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Internacional

Governo de Theresa May acusado de silenciar relatório sobre impacto das alterações climáticas

WPA Pool

Nem a agência britânica responsável por compilar o relatório sobre o aquecimento global a cada cinco anos, nem o Ministério do Ambiente, nem os media do Reino Unido falaram sobre o documento — divulgado a 18 de janeiro e onde é sublinhado que a subida da temperatura do planeta representa "elevados riscos" para a segurança alimentar e que vai duplicar o número de mortos em ondas de calor e provocar potenciais danos nas infraestruturas do país por meio de cheias e outros fenómenos extremos

Especialistas e ativistas ambientais do Reino Unido acusam o governo de Theresa May de ter "tentado enterrar" um estrondoso relatório público sobre os potenciais impactos das alterações climáticas no país à medida que a temperatura média do planeta Terra continua a subir.

No relatório produzido pelo Departamento para o Ambiente, os Alimentos e os Assuntos Rurais (Defra) e publicado no site oficial do governo a 18 de janeiro sem qualquer destaque é sublinhado que o aquecimento global pode vir a duplicar o número de mortos durante ondas de calor na Grã-Bretanha, bem como representar "elevados riscos" para a segurança alimentar e eventualmente levar à danificação das infraestruturas do país por causa de cheias de outros fenómenos naturais decorrentes das elevadas temperaturas.

Este Relatório Sobre os Riscos das Alterações Climáticas é compilado a cada cinco anos no Reino Unido e, apesar da sua importância, nem a ministra do Ambiente, Andrea Leadsom, reagiu oficialmente ao que é revelado pelos cientistas, não fazendo qualquer discurso ou publicando qualquer comunicado, nem sequer a conta de Twitter da Defra fez qualquer anúncio sobre o documento. Até agora, o relatório publicado no site da Defra a 18 de janeiro também não tinha sido noticiado pelos grandes media britânicos, aponta o "The Independent".

Nele, o governo britânico admite que existem "prioridades urgentes" que precisam de respostas urgentes, entre elas duas questões de "elevado risco": os danos que se antecipam que serão causados por cheias e a erosão costeira e os efeitos da subida da temperatura global na saúde humana. A concluir, os especialistas da agência governamental dizem que o número de mortos resultantes de ondas de calor no Reino Unido "pode mais que duplicar até aos anos 2050 com base na linha média atual de cerca de duas mil [mortes] por ano". O departamento sublinha que é preciso "agir rapidamente" para dar respostas a estes problemas e reconhece não só que o abastecimento de água potável pode ser afetado pelas alterações climáticas como também que estas "vão representar riscos significativos para o abastecimento de comida no Reino Unido", em parte por causa das condições meteorológicas extremas e do seu impacto em algumas das regiões que mais alimentos produzem.

Em reação ao relatório, Bob Ward, diretor de políticas e comunicação do Grantham Research Institute on Climate Change, com sede em Londres, disse estar "abismado" que um relatório com tamanha importância tenha sido silenciado nos últimos seis dias. "O Defra fez muito pouco para o publicitar, nem sequer tweetou sobre o assunto", disse ao "The Independent". "É quase como se estivessem a tentar que as pessoas não reparassem nele. Não sei o que estavam a pensar. Deviam ter dado muito mais destaque a isto, no mínimo Andrea Leadsom devia estar a promovê-lo com um grande discurso. Não faço ideia porque é que não chamou a atenção para a necessidade de se reconhecerem os riscos."

Para Ward e outros especialistas da área do ambiente e das alterações climáticas, é importante que as pessoas em geral percebam o que está em risco, sobretudo num momento em que governos poderosos como a nova administração dos EUA, liderada por Donald Trump, questionam a factualidade do aquecimento global. "Não pode haver desculpas para não levar a questão da resiliência climática a sério", diz, em parte porque até a economia britânica, tão central para o atual governo numa altura em que se prepara para firmar a saída da União Europeia, pode ser duramente afetada pelo fenómeno. "Não queremos construir uma fábrica aqui se existe o risco de ficar inundada. Parece haver uma abordagem confusa à adaptação climática no centro do governo."

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Doug Parr, cientista da Greenpeace UK, sublinha que o novo relatório deixa claro que as alterações climáticas são "uma das maiores ameaças securitárias" que o Reino Unido enfrenta e que isto não deve ser varrido para baixo do tapete. "É preocupante que os ministros tenham decidido esgueirar-se desta avaliação vital, produzida apenas de cinco em cinco anos, no dia a seguir ao discurso da primeira-ministra sobre o Brexit", diz citado pelo mesmo jornal. "Nem o Defra nem o Ministério do Ambiente acharam que isto valia nem sequer um tweet. Esperamos que a baixa prioridade na comunicação [do relatório] não reflita a baixa prioridade em definir as medidas necessárias para proteger o Reino Unido dos riscos que as alterações climáticas representam."

A mesma ideia é transmitida por Joanna Haigh, especialista em física atmosférica do Imperial College de Londres. "Temos de nos lembrar que a nossa civilização se desenvolveu para prosperar num determinado clima e que, à medida que esse clima se altera, estamos a ser atingidos por uma série de desafios ao nosso modo de vida. Podemos adaptar-nos a alguns impactos das alterações climáticas, como o relatório do governo mostra, mas apenas se mantivermos esses impactos dentro de limites razoáveis, reduzindo as emissões de carbono."

Por esse motivo, informar a população sobre os potenciais perigos representados pelo aquecimento global "é uma coisa muitíssimo importante a fazer", acrescenta Haigh. "Muita gente que fala do aquecimento global pensa que só quer dizer que [a temperatura] está a subir um ou dois graus e que isso não é assim tanto mas quando se pensa nos verdadeiros impactos disso no terreno e nas pessoas, é um assunto muito sério. Deve o público estar ciente deste tipo de questões? Absolutamente. Estas coisas vão realmente afetar as pessoas, vai afetar cada um de nós no nosso dia-a-dia, saúde e vida. Já está a afetar a produção de comida em todo o mundo, pelo que todas as nossas cadeias de abastecimento vão estar no limite."

"As pessoas da área da saúde estão a ficar cada vez mais alarmadas com as ameaças que as alterações climáticas representam para a saúde humana e têm razões para o fazer", defende Hugh Montgomery, diretor do Centro para a Saúde Humana da Universidade College de Londres. Para o especialista, eventos meteorológicos extremos como cheias e ondas de calor representam "um risco direto para a saúde, particularmente para os idosos e os enfermos". "Se fizermos as coisas como deve ser, os nossos esforços para dar respostas às alterações climáticas podem evitar alguns desses riscos com benefícios diretos na saúde", defende ainda. "As energias renováveis não geram poluentes que danificam a saúde humana, por exemplo, ao passo que andar a pé ou de bicicleta melhora a saúde e reduz as emissões de carros, que são um grande problema em muitas das nossas cidades."

Também ao "The Independent", o diretor do Defra, lorde Gardiner, reconheceu que "o nosso clima em mudança é um dos desafios ambientais mais sérios que [o Reino Unido] enfrenta enquanto nação" e que "é por isso que estão a ser tomadas ações, desde melhorar as defesas anti-cheias em todo o país até garantir o abastecimento de comida e água". O último relatório, acrescenta Gardiner, "vai ajudar-nos a desenvolver um programa de longo prazo para dar resposta a estes riscos para que possamos continuar a trabalhar para proteger a nação hoje e para as gerações futuras". Fonte do governo de May justificou, por sua vez, que o relatório foi publicado "no canal oficial online do governo, em gov.uk, como é prática comum para relatórios" vários. "Não damos importância extrema a cada relatório que publicamos em gov.uk ou noutros meios."