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Trump mostra o (seu) caminho. “O protecionismo vai trazer-nos prosperidade e força”

Win McNamee/ Getty Images

Com a mão pousada sobre duas bíblias, a que pertenceu a Abraham Lincoln e a que a mãe lhe ofereceu quando completou nove anos, Donald J. Trump tomou posse esta sexta-feira como o 45.º Presidente dos Estados Unidos da América. O seu primeiro discurso em pouco ou nada se distanciou das promessas de campanha: arranjar emprego “para todos”, cortar nos fundos à educação e noutros pontos do Orçamento do Estado, proteger as fronteiras dos EUA, cobrar aos aliados da NATO pela proteção americana, reforçar o Exército, cortar nos impostos às empresas do país e fazer frente aos que “roubam trabalho e riqueza” a “esta grande nação”

Não foi apenas ao povo norte-americano que Donald Trump se dirigiu esta sexta-feira, no discurso da tomada de posse no memorial Lincoln, em Washington DC. Os "homens e mulheres esquecidos" pela "elite política" foram os protagonistas da apresentação do seu programa político, agora que se tornou oficialmente no 45.º Presidente dos EUA. Mas a sua mensagem também foi dirigida ao resto do mundo.

"Juiz-chefe Roberts, Presidente Carter, Presidente Clinton, Presidente Bush, Presidente Obama, meus conterrâneos americanos e povo do mundo, obrigado", foi como lançou o discurso. "Nós, cidadãos da América, estamos agora unidos num grande esforço nacional para reconstruir o nosso país e restaurar as suas promessas para toda a gente. Juntos, vamos determinar o curso da América e do mundo durante muitos, muitos anos. Vamos enfrentar desafios. Vamos enfrentar dificuldades. Mas vamos completar a tarefa. A cada quatro anos juntamo-nos nesta escadaria para proceder à transferência ordeira e pacífica do poder. [...] A cerimónia de hoje, contudo, tem um significado especial, porque o dia de hoje será lembrado não apenas pela transferência de poder de uma administração para outra ou de um partido para outro; estamos a transferir o poder de Washington DC e a devolvê-lo a vocês, às pessoas. Durante demasiado tempo, um pequeno grupo na capital da nossa nação tem repetidamente recompensado o governo enquanto as pessoas pagam a conta. Washington floresceu mas as pessoas não partilharam da sua riqueza. Os políticos prosperaram mas os empregos acabaram e as fábricas fecharam. [...] 20 de janeiro de 2017 vai ser recordado como o dia em que o povo se tornou governante desta nação outra vez. Os homens e mulheres esquecidos neste nosso país não mais serão esquecidos. Toda a gente está a ouvir-vos."

Quando o discurso terminou, pautado pelas mesmas promessas de "tornar a América grande outra vez", trazer de volta o emprego e a riqueza e lutar contra os que, a partir de fora, têm impedido que a economia norte-americana cresça ou têm ameaçado a segurança do povo americano (só referiu o "terrorismo islâmico", prometendo "erradicá-lo da face do planeta"), um militar anónimo acompanhou Barack Obama para entregar ao novo Presidente a pasta que, dentro, contém uma peça de hardware, de 7,5 cm por 12,5 cm, conhecida como "o biscoito". É nela que estão guardados os códigos para ativar as armas nucleares dos Estados Unidos. Já em privado, no final da cerimónia, Trump ia receber dos especialistas as instruções sobre como ativá-los.

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A possibilidade de Trump decidir lançar uma guerra nuclear, num momento em que assume o poder depois de ter passado a fase de transição e a campanha eleitoral a namorar a ideia de acabar com a não-proliferação, é um dos temas quentes em torno da nova presidência. "Em teoria o Presidente tem total poder para autorizar o uso de armas nucleares, mas na prática fazê-lo vai depender de uma série de fatores, incluindo de um elemento humano", explica ao "The Independent" Cristina Varriale, analista de políticas nucleares do Royal United Services Institute.

A decisão partirá sempre do Presidente Trump, embora precise da autorização do Secretário da Defesa, o general James Mattis, que pode desobedecer à ordem. Se o fizer, será acusado de insubordinação, despedido e substituído pelo seu vice, e assim sucessivamente até alguém da hierarquia acatar a ordem. Para além disso, e no caso de Trump decidir ativar os códigos, o seu vice-presidente, Mike Pence, pode declará-lo psicologicamente incapaz sob a 25.ª emenda da Constituição dos EUA, mas para afastá-lo precisará do apoio da maioria do governo. "Não há realmente freios nem contrapesos na autoridade do Presidente dos EUA para lançar um ataque nuclear", ressalta Mark Fitzpatrick, do International Institute for Strategic Studies de Wahsington, em entrevista à BBC. "Ainda assim, entre o momento em que ele autoriza um ataque e o momento em que este acontece há outras pessoas envolvidas no processo."

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Guerra aos aliados e parceiros estratégicos

O fantasma de uma guerra nuclear é provavelmente o menos provável ou realista de todos os cenários possíveis sob esta nova administração norte-americana. No seu primeiro discurso, o que Trump indicou não foi a intenção de atacar países com bombas atómicas; em vez disso, delineou um plano de ação para uma guerra diferente, que passa por "proteger" o povo americano da "devastação trazida por outros países que fabricam os nossos produtos, roubam as nossas empresas e destroem os nossos postos de trabalho". Um dos grandes alvos desta guerra comercial é a China, o país que Trump tem estado a atiçar ao longo da transição, com decisões pouco ortodoxas e anti-protocolo como a de telefonar à líder de Taiwan ou convidar uma delegação da ilha para estar presente na sua tomada de posse (os EUA não reconhecem a soberania de Taiwan desde 1979, quando assumiram a política de Uma Só China em relação ao gigante asiático e aos seus territórios separatistas). Continua a ser difícil antever o que vai acontecer às relações sino-americanas, mas é quase certo que não serão fáceis.

E a Europa? Num artigo publicado há alguns dias, a revista "Politico" referia que, neste dia de tomada de posse, "as perguntas que estão a ser colocadas nas capitais europeias são simples: é este um Presidente com quem possamos contar? Um Presidente cuja palavra é o seu vínculo? Um Presidente com quem podemos fazer negócios?" A resposta é dada de seguida: "Vamos estar em território inexplorado." "As provas, como reveladas por Trump na sua primeira entrevista com a imprensa europeia, não trazem segurança. Durante 60 anos, a NATO e a União Europeia têm estado no centro da segurança transatlântica e das relações comerciais" entre os dois lados do oceano. "A julgar pela entrevista de Trump, isto vai deixar de ser assim. O novo Presidente não pensa que a UE 'tenha assim tanta importância para os Estados Unidos' e a NATO está 'obsoleta'. Se esta retórica está fundada numa mudança da política externa americana, então estas regras e premissas que têm sustentado o mundo ocidental desde a II Guerra Mundial vão deixar de ser aplicáveis."

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Essa ideia voltou a ser reforçada pelo Presidente no seu discurso esta tarde, sem no entanto referir a NATO ou os aliados europeus. Novamente virado para "tornar a América grande outra vez", Trump referiu que "durante muitas décadas temos estado a enriquecer a indústria estrangeira à custa da indústria americana, a subsidiar exércitos de outros países enquanto permitimos o triste esgotamento do nosso exército. Defendemos as fronteiras de outras nações enquanto nos recusámos a defender as nossas. E gastámos biliões e biliões de dólares no estrangeiro enquanto a infraestrutura americana foi caindo na decadência e na ruína. Tornámos outros países ricos enquanto a riqueza, força e confiança do nosso próprio país se foi dissipando no horizonte."

A mudança das relações com a Europa poderá começar em breve e, numa primeira instância, já com o Reino Unido e de uma forma menos esperada — pelo menos a julgar pelo recente encontro de Boris Johnson com membros da equipa de transição de Trump na torre do Presidente em Manhattan e a julgar também pelo discurso ainda mais recente de Theresa May sobre como o Brexit se vai processar, a começar pela saída do país do mercado único europeu, o que poderá ditar novas relações comerciais entre os dois países.

Reforma tributária, economia ao centro

O grande plano de Trump no imediato não passa, contudo, pela política externa. Segundo várias fontes da sua equipa de transição, uma das primeiras coisas que fará a partir de amanhã, quando se instalar na Casa Branca, passa por reformular o sistema tributário dos Estados Unidos e também por fazer enormes cortes na despesa estatal, este último um plano que a revista "Vanity Fair" classifica como um "grande vão-se lixar aos democratas no valor de 10,5 biliões de dólares".

O plano, apresentado ao gabinete federal do Orçamento pelos conselheiros de Trump Russ Vought e John Gray na véspera da tomada de posse, prevê cortes na despesa do governo avaliados em cerca de 9,8 mil milhões de euros ao longo da próxima década. De acordo com o jornal "The Hill", que analisou o documento da proposta, o novo Presidente e a sua equipa querem encerrar vários programas do Departamento da Justiça que protegem vítimas de violência doméstica e fomentam o apoio comunitário de minorias; cortar o financiamento às divisões de Direitos Civis e do Ambiente e Recursos Naturais, entre eles três iniciativas de combate às alterações climáticas, o Gabinete de Eficiência Energética e o Programa de Energias Renováveis.

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Agências como o National Endowment para as Artes e o National Endowment para as Humanidades também integram a lista de departamentos e fundações a eliminar, e a Corporação de Televisão Pública será privatizada (Adeus Rua Sésamo, escreveram alguns media sobre esta alínea). "Não é claro se este plano inclui cortes na Segurança Social e no Medicaid, o programa estatal de seguros de saúde, que Trump e a sua equipa têm prometido repetidamente proteger", refere a VF, embora planeiem substituir o Affordable Care Act, ou Obamacare, por outro programa de cuidados de saúde cujos contornos ainda não são bem conhecidos. Vários media norte-americanos apontam que os cortes previstos no plano de Trump para relançar a economia representam apenas ganhos na ordem dos 0,02% do total da despesa pública atual.

No que toca aos impostos, parece já haver planos mais concretos, embora pouco claros para já e com o potencial de abrir cisões dentro do partido pelo qual o novo Presidente foi eleito. Assim que Trump começou a discursar à nação esta tarde a partir de Washington DC, o novo site da sua Casa Branca entrou no ar, encabeçado pela promessa de aplicar um "plano audaz que vai criar 25 milhões de novos postos de trabalho nos EUA na próxima década e devolver 4 pontos percentuais ao crescimento económico anual" do país.

Um dos sustentáculos desta promessa política, a par da reforma das regulações e da renegociação de tratados comerciais com outros países, é a reforma tributária. "O plano começa com uma reforma das contribuições fiscais pró-crescimento para ajudar os trabalhadores e empresas americanos a manter mais dos dólares que tanto trabalho tiveram a ganhar", lê-se no site. Esta reforma passará por baixar os impostos para cada teto tributário e para as grandes empresas norte-americanas.

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Num artigo publicado na quinta-feira, em antecipação da tomada de posse, o "The Independent" já referia que a reforma tributária será "a primeira coisa que Trump vai fazer quando assumir o poder", uma coisa que "tem o potencial de alterar totalmente a América". Porquê? "Os EUA têm um mau sistema fiscal: dois terços das empresas dos EUA não pagam qualquer taxa de imposto corporativo. Como é que Trump vai trazer esse dinheiro todo de volta que está escondido no estrangeiro será a sua primeira preocupação. E quem paga o quê na América - especialmente a 'classe média' - vai mudar com isso."

"São objetivos ambiciosos que fogem às mais ousadas expectativas de economistas do setor privado", refere o "Washington Examiner". "Para comparação, a economia dos EUA adiconou 10 milhões de empregos na última década, durante a qual se deu uma perda em massa de postos de trabalho na crise financeira. O crescimento económico anual não chegou aos 3% em qualquer momento dos mandatos do Presidente Barack Obama. Por causa do crescimento desacelerado da população, economistas da Reserva Federal não antecipam o crescimento do PIB acima dos 2% no longo prazo." Para Trump, as contas são mais simples e tangíveis: "O protecionismo vai trazer-nos prosperidade e força."

"América em primeiro lugar"

A América de Trump não se fará só de protecionismo. Numa análise lúcida e concisa do primeiro discurso do Presidente Trump, Dan Roberts do "The Guardian" aponta o renascimento dos EUA, com Trump a prometer governar os EUA como uma empresa e a acabar com a "carnificina da América" (palavras suas) executada por Obama e os seus antecessores. Quer o isolacionismo dos EUA, com um discurso em que, "mais do que nunca, deixou claro que a era de construção nacional e liderança económica dos EUA acabou" (palavras de Roberts). Quer a devolução da força à polícia e ao exército, no que Roberts sumariza numa palavra, "autoritarismo", ­e que fica notório em frases do discurso como "quando se abre o coração ao patriotismo, não há espaço para o preconceito".

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No discurso optou pela vereda da inflamação social como forma de apelar à união de "todos os americanos, negros, castanhos e brancos". "Mães e crianças estão encurraladas na pobreza dos nossos subúrbios, das nossas fábricas enferrujadas espalhadas como jazigos por toda a nossa nação. Um sistema educativo cheio de dinheiro que deixa de fora os nossos lindos e jovens estudantes, privando-os de todo o conhecimento. E o crime e os gangues e as drogas que roubaram tantas vidas e que roubaram ao nosso país tanto potencial por concretizar. Esta carnificina americana acaba aqui e acaba agora." As câmaras voltadas para Barack Obama mostraram o Presidente de partida a baixar a cabeça em jeito de desistência. "Somos uma nação e a dor destas pessoas é a nossa dor. Os sonhos delas são os nossos sonhos e o seu sucesso será o nosso sucesso. Partilhamos um coração, um lar e um destino glorioso." Pelo meio, garantiu que "o tempo das conversas ocas acabou" e que "chegou a hora de agir". Começamos esta sexta-feira a colher os frutos das suas ações.