Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Administração Trump, semana 1. Factos alternativos e caça aberta ao Presidente

getty

Os primeiros dias da era Trump ficaram marcados por mentiras facilmente desmontáveis, o início do fim das políticas progressistas de Barack Obama e uma série de pequenos momentos que deram laivos de distopia à nova realidade norte-americana. Ao terceiro dia, a WikiLeaks abriu uma guerra contra o Presidente Trump: “A conselheira de Trump Kellyanne Conway disse que Trump não vai divulgar a sua declaração de rendimentos. Enviem-na para wikileaks.org/#submit para que nós possamos fazê-lo”. Ao quarto, esta segunda-feira, foi o Hamas que ameaçou declarar guerra ao grande aliado de Israel

A administração de Donald Trump arrancou há quatro dias com a “equipa de segurança nacional desaparecida em combate”. Segundo a Foreign Policy, o novo Presidente chegou à Casa Branca na sexta-feira com quase todos os cargos de segurança doméstica e diplomáticos por atribuir. À revista, um funcionário do governo federal disse que “nunca viu nada assim”. Um pouco a sensação que inúmeras pessoas dentro e fora dos Estados Unidos têm manifestado, nas ruas e nas redes sociais, desde que o empresário tomou posse como 45.º Presidente dos Estados Unidos.

Pode dizer-se que tudo começou com o discurso, aquele que supostamente teria escrito mas que afinal, reconheceu a sua equipa, é da autoria de dois dos seus conselheiros, o líder da autoproclamada “direita alternativa” Steve Bannon, estratega-chefe da nova Casa Branca, e Stephen Miller, o homem que escreveu os discursos de Trump ao longo da campanha eleitoral e que continua à espera de conhecer o seu futuro cargo no governo.

De Bannon já muito se escreveu mas não tanto de Miller, embora o nacionalista branco de 31 anos tenha atraído atenções em julho por causa do discurso de vitória nas primárias que escreveu para Trump declamar na Convenção Nacional Republicana. Foi acusado de transmitir uma visão distópica da América, a ideia de um país mergulhado no crime, na violência e na pobreza extrema, que há quatro dias voltou a ganhar destaque na fórmula “carnificina americana”. Ao discurso da tomada de posse, Bannon acrescentou uma fala de Bane, o vilão do filme “Batman: The Dark Knight Rises” — correspondente ao Darth Vader da saga Star Wars, a quem o fundador da Breitbart News se comparou numa entrevista com o “The Hollywood Reporter”: “Vamos devolver o poder a vós… o povo”.

getty

Mais ou menos à mesma hora em que Trump discursava, Richard Spencer era esmurrado em direto na televisão enquanto celebrava a nova administração nas imediações do Capitólio. Spencer, amigo de longa data de Miller, é um homem que recusa o rótulo de supremacista branco, descrevendo-se como um “identitário” que só quer lutar por uma pátria para “a raça branca desapossada” e contra a “desconstrução” da cultura europeia. Como? Através de uma “limpeza étnica pacífica”. É também o homem que, na reta final da campanha, organizou um evento de apoio ao candidato republicano onde gritou “Hail Trump” (ali próximo do ‘Heil’ alemão) e recebeu, em resposta, uma sala cheia de saudações nazis.

A realidade continuou a ultrapassar a ficção logo a seguir ao discurso. No instagram, Betsy DeVos, a milionária que Trump escolheu para a pasta da Educação, publicou uma fotografia com o marido a dizer-se feliz por ter testemunhado a tomada de posse do 45.º Presidente; a legenda tinha um erro gramatical e outro de sintaxe e vários utilizadores foram rápidos a notar a ironia de a nova ministra do ensino não saber escrever. Na mesma rede social, o gestor da página “Trump.Only.2016” publicaria mais tarde uma fotografia de Donald e Melania Trump acompanhados de Sylvester Stallone na festa na Casa Branca com a legenda: “Seria bom ter ido à festa!! Só otários como este é que são convidados enquanto pessoas como eu, que votaram e trabalharam nesta campanha sem parar, não são.”

Revolta à vista? Nas vésperas da tomada de posse, Marty Linsky, professor de Ciência Política em Harvard, já tinha garantido ao Expresso que “Trump está em rota para desiludir uma significativa parte dos seus apoiantes mais ferverosos porque não há hipótese de cumprir algumas das suas promessas de campanha mais ambiciosas”. Assim parece, e não porque o gestor da “Trump.Only.2016” e outros apoiantes do Presidente tenham ficado fora da guest list. Já lá iremos.

getty

A seguir à festa, Trump e o seu chefe de imprensa, Sean Spicer, declararam falsamente que a tomada de posse do novo Presidente americano contou com “a maior audiência de sempre” no centro de Washington DC, quando fotografias aéreas desta e da tomada de posse de Barack Obama em 2008 mostram que a de Trump contou com cerca de um terço dos participantes. As fotografias do dia seguinte, sábado, em que se assistiu a um protesto global massivo pelos direitos das mulheres e contra o novo Presidente da América (houve marchas em mais de 60 países), contrastam ainda mais com as imagens de sexta-feira.

“A questão mais importante aqui”, escrevia domingo o “Huffington Post”, “não é o tamanho da multidão, ou se Trump andou a guerrear com os espiões da América (que andou) ou sequer se o Presidente e o seu assessor de imprensa mentiram. O que é notável aqui é que o Presidente e a administração escolheram mentir, repetidas vezes, no seu primeiro dia de trabalho sobre um assunto relativamente trivial e facilmente confirmável”.

Para este e outros jornais, analistas e cidadãos comuns, Trump e Spicer mentiram. Para Kellyanne Conway, o Presidente e o chefe do gabinete de imprensa da Casa Branca apresentaram “factos alternativos”. Em jeito de catarse, as redes sociais voltaram a explodir numa sonora gargalhada, que a mesma assessora de Trump calaria pouco depois. Em entrevista ao canal ABC, Conway disse que, ao contrário do que tinha prometido, o Presidente “não vai divulgar a sua declaração de rendimentos” porque “as pessoas não querem saber”. “Elas votaram nele e deixe-me dizer-lhe, a maioria dos americanos está muito focada no que as suas declarações de rendimentos vão ser enquanto o Presidente Trump estiver no poder e não em como são as dele.”

Foi mais uma mentira — um “facto alternativo” na visão de Kellyanne. Para a desconstruir, pode partir-se do facto real de que, nas urnas, houve mais três milhões de pessoas a votar em Hillary Clinton do que em Trump, presumivelmente todas defendendo que o empresário deve divulgar o estado das suas finanças e das contas ao Estado. Uma sondagem do Pew Research Center há uma semana já mostrava que 60% dos inquiridos, incluindo 38% de republicanos, defendem que o Presidente “tem a responsabilidade” de publicar esta informação.

getty

A isto acresce o facto de Kellyanne Conway ter garantido em setembro que o empresário ia divulgar a declaração de rendimentos no futuro e que só não o fazia antes das eleições porque estava a ser alvo de uma auditoria. Ao que parece nunca houve auditoria e com isto o novo Presidente norte-americano acabou de comprar uma guerra com a WikiLeaks — que durante a campanha pareceu favorecer o republicano, concentrado esforços nos emails do Partido Democrata que terão sido obtidos por piratas russos com ligações a Vladimir Putin e que Trump usou recorrentemente contra a rival democrata.

No domingo, a organização de Julian Assange escreveu no Twitter que “a quebra de promessa de Trump sobre divulgar a sua declaração de rendimentos é ainda mais gratuita do que Clinton ter escondido as transcrições [dos seus discursos a executivos] do Goldman Sachs”. Logo a seguir, pediu que os documentos sejam enviados à equipa de delatores. “A conselheira de Trump Kellyanne Conway disse que Trump não vai divulgar a sua declaração de rendimentos. Enviem-na para wikileaks.org/#submit para que nós possamos fazê-lo.” A contagem já começou — para que Assange obtenha a informação ou para que Mitch McConnell e Paul Ryan, respetivamente líderes da maioria republicana no Senado e na Câmara dos Representantes, obriguem o Presidente a divulgar a declaração.

Ao quebrar o proforma respeitado por todos os seus antecessores nos últimos 40 anos, Trump alimenta as suspeitas de que estará a esconder algo, o que quer que seja suficientemente grave para ameaçar a sua presidência. É isso que pelo menos 159 mil pessoas parecem crer, aquelas que assinaram uma petição online para exigir que Trump seja transparente quanto ao seu império de negócios e aos bens que detém e que declara ou não — um extra de 59 mil para que a Casa Branca seja obrigada a dar uma resposta oficial a estes cidadãos. Não é certo que essa regra vá ser respeitada.

A juntar a isto, a Crew (Cidadãos para a Responsabilidade e Ética em Washington) apresentou esta segunda-feira de manhã num tribunal federal de Manhattan um processo judicial contra o Presidente por estar a receber dinheiro de governos estrangeiros em estadias nos hotéis da cadeia Trump. A organização sem fins lucrativos acusa o novo líder de violar a Constituição e é a primeira a tentar sentá-lo no banco dos réus desde que ele tomou posse.

getty

Até lá, Donald J. Trump continua ao leme dos Estados Unidos e a abrir caminho contra o legado de Barack Obama. A primeira coisa que fez assim que tomou posse foi assinar uma licença para que James Mattis, general na reforma, possa ser o seu Secretário da Defesa (a lei federal dita que tem de ser um civil ou um militar fora do ativo há pelo menos sete anos; Mattis só abandonou o Comando Central dos EUA em 2013.) Logo a seguir, deu início aos cortes na agenda que o antecessor implementou. Do novo site da Casa Branca desapareceram as secções dedicadas às alterações climáticas, direitos civis, programa de cuidados de saúde e direitos da comunidade LGBT e até a versão do próprio site em espanhol. No lugar da biografia de Michelle Obama, a de Melania Trump faz agora publicidade descarada à linha de joalharia da nova primeira-dama. Ainda na sexta-feira, Trump também assinou uma série de ações executivas, entre outras coisas, para declarar um Dia Nacional do Patriotismo — para já sem data — e para suspender de imediato o plano de cortes nos prémios de seguro de hipoteca exigido em empréstimos à habitação.

getty

Ao terceiro dia, também alumiou uma potencial guerra, diplomática ou pior, no Médio Oriente. O facto de a sua equipa ter revelado no domingo que vai mesmo mudar a morada da sua embaixada em Israel de Telavive para a disputada Jerusalém levou o presidente da Autoridade Palestiniana a acorrer a Amã para se encontrar com o rei Abdullah II da Jordânia. Abdullah e Mamhoud Abbas partilham receios sobre os planos da administração Trump quanto à cidade, que é um dos grandes entraves a uma solução pacífica para a questão israelo-árabe.

Os planos estão alinhados com o que o futuro embaixador norte-americano no Estado hebraico, David Friedman, defende — neste caso o que não defende, a solução de dois Estados. Para Friedman, e até ver para o novo governo, a comunidade internacional está errada em classificar como ilegais os colonatos que Israel continua a construir há décadas nos territórios ocupados da Palestina, inclusivamente na parte oriental de Jerusalém, atribuída aos palestinianos sob os Acordos de Oslo há mais de 20 anos. Esta segunda-feira, o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, deixou um aviso a Trump sobre os “perigos de mudar a embaixada norte-americana para a Jerusalém ocupada”. Fazê-lo, avisou o movimento islamita em comunicado, “vai ultrapassar todas as linhas vermelhas”.

A fechar o quarto dia da presidência Trump, fontes da administração anunciaram uma nova ordem executiva, esta para acabar com dois dos maiores tratados comerciais dos EUA, o TPP e o NAFTA. Outra frente de guerra aberta, contra a globalização e o livre comércio dos EUA com o Pacífico, o México e o Canadá.