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Internacional

ONU de Guterres condena "qualquer ação unilateral" de Israel nos territórios ocupados da Palestina

MENAHEM KAHANA

Em resposta aos planos de Benjamin Netanyahu para a construção imediata de 2500 novas casas em colonatos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental

As Nações Unidas condenaram na terça-feira os planos de Israel para construir novos colonatos na Cisjordânia ocupada, após o primeiro-ministro hebraico, Benjamin Netanayhu, ter dito que vai avançar com a construção de 2500 novas casas no território palestiniano. Este foi o segundo anúncio de expansão de colonatos feito pelo governo israelita desde que Donald Trump tomou posse na sexta-feira.

Stephane Dujarric, porta-voz do novo secretário-geral da ONU, António Guterres, disse aos jornalistas que a organização não vai tolerar "quaisquer ações unilaterais" do Estado hebraico que representem obstáculos à solução de dois Estados — uma com a qual o novo embaixador dos EUA em Israel, David Friedman, não concorda e que está posta em causa perante os planos da administração Trump para mudar a sua embaixada de Telavive para Jerusalém.

"Para o secretário-geral, não há qualquer plano B para a solução de dois Estados", disse Dujarric aos jornalistas em Nova Iorque. "A este respeito qualquer decisão unilateral que represente um obstáculo ao objetivo de dois Estados é motivo de grande preocupação para o secretário-geral. É preciso que os dois lados se envolvam numa negociação idónea para se alcançar o objetivo de dois Estados, Israel e Palestina, dois Estados para dois povos."

Antes de tomar posse, ainda durante a fase de transição para a Casa Branca, Trump envolveu-se numa querela na ONU entre Netanyahu e a anterior administração norte-americana, depois de Barack Obama ter ordenado a abstenção do país na votação de um documento onde a construção de colonatos israelitas é condenada. Graças à abstenção dos EUA e aos votos a favor da resolução pelos restantes membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o documento foi aprovado — um momento inédito que aprofundou ainda mais as divisões entre o anterior Presidente democrata e o governo israelita, que garantiu de imediato que não vai respeitar a resolução.

Neste momento existem cerca de 500 mil judeus a viver em 140 colonatos que Israel já construiu na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental desde 1967. Os colonatos são considerados ilegais à luz do direito internacional, um facto que Israel refuta há várias décadas. A maioria das novas casas, cuja construção foi aprovada por Netanyahu na terça-feira para "dar resposta a necessidades de habitação", será erguida em colonatos já existentes na Cisjordânia ocupada, incluindo no colonato 902 em Ariel e o 652 em Givat Zeev.

A par delas, cerca de uma centena de casas serão construídas em Beit El, um colonato perto de Ramallah, capital de facto dos palestinianos, que segundo a BBC tem recebido financiamento de uma fundação gerida pela família de Jared Kushner, genro e alto conselheiro de Trump para o Médio Oriente. Adotando o modelo de anúncios oficiais no Twitter, que o agora Presidente Trump segue desde que começou a fazer campanha para as presidenciais de novembro passado, Netanyahu garantiu ontem que Israel "está a construir e vai continuar a construir" mais casas e mais colonatos na Palestina ocupada.

Há centenas de checkpoints israelitas na Cisjordânia, um dos territórios palestinianos que os hebraicos ocupam há décadas e onde Netanyahu está a expandir a construção de colonatos

Há centenas de checkpoints israelitas na Cisjordânia, um dos territórios palestinianos que os hebraicos ocupam há décadas e onde Netanyahu está a expandir a construção de colonatos

THOMAS COEX

Os planos têm sido condenados por vários governos e organizações, entre eles a Autoridade Palestiniana, o único representante oficial dos palestinianos reconhecido pela comunidade internacional, que considera que o avanço da construção em territórios ocupados enterra as possibilidades de se alcançar um acordo para a criação de dois Estados vizinhos. O primeiro-ministro israelita garante que continua empenhado na solução de dois Estados mas no domingo terá dito aos ministros do seu governo que vai acabar com todas as restrições de construção na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, no mesmo dia em que a autarquia israelita da disputada cidade — sobre a qual israelitas e palestinianos clamam soberania — emitiu licenças para a construção de 566 novas casas nos colonatos de Pisgat Zeev, Ramat Shlomo e Ramot.

Logo a seguir a esse encontro, Netanyahu terá discutido o "processo de paz" ao telefone com Trump, que o convidou para um encontro oficial em Washington DC já no início de fevereiro. "O Presidente enfatizou que a paz entre Israel e os palestinianos só pode ser negociada diretamente pelas duas partes e que os Estados Unidos vão trabalhar de perto com Israel para que se alcancem progressos nesse sentido", informou a Casa Branca após o telefonema.

Em reação ao anúncio de terça-feira sobre a construção de mais casas em colonatos da Cisjordânia, um membro da Organização para a Libertação da Palestina pediu à comunidade internacional que faça todos os possíveis para travar os hebraicos e a expansão da ocupação da Palestina. "Uma vez mais, o governo israelita provou que está mais empenhado no roubo de terra e na colonização do que na solução de dois Estados e nos compromissos com a paz e a estabilidade", disse Hanan Ashrawi, do comité executivo da OLP. "Uma escalada tão deliberada dos esforços de colonização ilegal constitui um crime de guerra e uma violação flagrante da lei e convenções internacionais, em particular da resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU.

Os Estados Unidos e a comunidade internacional, acrescentou Ashrawi, devem "tomar medidas sérias e concretas para acabar totalmente com as atividades de colonização e para responsabilizar Israel por estes planos desastrosos com medidas punitivas e sanções antes que [o país] complete a destruição da contiguidade territorial e demográfica da Cisjordânia".

Na segunda-feira, depois do telefonema de Trump e Netanyahu e perante a intenção do Presidente norte-americano em mudar a sua embaixada em Israel para Jerusalém, o Hamas deixou um aviso aos dois governos sobre os "perigos" de avançar com esse realojamento na "Jerusalém ocupada". Em comunicado, o movimento islamita, que controla a Faixa de Gaza, avisou que, se tal acontecer, Trump e Netanyahu estarão a "ultrapassar todas as linhas vermelhas".