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Trump tomou posse mas nomeados para o seu gabinete continuam a levantar polémica por questões éticas

CARLOS BARRIA / Reuters

Donald Trump tomou posse esta sexta-feira como o 45.º Presidente dos Estados Unidos. Para o seu Governo escolheu nomes polémicos, sendo que a maior parte são milionários, nacionalistas, pessoas sem experiência política e membros da sua família, que terão de ser aprovados pelo Senado. Segundo o “Politico”, os democratas do Senado vão permitir que dois desses elementos sejam nomeados no primeiro dia da presidência

Muitos dos escolhidos por Donald Trump para integrarem o seu Governo estão a braços com conflitos de interesses, posições extremas e falta de conhecimento sobre as matérias que vão ter de gerir. O Presidente, que tomou posse esta sexta-feira, vai enfrentar o escrutínio do Senado norte-americano na aprovação, ou não, dos seus nomeados.

Esta quarta-feira, três dos escolhidos por Trump para integrarem o seu gabinete – Tom Price, Mick Mulvaney e Wilbur Ross – estiveram debaixo de fogo devido a questões éticas que põem em risco a sua confirmação pelo Senado, escreve o “Washington Post”. O caso mais sério diz respeito ao republicano Tom Price, nomeado para o Departamento da Saúde, devido a investimentos pessoais em ações de seis empresas farmacêuticas, pouco antes de promover legislação no Congresso para as beneficiar.

O republicano Mick Mulvaney, escolhido por Trump para dirigir o Gabinete de Gestão e Orçamento, fugiu aos impostos, tendo deixado por pagar mais de 15 mil euros de impostos estatais e federais por empregar uma funcionária doméstica. E o nomeado para secretário do Comércio, Wilbur Ross, contratou uma empregada doméstica que não possuía documentos, apesar de referir que só recentemente tinha tomado conhecimento desse facto e, consequentemente, a havia despedido.

Wilbur Ross, nomeado para secretário do Comércio

Wilbur Ross, nomeado para secretário do Comércio

SHAWN THEW/EPA

Mas há mais. Scott Pruit, um cético no que diz respeito às alterações climáticas, foi nomeado para a Agência de Proteção do Ambiente. Questionam-se agora os alegados donativos da indústria do gás e do petróleo para a sua campanha a procurador-geral de Oklahoma.

Rex Tillerson foi designado secretário de Estado, mas a sua proximidade ao Presidente russo Vladimir Putin, que o condecorou com a Ordem da Amizade em 2012, desperta receios entre republicanis e democratas. A Rússia foi um dos países com que Tillerson negociou quando ocupava o cargo de diretor-executivo da empresa petrolífera Exxon, onde trabalhou 41 anos.

O passado como diretor do grupo Goldman Sachs de Steven Mnuchin, indicado para o Departamento do Tesouro, choca com a retórica anti-Wall Street de Donald Trump durante a campanha. Foi presidente de um banco considerado como “uma máquina” de execuções hipotecárias. E é criticado pelo gosto de assumir riscos e pela sua inclinação para o secretismo.

Steven Mnuchin

Steven Mnuchin

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Também Jeff Sessions, nomeado para o Departamento de Justiça, tem uma controversa história em direitos civis e imigração, uma das armas que os democratas utilizam contra ele. Também o perseguem os comentários racistas, que o impediram em 1986 de ser juiz federal.

Andrew Puzder é um rico executivo que combate o aumento do salário mínimo e outras medidas laborais de Barack Obama. É criticado por comentários politicamente incorretos sobre as mulheres e há informações de que abusou da sua ex-mulher. Foi nomeado para o Departamento do Trabalho.

Quanto a James Mattis, nomeado para o Departamento de Defesa, é o primeiro general na reforma a liderar o departamento em 65 anos e põe em causa a tradição norte-americana de controlo civil das Forças Armadas. Perseguem-no algumas declarações polémicas.

Nomeada para o Departamento da Educação, a multimilionária Betsy DeVos é acusada de ter lutado toda a vida pela privatização da educação pública e minar o investimento nas escolas do Estado. Na sua primeira audiência, evidenciou desconhecimento em temas-chave e saiu apupada pelos democratas. Também não quis afirmar com clareza que os alunos não devem levar armas para os estabelecimentos de ensino.

Betsy Devos

Betsy Devos

YURI GRIPAS/REUTERS

Ben Carson nunca ocupou um cargo público, mas foi nomeado para o Departamento da Habitação e Desenvolvimento Urbano, apesar de ter falta de experiência nesta área. Nas primárias de 2011, Rick Perry disse que o Departamento da Energia deveria acabar. Agora... foi nomeado para o liderar.

Alguns dos eleitos de Donald Trump para o seu gabinete, que não necessitam confirmação pelo Senado, também têm um historial que preocupa e suscita polémica. Stephen K. Bannon, nomeado para estratega chefe, é considerado um explosivo agitador mediático, que antes de se juntar à campanha de Trump era diretor do “BreitbartNews”, jornal online próximo da chamada alt-right (uma nova direita radical que tem o nacionalismo branco como valor fundamental). É-lhe atribuído um historial de comentários ofensivos contra os judeus, muçulmanos e afroamericanos.

Michael Flynn, indicado para assessor principal de segurança nacional, é sobretudo questionado pelas suas afirmações sobre o islamismo, religião que define como “ideologia política” e que chegou a comparar a um “cancro maligno”. Por fim, destacado para diretor da CIA, Mike Pompeo acusou no passado os líderes muçulmanos dos Estados Unidos de serem “potenciais cúmplices” do terrorismo pelo seu alegado “silêncio” contra os atentados. Defende uma política de “mão dura”.

Rick Perry

Rick Perry

MICHAEL REYNOLDS/EPA

No entanto, todas as questões éticas que levantam os nomeados de Trump já arruinaram a imagem de candidatos no passado – como, por exemplo Tom Daschle, que em 2009 recusou a sua nomeação por Obama para secretário da Saúde e Serviços Humanos, quando surgiu uma polémica por não pagar impostos, entre outras coisas, pelo privilégio de ter um carro e um condutor, escreve o “Washington Post”.

Vários críticos dizem que os atos de Trump e dos seus nomeados sugerem que esta nova administração, que prometeu “drenar o pântano” (“drain the swamp”) de Washington, em vez disso, tem apenas trazido um conjunto mais baixo de padrões.

MIKE SEGAR/REUTERS

Os republicanos têm uma grande maioria na Câmara dos Representantes, mas no Senado têm apenas 52 senadores contra 48 dos democratas. Os democratas esperam conseguir o apoio de republicanos em temas específicos para travar o avanço de algumas propostas.

No entanto estes candidatos têm praticamente os seus cargos assegurados: em 2013, foi aprovada uma regra (que ironicamente foi arquitetada pelos democratas, com objeções dos republicanos) que acabou com a capacidade dos senadores de bloquearem candidatos do Governo. Ou seja, tal significa que os nomeados de Trump podem ser confirmados com 51 votos e há 52 republicanos na câmara.

Em termos práticos, a não ser que alguns republicanos votem contra o seu partido, a maior parte dos nomeados por Trump é provável que seja aprovada. “A diferença agora é que bloquear um candidado vai implicar que os republicanos se posicionem contra o seu próprio presidente”, disse Jim Manley, antigo assessor do ex-líder minoritário Harry M. Reid. “Não tenho a certeza de que isso vá acontecer”.