrar mais um imposto às exportações mexicanas é apenas uma de um "buffet de opções" que estão a ser consideradas pela nova administração norte-americana para pagar o muro. Antes disso, Spicer já tinha explicado que o novo imposto será inicialmente apenas aplicado às importações mexicanas mas que, por integrar um plano mais abrangente de reforma tributária, pode passar a ser imposto a todas as importações de todos os países que não tenham acordos comerciais específicos com os Estados Unidos.

Neste momento, e ao final da sua primeira semana na Casa Branca, Trump já ordenou a suspensão da Parceria Transpacífico (TPP), um acordo de livre comércio que Barack Obama negociou e ratificou com várias nações do Pacífico e já deu a entender que em breve vai começar a renegociar o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), outro acordo comercial com o México e o Canadá.

A par disso, e de acordo com declarações de Theresa May, a primeira-ministra britânica que está nos Estados Unidos para se encontrar hoje com o Presidente norte-americano, os EUA também estão a preparar-se para negociar um acordo comercial com o Reino Unido que pode passar pela privatização de uma parte do serviço nacional de saúde britânico e de outros serviços públicos.

Esta quinta-feira, depois de Peña Nieto cancelar a sua visita a Washington, Trump disse que o encontro marcado teria sido "infrutífero" se o México não tratasse os Estados Unidos "com respeito", leia-se, se o governo de Neto continuasse a recusar-se a pagar pelo muro que o Presidente americano quer alargar a toda a fronteira.

A versão defendida por Videgaray, sobre o novo imposto levar a um aumento dos preços dos produtos importados e acabar a pôr os americanos a pagar pela barreira, é apoiada pelo senador republicano Lindsey Graham, que ontem alertou no Twitter: "Qualquer tarifa que possamos cobrar eles podem cobrar. Isto é uma enorme barreira ao crescimento económico. Mucho triste."

A ordem executiva que Trump assinou esta semana para avançar com a promessa de campanha tambem prevê a contratação de 10 mil funcionários federais de imigração que terão como tarefa reforçar a patrulha da fronteira sul dos EUA. "Uma nação sem fronteiras não é uma nação", disse o Presidente quando anunciou a medida. "A partir de hoje, os EUA retomam o controlo das suas fronteiras."

Atualmente, o México exporta em média 300 mil milhões de dólares em bens para os Estados Unidos, pelo que a imposição de um novo imposto sobre esses produtos terá consequências a nível nacional. A par disso, aponta o correspondente da BBC na capital mexicana, a ideia de que os contribuintes do país vão financiar um muro que não querem através deste novo imposto é simplesmente inaceitável — vêem o imposto como "desnecessário, inumano, caro e ineficaz".