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Theresa May quer “renovar relação especial” com os EUA “para esta nova era”

Dan Kitwood/Getty Images

Na sua visita oficial aos Estados Unidos, já esta quinta-feira, a líder do Reino Unido vai transmitir a ideia de que os dois países podem voltar a liderar o mundo agora que os britânicos estão de saída da União Europeia. Num momento de elevadas tensões alimentadas pelo Brexit, a primeira-ministra britânica será a primeira líder mundial a encontrar-se cara a cara com Donald Trump desde que o empresário tomou posse há uma semana

Theresa May chega esta quinta-feira aos Estados Unidos com uma mensagem sobre a "relação especial" do Reino Unido com o parceiro além Atlântico "para esta nova era", dias depois de ter confirmado num discurso público que o seu país vai abandonar o mercado único e a união aduaneira europeias quando o processo do Brexit for concluído.

Esta quinta-feira, a primeira-ministra britânica estará em Filadélfia para discursar aos líderes do Partido Republicano, pelo qual Donald Trump foi eleito Presidente, um encontro que contará com a presença do novo líder norte-americano. De acordo com a BBC, May vai garantir-lhes que, no rescaldo da saída da União Europeia — que terá de estar concluída dois anos depois de o artigo 50.º do Tratado de Lisboa ser invocado, algo que precisa da aprovação do parlamento britânico — uma Grã-Bretanha "soberana e global" vai querer melhorar as relações com os seus "antigos amigos", à cabeça os EUA.

Na sexta-feira, May será a primeira líder mundial a encontrar-se cara a cara com o novo Presidente americano na Casa Branca (mas não a primeira política britânica a fazê-lo, já que no rescaldo da vitória de Trump nas presidenciais de novembro, o então Presidente eleito recebeu na sua Torre Trump, em Manhattan, Nigel Farage, ex-líder do partido nacionalista UKIP e uma das faces do populismo que marcou a campanha do Brexit e também as eleições nos EUA).

Jonathan Bachman

Os principais pontos de discussão entre May e Trump no encontro de sexta-feira, de acordo com a própria numa entrevista à BBC no passado domingo, serão as oportunidades de negócio pós-Brexit, a cooperação nas áreas de segurança e serviços de informação e o futuro da NATO — depois de, durante a campanha e já na fase de transição para a Casa Branca, Trump ter sugerido que pode vir a obrigar os aliados a pagar pela proteção norte-americana, para além de estar a planear a redução do número de bases e tropas dos EUA no estrangeiro.

May diz ter como objetivo construir uma relação histórica entre as duas nações baseada em valores partilhados e interesses comuns e promete que "não terá medo" de falar honestamente com Trump quando discordarem nalgum ponto. A BBC aponta que foi uma espécie de golpe da parte de May conseguir tornar-se a primeira líder mundial a encontrar-se com Trump na Casa Branca desde que o empresário tomou posse há uma semana. O seu governo conservador quer capitalizar as fortes ligações do novo Presidente dos EUA ao Reino Unido, quer pessoais quer empresariais, e aproveitar o facto de este ter sempre defendido o Brexit como "um passo inteligente".

Esta quinta-feira, no seu discurso aos republicanos, May vai sublinhar que o Reino Unido e os Estados Unidos têm contribuído de forma singular e especial para os avanços do mundo moderno e o reforço das instituições que o sustentam, como a NATO e as Nações Unidas. Se as duas nações trabalharam em conjunto no passado para "derrotar o mal" e se "abrirem ao mundo", agora têm a oportunidade de "voltar a liderá-lo em conjunto".

"O Reino Unido é uma nação grande e global, por instinto e pelo seu passado histórico, que reconhece as suas responsabilidades no mundo", irá declarar May, citada pela BBC. "Com o fim da nossa adesão à União Europeia, temos a oportunidade de reafirmar a nossa crença numa Grã-Bretanha confiante, soberana e global, pronta a construir relações tanto com velhos amigos como com novos aliados. À medida que redescobrirmos a nossa confiança em conjunto, enquanto vocês renovam a vossa nação como nós a nossa — temos a oportunidade, na verdade a responsabilidade, de renovar a relação especial [RU-EUA] para esta nova era".

Neste momento, o Reino Unido não pode negociar tratados comerciais com os Estados Unidos nem com qualquer outro país, não enquanto não sair oficialmente da União Europeia. Trump já sublinhou que quer um "acordo rápido" com os britânicos assim que isso acontecer e esse deverá ser um dos temas fortes do encontro de ambos amanhã.

Ouvido pela BBC, Ted Malloch, que deverá ser o futuro embaixador dos Estados Unidos na União Europeia, diz que um acordo de livre comércio EUA-Reino Unido poderá estar pronto a ser ratificado em apenas 90 dias. "Nenhum acordo vai ser assinado na Casa Branca esta sexta-feira, mas poderá haver um acordo para enquadrar o futuro em que as pessoas serão inspiradas a ter este tipo de conversas à porta fechada. Para mim isso é muito positivo e também envia um sinal de que os EUA apoiam a Grã-Bretanha nesta hora de necessidade."

Outros economistas têm alertado que o Reino Unido e os Estados Unidos já são importantes parceiros comerciais e que negociar um novo acordo bilateral de livre comércio a partir do zero vai levar anos e enfrentar vários potenciais obstáculos.

Drew Angerer/Getty images

O fio condutor protecionista que tem marcado a retórica do Presidente Trump, em discursos como o da sua tomada de posse na sexta-feira, e o facto de já ter assinado uma ordem executiva para suspender a Parceria Transpacífico (TPP) e de estar a preparar-se para reestruturar o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), tem levantado questões sobre se os britânicos conseguirão, de facto, alcançar uma aliança comercial equilibrada.

O Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn já pediu à primeira-ministra que não passe um "cheque em branco" a Trump nessa área, sob pena de os interesses do Reino Unido serem atropelados pelos EUA; a oposição teme que May vá ceder em áreas como a segurança alimentar ou o NHS, o serviço público de saúde, que sob projetos de acordos de comércio livre como o TTIP estarão no topo da lista de privatizações com a entrada prevista de capital estrangeiro.