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Internacional

“O intervencionismo 
está a tornar-se a norma”

Mike Sergeant

A entrevista com Jorge Arbache, ex-Economista sénior do Banco Mundial

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

No momento em que o Fórum Económico Mundial (FEM) encerrou, o mundo parecia ter dado uma cambalhota. O Presidente da China foi pela primeira vez a Davos para encarnar o discurso liberal de mercado típico dos americanos. O Presidente-eleito (e entretanto empossado) dos EUA atacou a globalização e conseguiu influenciar investimentos de multinacionais do sector automóvel com um comentário intervencionista dado numa entrevista. Pelo caminho, a Oxfam revelou os dados atualizados da desigualdade da distribuição da riqueza: os oito mais ricos do mundo possuem tanto quanto os 3,6 mil milhões de mais pobres. A entrevista com Jorge Arbache, ex-Economista sénior do Banco Mundial.

Klaus Schwab, fundador do FEM, considera a presença do Presidente chinês em Davos sinal de estarmos a sair de um mundo unipolar liderado pelos EUA em passagem para um mundo multipolar. Concorda?
A presença do Presidente Xi Jiping é uma novidade, mostra a mudança da influência da China em Davos e reflete a nova ordem do pensamento liberal. É novidade em especial no momento da tomada de posse do Presidente-eleito dos EUA, com tudo o que implica. O que Xi Jiping defendeu no seu discurso, e o impacto que ele teve, significa uma total inversão da ordem conhecida. É como se uma peça de teatro sobre a defesa da liberalização, do comércio, da liberdade, do livre fluxo de recursos na economia global, que pertencia aos EUA, tivesse passado para a China. E os EUA colocam-se na posição contrária, defendendo princípios protecionistas.

O que mais o preocupa nesta equação invertida?
Termos sido incapazes de prever o que ia acontecer no futuro próximo na economia, na política ou na sociedade. A inversão de papéis não é neutra, não sabemos o que de facto está a acontecer para lá da retórica da China ou dos EUA.

De que globalização falamos quando falamos destes impactos na economia global?
O foco do discurso tem sido o aspeto da globalização que diz respeito à liberalização do comércio entendido como fluxos transfronteiriços e bens transacionados. Para lá destas questões ligadas à imigração — o que é importante de momento —, destaco a variável do comércio de serviços, mais ainda a economia de gestão do fluxo de dados. A globalização no século XXI dá-se muito mais pelas vias do fluxo de dados e de ideias neles contidas e do comércio de serviços do que pelo comércio de bens. É aquele que mais reflete a crescente integração das economias.

De que impacto da globalização fala então Donald Trump?
Nesta área digital e dos serviços, em que mais consumimos hoje e em que mais se cria valor à economia, não se fala em conter a globalização, até porque os líderes desse sector são os americanos. Trump refere-se a uma característica do século XX, a criação de empregos convencionais em sectores tradicionais, que é o que alimenta a mente de muita gente.

Quer dar um exemplo?
Na economia de globalização é cada vez menos importante o hardware e cada vez mais importante o software nas suas mais diversas dimensões. Isto não se questiona até porque — e Trump sabe-o bem — aqui está uma fonte de geração de riqueza gigantesca e de emprego nos EUA, ponto que não é o que terá mais tem reflexos no futuro. Terá Trump em mira algo muito mais estratégico valorizando o facto de a economia digital e a gestão de serviços ser de facto a maior fonte de geração de riqueza no século XXI?

E que diz da vulnerabilidade dos Estados a manipulações como as que terão acontecido nas presidenciais americanas?
A economia digital e de serviços ainda é muito frágil. Se houvesse um colapso da internet global uma grande parte da economia entraria em colapso. A possibilidade de a Rússia ter conseguido influenciar as eleições nos EUA prova que há ainda muito a fazer.

Uma resposta de Trump baixou a cotação da Volkswagen, BMW e Daimler...
É muito preocupante que os princípios de eficiência económica passem a seguir formas de intervenção explícitas de um líder político que trazem consigo visões políticas ameaçadoras para a ordem económica, sejam elas um tweet ou uma entrevista a um jornal. Foge à norma liberal e mostra que a intervenção se está a tornar a norma.

Complexidade

A leitura da complexidade 
do mundo atual 
é o foco de trabalho deste professor de economia da Universidade de Brasília que tem também experiência nas áreas governamental, sector privado e organizações internacionais. Arbache tem-se dedicado às agendas de crescimento económico e de 
políticas sectoriais. 
Foi assessor económico da Presidência do Banco Nacional do Desenvolvimento 
entre 2010 e 2014 e, antes, foi economista sénior do Banco Mundial em Washington. Lá dirigiu várias edições do relatório anual do Banco Mundial para a África.