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Terminou o “reinado de mil anos” de Yahya Jammeh, o homem que dizia curar a sida

EXILADO Depois de 22 anos no poder, Yahya Jammeh perdeu as eleições e fugiu perante a ameaça

Jammeh já está no exílio e a Gâmbia prepara-se para ter a primeira transição democrática desde a independência dos britânicos, em 1965. O júbilo expresso pela população nas ruas abre caminho à presidência de Adama Barrow, que ainda está no Senegal

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Onze milhões e meio de dólares (dez milhões e meio de euros) é quanto falta nos cofres da Gâmbia, titulam vários jornais esta segunda-feira ao reportarem o que foi encontrado pelos funcionários da nova administração após a partida de Yahya Jammeh para o exílio, no sábado passado.

“Segundo informações que recebemos, não há dinheiro nos cofres. Foi o que nos disseram e é o que clarificaremos no dia em que assumirmos finalmente funções”, declarou o novo Presidente, Adama Barrow, à rádio senegalesa RFM. Numa conferência de imprensa em Dacar, o conselheiro do novo chefe de Estado, Mai Ahmad Fatty, assumiu a confirmação dos factos pelos “técnicos do ministério das Finanças e do Banco Central da Gâmbia”.

Além de usar estas últimas semanas para esvaziar os cofres, Jammeh aproveitou os derradeiros resquícios do seu autoritarismo para fazer despachar por avião os seus valiosos bens a partir do Chade, incluindo um número incerto de carros de luxo em direção ao exílio, segundo declarou um conselheiro do novo Presidente.

Yahya Jammeh foi o segundo homem a presidir à Gâmbia. Enquanto jovem oficial de 29 anos liderou um golpe de Estado pelo qual tomou o poder no ano de 1994. A Gâmbia era nessa altura um cenário perfeito para férias tropicais ao qual Jammeh impôs um estilo peculiar. Devoto muçulmano, trazia invariavelmente nas mãos as contas para oração e um bastão cerimonial em jeito de cetro. Yahya sustentava ter poderes milagrosos capazes de curar a sida e a infertilidade feminina com uma combinação de ervas.

Defendia também que a homossexualidade era contra Alá e uma força contra a existência humana, ao ponto de ameaçar decapitar homossexuais. Em 2014, perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, lamentou que os governos ocidentais estivessem a trabalhar para que a homossexualidade fosse legalizada.

Um ano antes, já reforçando o seu isolamento político, Jammeh retira o país da Commonwealth na sequência da pressão que esta organização vinha a fazer para que houvesse reformas no pequeno país da África Ocidental de pouco menos de dois milhões de habitantes. Foi também em 2013 que declarou que, caso fosse essa a vontade de Alá, “ficaria no poder por mil anos”. Naquele ano, aproveitou o festival muçulmano do Eid para anunciar que todos os prisioneiros no corredor da morte seriam executados, pondo deste modo fim a uma moratória que durava há 27 anos. Nove pessoas foram executadas. Por isso, a perseguição de opositores, em particular de jornalistas, manchar-lhe-á para sempre a biografia, apesar de ter então cedido à pressão da União Africana e da União Europeia para que pusesse fim às execuções.

Apesar de dificilmente se vir a libertar no futuro da fama de governar como um ditador sem respeito pelos direitos humanos nem pela liberdade de expressão, acabou por ser o primeiro líder da Gâmbia a abandonar o poder de forma pacífica desde o fim da colonização pelo britânicos em 1965.

Impasse ultrapassado

O impasse chegou ao fim, mas ainda há tensão. O povo saiu à rua em júbilo pela partida do líder autocrata dos últimos 22 anos, porém Adama Barrow, o novo Presidente, ainda não regressou do Senegal à Gâmbia, onde se tinha refugiado após Jammeh se ter recusado a aceitar a sua vitória expressa nos votos do escrutínio de 1 de dezembro de 2016.

No domingo passado, os habitantes de Juba aclamaram as tropas de países da África ocidental Senegal, Nigéria, Gana e Mali que entraram na capital para garantir o regresso de Barrow a Juba, bem como zelar pela concretização da transição no país. O mandato da força militar previa depor Jammeh, mas os militares não chegaram a ir além de ocuparem as suas posições para verem as pessoas alinhar-se à beira das estradas gritando-lhes “obrigado”, ao que os soldados responderam com sorrisos e acenos à população enquanto ocupavam as suas posições.

É assim que a agência Reuters descreve o início do desenlace de uma situação que foi analisada como um bom sinal para toda a região: a primeira transição democrática que o país conhece foi possível graças à pressão regional e internacional que não deu hipótese à pretensão de permanecer no poder do Presidente vencido nas urnas.

Ainda assim, Nicholas Cheeseman, perito em assuntos africanos da Universidade de Birmingham citado pelo diário “The Guardian”, lembra que a Gâmbia é um caso distinto na região devido à pequena escala do país e à ausência de aliados do Presidente derrotado.

A operação de deposição teve início na quinta-feira, dia em que Adama Barrow foi empossado na embaixada da Gâmbia no Senegal. A partida do líder derrotado para o exílio na Guiné Equatorial foi mediada durante dois dias pelos Presidentes da Guiné Conacri, Alpha Condé, e da Mauritânia, Mohamed Ould Abdel Aziz. Os termos da discussão são desconhecidos, mas o novo Presidente declarou à rádio RFM na capital senegalesa, Dacar, que não tinha sido oferecida imunidade a para que abandonasse o país. Yahya Jammeh queria ficar na Gâmbia, mas “Nós dissemos que não poderíamos garantir a sua segurança e que deveria partir”, declarou Barrow.

Acusado de ordenar a detenção, tortura e morte de centenas de opositores, Yahya Jammeh está a partir de agora na Guiné Equatorial, país que não é membro do Tribunal Penal Internacional - o que dificultará que venha a ser responsabilizado pelos seus atos do passado - e que é governado por Teodoro Obiang desde 1979, um dos líderes africanos há mais anos no poder.