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O problema das cinco esquerdas nas presidenciais francesas

Ex-primeiro-ministro Manuel Valls vota na primeira volta das primárias socialistas, em Evry, no sul de Paris

ETIENNE LAURENT/EPA

Socialistas e seus aliados disputam as suas primárias neste e no próximo domingo, num ambiente de pessimismo. Sondagens colocam o futuro candidato do PS em quinto lugar na primeira volta das presidenciais, a 23 de abril. Na realidade, há cinco esquerdas que se detestam

Ao renunciar à recandidatura ao Eliseu, o presidente François Hollande deixou o PS numa situação muito complicada. Com efeito, o partido que o levou à Presidência francesa, em 2012, tinha organizado especialmente para ele as primárias em curso, que decorrem neste e no próximo domingo.

A direção do PS pretendia umas primárias rápidas, com uma campanha eleitoral de apenas um mês, para não criar demasiados problemas ao contestado presidente cessante, que receava esta competição. Mas, o que aconteceu foi que, devido à renúncia de Hollande, tudo foi improvisado pelos socialistas: quase todos os atuais candidatos tiveram de apresentar programas à pressa para uma campanha onde praticamente nem houve comícios, apenas entrevistas nos media e três debates na TV.

Além deste real problema relacionado com uma campanha demasiado curta, os socialistas e a esquerda em geral enfrentam outras dificuldades importantes. De facto, além dos candidatos às primárias - quatro socialistas e três “externos”, ecologistas “institucionais” e centristas de esquerda, sem qualquer hipótese de vencer as primárias - há dois fortes candidatos às presidenciais desta área política que não aceitaram sequer participar nestas chamadas “primárias da esquerda cidadã”. Trata-se de Emmanuel Macron, antigo quadro do banco Rotschild, independente que se diz “nem de esquerda nem de direita” e foi ministro da Economia de Manuel Valls e François Hollande, e Jean-Luc Mélenchon, antigo militante socialista, apoiado pela esquerda radical e os comunistas.

Primeira fase do drama da esquerda

Neste domingo, 22, os socialistas e aliados escolherão os seus dois campeões para disputar a segunda volta das primárias, no próximo domingo. As sondagens indicam que os finalistas sairão deste trio: Manuel Valls, até há poucas semanas chefe do Governo, e os seus dois ex-ministros, Arnaud de Montebourg (Economia) e Benoît Hamon (Educação).

Cada um destes três candidatos representa uma faceta diferente do socialismo francês: Valls é um assumido social-democrata, um “socialista responsável”, como ele diz, Montebourg é um nacionalista de esquerda e Hamon é um rebelde com tonalidades marxistas que, teoricamente, está mais próximo de Mélenchon do que de Valls, de Macron ou de Montebourg.

Cada um deles garante que respeitará o resultado da votação das primárias para as presidenciais, mas ninguém acredita nestas profissões de fé porque Hamon e os seus eleitores detestam Valls, Montebourg e os seus idem e… vice-versa. Isto é: Valls e os seus apoiantes também não podem ouvir falar dos “esquerdistas” Hamon e Montebourg.

Nas primárias “cidadãs” confrontam-se pois três projetos socialistas contraditórios, representados por personalidades que estão em conflito frontal pessoal, político e em público, desde há vários anos.

Este escrutínio das primárias representará a primeira fase do drama que vive a esquerda francesa porque, a seguir, o candidato que vencer estas eleições vai ter de enfrentar Macron e Mélenchon, além de Marine Le Pen (populista e nacionalista) e François Fillon (direita conservadora), estes dois últimos os favoritos para a primeira volta das presidenciais. Macron e Mélenchon também surgem largamente à frente, nas mais recentes sondagens para as presidenciais, do futuro candidato socialista, seja ele qual for.

Perante este quadro desastroso para o PS, algumas figuras socialistas de primeiro plano, como a atual ministra da Ecologia e antiga candidata às presidenciais, Ségolène Royal, já decidiram colocar-se ao lado de Macron, que nem sequer é militante do partido. Este surge em terceiro lugar nas sondagens, atrás de Le Pen e de Fillon e à frente de Mélenchon, e conta com a dinâmica da sua campanha, que é um facto, para conquistar o apoio dos socialistas. O problema é que Valls considera Macron “um traidor” e detesta-o pessoalmente. Pelo seu lado, Montebourg e, sobretudo Hamon, preferirão negociar eventuais apoios e desistências com Mélenchon do que com ele.

Há, sem dúvida, um problema importante por resolver pelas cinco esquerdas que pretendem disputar a corrida ao Eliseu, na próxima primavera.

Marine Le Pen e François Fillon surgem por isso logicamente destacados à frente nas intenções de voto para a primeira volta das presidenciais. Neste momento, parece certo que, se se apresentarem três candidatos presidenciais das áreas socialista, social-democrata e da esquerda comunista e radical, a luta pelo Eliseu será entre Fillon e Le Pen.