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México e EUA estão numa relação complicada e em 140 carateres

YURI CORTEZ/GETTY IMAGES

Um dia depois da tomada de posse do novo Presidente dos EUA, o México espera para ver. O repórter Hélder Gomes tentou perceber o que poderá acontecer à economia dos dois países e a complexa relação entre os Presidentes Enrique Peña Nieto e o recém-empossado Donald Trump

Hélder Gomes, no México

“Trabalharemos para fortalecer a nossa relação com responsabilidade partilhada.” “Estabeleceremos um diálogo respeitoso com o Governo do Presidente Trump, em benefício do México.” “A soberania, o interesse nacional e a proteção dos mexicanos guiarão a relação com o novo Governo dos Estados Unidos”. Foi desta forma, em três tweets sucessivos, que o Presidente mexicano felicitou o 45º Presidente dos Estados Unidos logo após a sua tomada de posse. Enrique Peña Nieto parece apostado em responder à letra a Donald Trump, que frequentemente também fala ao mundo através do Twitter, a rede social dos 140 carateres.

Mas se quem com tweets mata com tweets morre, a verdade é que ambos os países poderão ter muito a perder caso o recém-empossado Presidente americano cumpra as promessas que fez durante a campanha. O Expresso falou com Raymundo Riva Palacio, autor da coluna Estrictamente Personal, publicada no diário económico “El Financiero”. A conversa andou à volta do efeito Trump na economia mexicana, da revolução no setor automóvel e da relação do Executivo de Peña Nieto com o seu homólogo americano.

Qual será o impacto da Administração Trump na economia mexicana?
Temos de esperar para ver o alcance das suas ações e com que força ele estará disposto a ir contra o México. Este país pode ser um dos seus alvos favoritos, mas tenho a impressão de que a China é o verdadeiro inimigo de Trump. No entanto, se ele cumprir as suas promessas de campanha, isso pode custar até 4,9% do PIB mexicano. Isso teria um efeito semelhante ao outono de 1995, na sequência de uma profunda crise financeira. Também há a questão de como a Administração Trump irá afetar a economia americana. Dados recentes mostram que um aumento de 10%, em média, no emprego numa afiliada mexicana gera, nos Estados Unidos, uma subida de 1,3% no emprego, de 1,7% nas exportações e de 4,1% na investigação e desenvolvimento. Há setores que dependem em mais de 40% das suas receitas do mercado mexicano. Não devemos minimizar o facto de o México estar virado para os setores da produção e da agricultura, enquanto a economia americana depende cada vez mais do setor dos serviços.

Como avalia a decisão da Ford de suspender a construção de uma nova fábrica no México e de, em vez disso, investir 700 milhões de dólares (cerca de 654 milhões de euros) nos Estados Unidos?
A Ford tem passado tempos difíceis. Foi forçada a cortar 13 mil postos de trabalho por causa de uma queda nas vendas em setembro. Quatro mil desses postos foram cortados no México. Não tenho dúvidas de que a Ford cedeu à pressão de Donald Trump. O investimento de 1,6 mil milhões de dólares [1,49 mil milhões de euros] numa nova unidade de produção, em San Luis Potosi, levaria a 2800 contratações até 2020. Agora, a Ford vai redirecionar esse investimento para uma escala muito menor, quando comparada com a original: 700 milhões de dólares no Michigan, com apenas um quarto das contratações. É difícil avaliar o impacto económico em San Luis Potosi, que é um dos estados mais dinâmicos no México. A nível regional, é possível não fazer grande mossa. A nível nacional, tudo vai depender do resto da indústria automóvel no país.

O que irá resultar desta revolução na indústria automóvel?
Vai afetar ambos os países. Desde 2010, os fabricantes de automóveis dos EUA e de outros países anunciaram investimentos multimilionários no México – na ordem dos 24 mil milhões de dólares [22,42 mil milhões de euros]. Quantos desses investimentos serão cancelados em definitivo? Não sabemos. A BMW e a Toyota disseram recentemente que iriam prosseguir com os seus planos de investimento no México. A Audi começou a operar em Puebla, na unidade de produção mais tecnologicamente avançada da marca. Segundo o Center for Automotive Research [organização de investigação sem fins lucrativos, localizada no estado americano do Michigan], os trabalhadores nas unidades de montagem no México ganham uma média de 5,64 dólares [5,27 euros] por hora, enquanto nas congéneres americanas se ganha 27,78 dólares [25,95 euros]. Os fornecedores de peças ganham apenas 2,47 dólares [2,30 euros] por hora, enquanto nos EUA se ganha uma média de 19,65 dólares [18,36 euros]. Se a relocalização for por diante, a questão é saber quanto é que isso afetará o preço de cada unidade e quanto custará um carro nos EUA.

Como classifica a relação do Presidente Peña Nieto e do atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Videgaray, com Trump? (Uma semana depois da visita de Trump à Cidade do México, em setembro do ano passado, Videgaray demitiu-se do cargo de ministro das Finanças. No início deste ano, voltou a ser chamado para ocupar a pasta das relações exteriores.)
Em três palavras: um desastre total. Era suposto que a visita servisse para o Presidente explicar as complexidades da relação bilateral e ser capaz de modelar as opiniões de Trump sobre o México. Isso não aconteceu. O peso é uma das moedas mais afetadas pela incerteza. Houve investimentos cancelados. A mensagem de Trump contra os mexicanos é a mesma, senão mesmo mais dura. Houve uma rutura no Executivo, depois uma remodelação. A taxa de aprovação de Peña Nieto caiu para 18-22%. A ansiedade sobre o futuro enche a alma mexicana.

O futuro das economias mexicana e americana passa muito pela relação entre Enrique Peña Nieto e Donald Trump. Mas já há quem defenda que o México deveria voltar-se mais para os países a sul. De resto, durante a tomada de posse de Trump em Washington, esta sexta-feira, decorriam protestos junto à Embaixada dos Estados Unidos na Cidade do México. A palavra de ordem era: “América Latina Unida. Não precisamos de ti, Trump”.

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    Donald Trump toma posse esta sexta-feira como o 45.º Presidente dos Estados Unidos da América. A cerimónia será um acontecimento mundial, mas poucos países a seguirão com tanto interesse como o México. O jornalista Hélder Gomes está no país mais hostilizado por Trump para perceber como os mexicanos vivem estes dias