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Saudações nazis, não obrigado

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A tomada de posse do 45.º presidente dos EUA, Donald Trump, esta sexta-feira, contará com um aparato de segurança nunca visto e uma megamarcha de mulheres. A extrema-direita estará por perto

Ao longo da Avenida Pensilvânia, em Washington, ultimam-se os palcos e adornam-se locais históricos como a Freedom Plaza e o Peace Monument. E nem a previsão de chuva intensa retira entusiasmo às equipas do protocolo.

Muito menos aos manifestantes, que tentarão perturbar esta sexta-feira a tomada de posse do 45.º Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Eu vejo as coisas assim: O Donald Trump organizou uma festa e eu quero estragá-la”, diz, ao Expresso, Eugene Puryer, elemento do A.N.S.W.E.R, um dos vários grupos com autorização para marchar paralelamente à parada presidencial, que começará às 15h locais (20h em Lisboa).

Mais de 50 congressistas democratas revelaram, entretanto, que não irão estar presentes, um “acto de gentileza”, ironizou o magnata na Fox News, esta quarta-feira. Na mesma entrevista, ele adiantou os pontos centrais do discurso inaugural: os problemas estruturais do país e a agenda para os primeiros 100 dias.

O redator é Stephen Miller, 31 anos, futuro conselheiro da Casa Branca e responsável por diversas peças de oratória “negra”, nomeadamente aquela que o presidente eleito proferiu na Convenção Republicana, no passado mês de julho, marcada pelo pessimismo em relação ao rumo do país e pelo medo das ameaças externas.

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Em termos de adesão popular, a cerimónia deverá ficar aquém dos números registados em 2008, quando cerca de dois milhões de pessoas afluíram à capital americana para assistir à entronização do primeiro chefe de Estado negro, Barack Obama. Este ano, aguardam-se 800 mil, calcula Tom Barrack, o velho amigo do multimilionário que supervisiona os trabalhos de preparação.

A marcha das mulheres

No sábado, as ruas continuarão agitadas graças à Women’s March, que contará com 200 mil americanas oriundas de vários pontos do país. O objectivo é “enviar uma mensagem forte à nova Administração, logo no seu primeiro dia em funções, de que os direitos das mulheres são também direitos humanos”, explica-nos Tina Cassidy, membro do movimento. Trump estará por perto, participando numa cerimónia religiosa na Catedral de Washington.

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Dado o ambiente tenso, as forças de segurança irão destacar um número recorde de agentes para garantir que não exista qualquer abuso nem desrespeito pela liberdade de expressão. “Essa é a marca de Washington. O povo deve ter o direito de expressar os seus pontos de vista sem qualquer sentimento de opressão, por muito ténue que seja”, disse ontem, durante uma conferência de imprensa, o chefe da polícia da cidade, Peter Newsham.

Em comunicado, o Departamento de Homeland Security (DHS) anunciou que cerca de 30 mil elementos pertencentes a diversas agências (maioritariamente do FBI e da Guarda Costeira) irão fornecer “várias camadas e dimensões de segurança”.

Embora não exista uma “ameaça específica ou credível”, o DHS revelou que “há uma atenção especial para possíveis atos de extremismo violento levados a cabo por lobos solitários, semelhantes aos ocorridos, ultimamente, em vários países europeus”.

Deploráveis

Do outro lado da barricada, surgirão eventos de apoio ao novo chefe de Estado, caso do Deploraball - um trocadilho com a palavra “Deplorable” (deplorável), que a candidata democrata às presidenciais do passado dia 8 de novembro, Hillary Clinton, usou para qualificar parte do eleitorado republicano.

A festa, cujos bilhetes se esgotaram nas primeiras horas, irá acolher milhares de pessoas, algumas delas com ligações ao movimento de extrema-direita Alt-Right (AR). Tim Treadstone, personalidade famosa das redes sociais e simpatizante do AR, seria um dos convidados de honra, mas depois de um tweet anti-semita e racista foi afastado à última da hora. “Toda a gente sabe que a maioria dos media são propriedade de judeus. Tão simples como reconhecer que os negros só são bons no basquetebol”.

Contactado pelo Expresso, Mike Cernovich, um dos organizadores da Deploraball, criticou a atitude de Tim, explicando que não era “oportuno” levantar a “questão judaica”, lembrando que as saudações nazis, um gesto popular no seio do Alt-Right, estão “expressamente proibidas”.

Sem direito a estado de graça

Apesar da tentativa de unir os americanos com um discurso de tomada de posse inspirado nos ideais dos presidentes Ronald Reagan e John F. Kennedy - um republicano e um democrata -, o magnata nova-iorquino chega ao poder com uma taxa de popularidade de 44%, quase metade da que Barack Obama recolhia há oito anos (84%).

Até George W. Bush, depois do controverso processo de recontagem de votos na Florida, em 2000, que acentuou a divisões entre esquerda e direita, assumiu a presidência com 64% de apoio dos americanos.

Em declarações ao Expresso, Bakari Sellers, ex-congressista e membro da campanha de Hillary Clinton, teme que a divisão entre os americanos aumente. “A antipatia já existia durante a campanha. Ele e Hillary foram, aliás, os candidatos mais impopulares de sempre numa corrida presidencial. A tendência manteve-se ou piorou desde 8 de Novembro. A fase de transição mostrou um Donald Trump errático e intolerante, o que gerou uma reação negativa do povo. A campanha já acabou e ele precisa de mostrar graciosidade”.