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Estratega de Trump vê jornalistas como “o partido da oposição” e diz que “devem estar calados”

Drew Angerer

Numa entrevista telefónica com o “New York Times”, Steve Bannon, um dos líderes da chamada “direita alternativa" (leia-se extrema-direita) e coautor do discurso distópico que Trump declamou na sua tomada de posse, diz que os media devem sentir-se “embaraçados e humilhado” por não terem previsto a vitória do republicano e que, por isso, devem “calar-se e ouvir” o Presidente

O principal estratega da nova administração norte-americana, o controverso Stephen Bannon, descreve os meios de comunicação mainstream dos Estados Unidos como "o partido da oposição" e diz que os jornalistas devem "manter as bocas fechadas".

Numa conversa telefónica com o "New York Times", o fundador do site de notícias da "direita alternativa" (leia-se, extrema-direita) "Breitbart News", que assumiu a direção da campanha de Donald Trump na fase final da corrida presidencial e que o Presidente eleito nomeou estratega-chefe da Casa Branca, sugeriu que a cobertura da primeira semana da presidência Trump é fruto da "humilhação" que os meios de comunicação social sentem por não terem antecipado a vitória do candidato republicano.

"Os media deviam sentir-se embaraçados e humilhados e manter as bocas fechadas e limitarem-se a ouvir", argumentou Bannon. "Quero que citem isto. Os media aqui são o partido da oposição. Eles não entendem este país. Eles ainda não perceberam porque é que Donald Trump é o Presidente dos Estados Unidos."

As declarações contundentes de um dos homens fortes do novo governo norte-americano, que nesta primeira semana no poder já avançou com uma série de controversas promessas de campanha, surgem depois de os media terem passado os últimos dias num braço-de-ferro com a administração sobre a quantidade de pessoas que assistiram à tomada de posse de Trump na sexta-feira em Washington DC.

Especialistas dizem que tomada de posse de Trump contou com cerca de um terço dos participantes em comparação com a de Obama em 2009

Especialistas dizem que tomada de posse de Trump contou com cerca de um terço dos participantes em comparação com a de Obama em 2009

Pool

Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, tem liderado a guerra aberta sobre a multidão concentrada frente ao memorial Lincoln, recusando as provas apresentadas pelos media sobre a inauguração deste governo ter contado com menos participantes na capital do que a tomada de posse de Barack Obama em 2009 ou do que a Marcha das Mulheres no sábado, no dia a seguir a Trump assumir funções — uma que se alastrou de Washington a várias outras cidades americanas e a pelo menos 60 países, numa demonstração de força global contra o novo Presidente norte-americano.

Cerca de meio milhão de pessoas terá participado na Marcha das Mulheres só em Washington

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Mario Tama

Trump e a sua equipa defendem que a tomada de posse há uma semana contou com uma "audiência nunca antes vista". Kellyanne Conway (na imagem principal), que foi conselheira de campanha de Trump e que agora assumiu, nas palavras do jornalista veterano Carl Bernstein, o papel oficioso de ministra da Propaganda do novo governo, refuta os factos e provas e diz que a administração tem "factos alternativos" sobre a realidade.

A seguir à guerra aberta sobre o número de espectadores da tomada de posse, a administração entrou noutro braço-de-ferro com os jornalistas depois de o Presidente ter voltado a sugerir que perdeu o voto popular para Hillary Clinton porque milhões de imigrantes clandestinos foram ilegalmente autorizados a votar. Esta versão comprovadamente falsa é refutada pelos media, que acusaram o Presidente de mentir — e que apuraram que pelo menos dois membros da sua equipa, entre eles Bannon, bem como a filha mais nova de Trump, Tiffany, estão ilegalmente registados como eleitores em dois estados. Em reação, Trump disse que está a ponderar abrir uma investigação à "fraude eleitoral" cometida por "ilegais".

Durante a entrevista com o "New York Times", Bannon fez inúmeras referências aos media "mainstream" e aos media "da elite" e só mencionou especificamente o NYT e o "Washington Post". O jornal diz que o ex-CEO da Breitbart News falou "num tom direto mas calmo, salpicado com uma dose de impropérios". Bannon foi um dos autores do discurso de Trump na sua tomada de posse, onde o Presidente pintou uma imagem pouco próxima da realidade de uns Estados Unidos mergulhados em violência e crime que precisam de ser salvos.