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Internacional

Novo round da guerra Papa vs. conservadores: demitido o chefe da Ordem de Malta

Franco Origlia / Getty Images

A causa imediata foi uma polémica por causa da distribuição de preservativos em Mianmar

Luís M. Faria

Jornalista

A demissão do líder da Ordem Soberana e Militar de Malta, na terça-feira, é o último episódio da guerra entre o Papa Francisco e as fações mais conservadoras da Igreja Católica. O grão-mestre Matthew Festing tinha desafiado explicitamente a autoridade do Papa, talvez encorajado por Raymond Burke, o cardeal que Francisco nomeou em 2014 para fazer a ligação entre o Vaticano e a Ordem - com o objetivo, segundo parece, de o manter afastado da segnatura apostólica, o tribunal superior da Igreja. Burke, um defensor das posições católicas mais tradicionalistas - anti-aborto, anti-gay, anti-feminista, etc - tem feito oposição ao atual Papa desde a eleição deste em 2013, criticando a subalternização dos éditos ditos "morais" em benefício da defesa dos pobres e da ecologia. Entre outros temas, indigna-o a tolerância em relação à possibilidade de os casais divorciados receberem comunhão. Mas se Francisco achou que o neutralizava mudando-o de posto, ter-se-á enganado.

Fundada originalmente em 1099 para dar assistência médica aos cruzados, a Ordem de Malta é a ordem de cavalaria mais antiga do mundo. Em quase um milénio de existência, apenas quatro grão-mestres foram afastados, e apenas um deles por um Papa. O cargo é normalmente entendido como vitalício. A crise que levou à demissão agora consumada teve a sua origem imediata na decisão de demitir o número dois da Ordem, um aristocrata alemão chamado Albrecht Freihher com Boeselager, cujo título formal era Grande Chanceler. Boeselager foi acusado de ter permitido a distribuição de milhares de preservativos em Mianmar (ex-Birmânia) por um ramo internacional da Ordem. Ele defendeu-se garantindo que acabou com essa prática logo que teve conhecimento dela - exceto numa situação, para não privar os pobres de serviços médicos - mas isso não bastou para o proteger.

O Papa Francisco, que tem defendido um certo relaxamento da nesse tipo de matérias, em especial quando estão em casa camadas sociais pobres que nem sempre têm informação ou meios práticos para cumprir rigorosamente a doutrina, nomeou uma comissão para averiguar o que se tinha passado na Ordem. Foi então que o grão-mestre Festing cometeu o erro que lhe custaria o cargo, ao anunciar publicamente que a Ordem, enquanto entidade Soberana, lidava com a Santa Sé em plano de igualdade e não tinha de seguir instruções de ninguém em assuntos "internos", como era o caso. Também exigiu publicamente aos membros da Ordem que não testemunhassem nada que contrariasse a sua versão dos factos.

Foi demasiado. Já esta semana, após receber o relatório que encomendou sobre o caso, o Papa chamou Festing e pediu-lhe que se demitisse. Ele não teve outro remédio. Em teoria, tem de ser o conselho soberano da Ordem a ouvi-lo e aceitar a demissão, mas, conforme alguém de dentro explicou, "Se o Papa nos pede que nos demitamos, não temos muita escolha". Um porta-voz da Ordem pôs água na fervura: "O Papa quer paz e unidade, como todos os membros da Ordem".

Sediada em Roma, a Ordem de Malta tem 13500 membros, 25000 empregados e 80 mil voluntários em mais de 100 países. O foco do seu trabalho é a assistência aos pobres e aos doentes em zonas de conflito ou onde ocorrem desastres naturais. Até o Papa nomear um delegado pontifício para a dirigir, as funções de Festing serão assumidas pelo anterior número 2 da Ordem. Quanto ao número 3, Boeselager, poderá estar em vias de recuperar o seu cargo.