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Investiguem Trump: o apelo dos jornalistas dos Panama Papers

CHRISTOF STACHE/AFP/Getty Images

A partilha da informação dos chamados Panama Papers com uma equipa de 400 jornalistas de todo o mundo mostrou que um projeto, que inicialmente era impensável, conseguiu unir jornalistas de órgãos de comunicação concorrentes em torno de um objetivo comum. “A principal razão porque o nosso jornal, o “Süddeutsche Zeitung”, partilhou a história com a concorrência foi simplesmente porque era demasiado importante para a trabalharmos sozinhos”. Bastian Obermayer e Frederik Obermaier pedem agora a união dos jornalistas para lutarem contra a ameaça que Trump representa para a imprensa

Num artigo de opinião publicado esta terça-feira no jornal britânico “The Guardian”, Bastian Obermayer e Frederik Obermaier, jornalistas do “Süddeutsche Zeitung”, responsáveis pelo início da investigação dos Panama Papers, apelaram à solidariedade e colaboração entre jornalistas perante a atitude do novo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, face à imprensa.

Os dois jornalistas alemães relembram o caso do jornalista da CNN, que foi humilhado por Trump durante a sua primeira conferência de imprensa, desde as eleições presidenciais. Afirmam que é preocupante que nenhum dos seus colegas presentes na sala se tenha levantado em sua defesa naquele momento.

Notam também que este “não é o primeiro ataque de Trump à imprensa e certamente não será o único”. Por essa razão, apelam à solidariedade entre os colegas de profissão. O impacto de Donald Trump na democracia, apontam, “é demasiado grande e demasiado importante para trabalharmos por nossa conta”.

“Da próxima vez que Donald Trump tentar discriminar um jornalista ao não responder às suas questões, o jornalista seguinte a quem for concedida a palavra, deve repetir a mesma pergunta feita pelo jornalista desprezado por Trump. E, se este ignorar este jornalista, o seguinte também deve repetir a mesma pergunta e por aí em diante”, escrevem os jornalistas.

E continuam: “Esta será uma abordagem nova e pouco usual. Mas se os media não quiserem ver mais conferências de imprensa desastrosas como aquela, vão ter de ser ousados”.

Bastian Obermayer e Frederik Obermaier reconhecem que os media não vão conseguir abordar esta questão da mesma forma como fizeram para os Panama Papers, quando o Consórcio de Jornalistas de Investigação sediado em Washington DC coordenou o trabalho de 107 órgãos de comunicação do mundo inteiro. Mas garantem que existem ainda outras possibilidades sobre o modo como os media podem trabalhar em conjunto.

Os jornalistas propõem, assim, várias soluções: assumindo que uma fonte aborda um jornalista de um determinado órgão de comunicação com informação importante sobre um tema pertinente, mas que é difícil para o órgão em questão confirmar a veracidade dos factos, a sugestão é para que se entre em contacto com colegas de outros órgãos, que já tenham tratado aquela matéria, mesmo que sejam de meios concorrentes.

Um nível mais elevado de colaboração é, na visão destes jornalistas, fundamental nos dias de hoje. O desejável seria uma colaboração especial em vários projetos. Um primeiro projeto possível seria olhar para as relações empresariais internacionais de Trump e dos multimilionários do seu gabinete, para encontrar todos os conflitos de interesse existentes.

O próprio Presidente, explicam, controla centenas de empresas e, dessa forma, é impossível para um único órgão de comunicação investigar devidamente. No entanto, não é tarefa impossível se os jornalistas empreenderem uma investigação e se se ajudarem mutuamente.

Um outro projeto que sugerem é a investigação às ligações de Trump com a Rússia e ao seu passado com o Kremlin, sobretudo para esclarecer aqueles que desconfiaram do dossiê publicado pelo Buzzfeed. Os jornalistas notam que conflitos de interesses desconhecidos em ambos os lados podem configurar uma grande ameaça para a segurança interna dos EUA.

Esta colaboração deve, pois, decorrer a nível internacional, uma experiência que estes jornalistas já tiveram no caso dos Panama Papers e que foi vital para o desenrolar da investigação.

“Tem sido sempre o trabalho mais nobre de um jornalista questionar o poder do Governo, que é o centro do poder. Isto é ainda mais importante quando o presidente se comporta como um dos oligarcas que jornalistas como nós, que escrevem sobre corrupção internacional, investigamos repetidas vezes”, sublinham Bastian Obermayer e Frederik Obermaier. Apontam, por fim, que Trump está a condicionar a liberdade de imprensa, mas que chegou a hora de os jornalistas modificarem este rumo. “Não só será justo, como é absolutamente necessário”.

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