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Obama despe o fato de Presidente e agradece aos jornalistas. Os jornalistas agradecem a Trump

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Na sua última conferência de imprensa, Obama voltou a prometer que não vai ficar em silêncio se sentir que há direitos fundamentais sob ameaça e declarou ao corpo de imprensa que “a América e a democracia precisam de vocês”. Esta sexta-feira, Donald J. Trump sucede-lhe e traz com ele um futuro incerto mas que deixa antever uma relação difícil com os media “do sistema”. “O que poderia ajudar era haver menos reações histéricas aos tweets de Trump e uma cobertura mais calma e sóbria dos assuntos”

Barack Obama e Donald Trump têm mais em comum do que possa parecer à primeira vista. Trump, como Obama, não se vai mudar para a Casa Branca esta sexta-feira graças à sua experiência política ou ao seu papel enquanto líder de um partido ou de um movimento.

Trump, como Obama, não foi governador nem general. Não se tornou Presidente por acidente ou por causa da morte de um predecessor. Trump, como Obama, foi eleito pelo povo americano graças à sua personalidade, ao que simboliza (ou faz parecer que simboliza) e principalmente à sua mensagem: mudança.

Ao contrário de Trump, Obama já tinha sido senador quando se candidatou pela primeira vez à presidência. Também ao contrário de Trump — magnata do imobiliário e acessório mobiliário da televisão norte-americana há mais de uma década — poucos conheciam Obama fora dos corredores de Washington antes de concorrer às primárias democratas em 2008. Apesar disso, uma maioria confiou que ele traria mudança. Oito anos depois, o democrata conseguiu cumprir a promessa, pelo menos em parte. Quando chegou à Casa Branca, milhões de norte-americanos estavam impedidos de aceder a cuidados de saúde básicos pelo cariz cronicamente privado de um serviço que, na Europa do Estado social, foi sempre um dado adquirido. Hoje, Obama prepara-se para partir com essa grande conquista no bolso — conhecida como Obamacare e uma que, como outros avanços conquistados nos últimos anos, está sob ameaça. Para Marty Linsky, professor de políticas públicas em Harvard, “o Affordable Care Act foi sem dúvida a grande vitória política de Obama a nível doméstico”. E a par disso pôs um império constipado na rota da cura: em 2009, herdou uma economia precária em que os postos de trabalho estavam a evaporar à mesma velocidade acelerada com que a crise financeira piorava. Quando concluiu o primeiro mandato, a taxa de desemprego rondava os 10% e batia recordes em 25 anos. Hoje, Obama prepara-se para deixar a Casa Branca com essa taxa estacionada nos 4,7% após 75 meses consecutivos de crescimento do emprego, embora os salários permaneçam baixos e muitos americanos mais velhos tenham desistido de procurar trabalho.

A nível internacional, teve menos razões para cantar vitória. Apesar de destacar grandes sucessos de política externa como “a morte de Bin Laden e o acordo nuclear com o Irão”, Linsky lembra que o Presidente “deixa para trás um mundo agitado”, para além das “relações raciais nos EUA num ponto perigoso, o partidarismo num pico e o Partido Democrata em desordem”. Herdou de George W. Bush as guerras no Afeganistão e no Iraque, a prisão extrajudicial de Guantánamo, a tortura disseminada de suspeitos de terrorismo e os programas de vigilância massiva de cidadãos que reforçou antes de o delator Edward Snowden os denunciar publicamente em 2013. Envolveu-se numa guerra por procuração na Síria e esteve condenado a colher os frutos das decisões erradas do antecessor no Médio Oriente, o mais desafiante deles na forma do autoproclamado Estado Islâmico, ou Daesh, e do seu alargado espectro de ação e influência radicais.

Na semana passada, a Amnistia Internacional marcou os 15 anos da abertura da prisão na baía cubana, com um comunicado em que criticava os “dois pesos e duas medidas” dos EUA em matéria de direitos humanos. Obama tentou mas a falta de maioria democrata no Congresso impediu o encerramento de Guantánamo. Agora substitui-o um homem que, durante a campanha, chegou a defender a tortura bárbara como a que foi praticada na prisão de Cuba e noutros centros de detenção extrajudiciais dos Estados Unidos (o homem que Trump escolheu para chefiar a CIA, o general James Mattis, promete não o fazer mesmo que o Presidente o ordene).

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Os desafios persistentes que Obama não resolveu, apimentados pela proclamada era da pós-verdade e da desinformação, poderão explicar que apenas quatro em cada dez americanos sintam que estão melhor agora do que antes de Obama tomar posse, com um quarto dos inquiridos a dizer que está pior. Um terço, o número mais elevado, diz que não sentiu mudanças. Talvez por isso tenham escolhido, a seguir a um líder que representava os ideais de tolerância, cooperação, igualdade e justiça, um empresário que, apesar da riqueza acumulada, desceu ao nível dos trabalhadores comuns, prometendo-lhes emprego e prosperidade. Atendeu ao desejo de muitos e, pelo meio, lançou sem ataques xenófobos e ameaças de vária índole que, a um dia da sua tomada de posse, continuam a pôr em xeque a diplomacia internacional. Veja-se a atual guerra de palavras e ameaças com a China, incendiada esta quinta-feira com o convite que Trump endereçou a uma delegação de Taiwan para que esteja presente na cerimónia desta sexta-feira.

“Trump tem rejeitado as tradições e protocolos tanto a nível doméstico como nas relações internacionais e é improvável que este comportamento se altere quando se tornar Presidente”, diz ao Expresso Bruce Miroff, da Universidade de Albany, em Nova Iorque. “Ele parece acreditar que as tradições e protocolos são um obstáculo às suas ações ousadas e também parece não apreciar os valores e funções que essas tradições e protocolos servem.”

Miroff, como outros especialistas consultados pelo Expresso, fala num “sintoma” do que está para vir, numa altura em que governos estrangeiros - como a chancelaria alemã de Angela Merkel - continuam a declarar publicamente que não sabem o que esperar da administração Trump. “A rejeição das diretrizes diplomáticas por Trump vai causar confusão sobre como é que os EUA se relacionam com outras nações, vai conduzir a deficiências na comunicação e no entendimento mútuo entre os EUA e outros países”, diz o especialista em política norte-americana, que ao longo da carreira se tem debruçado sobre as sucessivas presidências norte-americanas. “É sintomático que Trump veja todas estas questões internacionais pela lente da supremacia americana, como quando julga os parceiros da NATO em primeiro lugar pelas suas contribuições financeiras e não pelos custos económicos para os EUA” de manter ou não o apoio aos aliados.

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Trump, dizem especialistas como Thomas W. Schwartz e legisladores como o democrata John Conyers, é o novo Richard Nixon. “Há quase quatro décadas, o ex-Presidente Nixon disse-nos que ‘se um Presidente o faz, quer dizer que não é ilegal’, comentários ecoados pelo Presidente eleito Donald Trump recentemente quando declarou que ‘o Presidente não tem conflitos de interesses’, ignorando todas as normas e costumes da presidência moderna”, escrevia há duas semanas na revista “Time” o representante do Michigan na câmara baixa do Congresso.

As semelhanças entre Trump e Nixon existem, mas é na área das relações internacionais que os dois líderes menos se tocam. “Nixon era um político profissional, particularmente embebido na política externa. Trump é provavelmente muito mais esperto e perspicaz do que muitas vezes aparenta, mas é um amador no que toca à maioria das questões de políticas públicas”, diz Schwartz, especialista em relações externas dos EUA e professor de História na Universidade Vanderbilt. “Ambos partilham a sensação de que são outsiders, apesar de Nixon ter sido vice-presidente e de ter sido político quase toda a sua vida adulta. Só que Nixon conseguia esconder muito melhor o desdém que sentia pelos seus adversários. Trump, por sua vez, parece ser melhor a nutrir a lealdade dos eleitores num ambiente extremamente polarizado. E quando Nixon era Presidente não havia tanta descrença em relação aos media mainstream como hoje, o que torna a tarefa de Trump muito mais fácil.”

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São os media e os jornalistas que, juntos, compõem o elo mais forte que liga Trump a Nixon, um dos dois únicos presidentes da História dos EUA a ser destituído do cargo, no caso de “Tricky Dicky” por ter ordenado escutas ilegais ao complexo de Watergate, então sede do Partido Democrata, denunciadas pelos jornalistas de investigação Carl Bernstein e Bob Woodward. “Já há alguns sinais de que os jornalistas estão a olhar a presidência Trump como um momento oportuno para os media, à semelhança do que aconteceu com a presidência Nixon”, explica Miroff. “Confrontados com um Presidente que despreza factos inconvenientes e a liberdade de imprensa, os jornalistas têm um incentivo para se tornarem mais proeminentes e até ‘heroicos’ ao manterem-se firmes contra Trump e o que ele representa.”

A mesma ideia é ecoada por Schwartz, que refere a importância redobrada de um corpo de jornalistas de investigação independentes e empenhados que combatam os devaneios e ações inconsequentes do futuro Presidente. “Os media enfrentam um desafio tremendo na cobertura de Donald Trump”, refere, antes de sugerir: “O que poderia ajudar era haver menos reações histéricas aos seus tweets e uma cobertura mais calma e sóbria dos assuntos, com real determinação para apurar corretamente os factos. Isso ajudaria a restaurar a credibilidade dos media e a afastar efetivamente as críticas de Trump, que lhes chama ‘mentirosos’. Ou pelo menos assim espero”.

Trump toma posse esta sexta-feira num momento em que os jornalistas, como a sociedade global, atravessam uma profunda crise. O próprio Presidente eleito não está propriamente na crista da onda, agora que três sondagens recentes mostram que, a poucos dias de se instalar na Casa Branca, a sua popularidade líquida está a bater recordes negativos. Desde que ganhou as eleições em novembro, o número de pessoas que o olham favoravelmente caiu 20 pontos percentuais para os 40%, abaixo dos níveis registados pelos seus mais recentes antecessores às datas em que tomaram posse. No dia em que Obama se preparava para prestar juramento frente ao presidente do Supremo Tribunal em janeiro de 2009, 80% dos inquiridos nas mesmas três sondagens (da CNN, da Gallup e do Washington Post) olhavam-no de forma positiva. No Twitter, como já nos vem habituando, Trump reagiu quarta-feira aos resultados dos inquéritos com uma questão pertinente: “As mesmas pessoas que fizeram as sondagens eleitorais falsas e que estavam tão erradas estão agora a fazer inquéritos sobre ratings de aprovação. Estão manipulados como dantes”. É um facto não que as sondagens tenham sido manipuladas mas que falharam por larga margem em antever a vitória de Trump.

O já famigerado dossiê que a CNN noticiou há uma semana e cujo conteúdo foi, logo a seguir, divulgado na íntegra pelo BuzzFeed só vem contribuir para esta descrença nos jornalistas. Neste momento, e na sequência dessa publicação, a equipa de transição de Trump está a analisar a possibilidade de expulsar os jornalistas da ala oeste, perto da sala oval, para outra zona do complexo presidencial, fora da Casa Branca, dificultando o acesso direto dos media aos funcionários da administração. “Se a Casa Branca de Trump cortar o fluxo de notícias internas para os media, os media podem responder com especulações danosas sobre o que se está realmente a passar lá dentro”, considera Miroff. “Gerir a imprensa de uma forma inteligente cultiva a imprensa em vez de a atacar; esse foi um ponto-chave da presidência de Ronald Reagan e da sua cobertura mediática relativamente favorável, apesar de muitos jornalistas na altura discordarem das políticas da sua administração.”

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De especulações se tem feito o debate público na última semana, depois da publicação do dossiê pelo BuzzFeed. O facto de o portal ter decidido divulgar as 35 páginas que os chefes das secretas apresentaram a Obama e a Trump há 15 dias, sem antes apurar a veracidade do que lá é dito sobre as alegadas ligações do Presidente eleito à Rússia, dividiu os media e a sociedade entre os que defendem a publicação e os que condenam o cruzar da linha da ética e deontológica. Apesar de tudo, aponta Miroff, e “embora a imprensa mainstream tenha criticado o BuzzFeed por revelar os conteúdos do dossiê, antecipo uma guerra mediática entre a imprensa e a Casa Branca de Trump, durante a qual haverá mais histórias com factos por verificar sobre a barriga negra da nova administração”. É um risco real que está nas mãos dos jornalistas evitar.

Para o especialista de Albany, os antecipados ataques aos media vão continuar a ser, como até agora, em duas frentes: por um lado porque Trump reage ferozmente a qualquer pessoa que o critique e por outro porque sabe que a sua base eleitoral é hostil para com a imprensa ‘cosmopolita’ como o New York Times ou o Washington Post. Obama, numa atitude diametralmente oposta, cultivou como Reagan as relações com a imprensa, ontem protagonista da sua última conferência de imprensa antes da passagem do testemunho a Trump. Na conversa com os repórteres, Obama defendeu a importância de uma imprensa livre e sem entraves para a proteção da democracia — um alerta que já tinha lançado há uma semana, no adeus à nação a partir de Chicago, “onde tudo começou”.

“Obama tentou alcançar dois objetivos com o seu discurso de despedida”, sublinha Marty Linsky ao Expresso. “Quis estabelecer o seu legado mas também alertar os americanos para o que ele vê como uma ameaça às normas e instituições democráticas. Só que ao tentar fazer ambos, a última parte da mensagem, a mais duradoura e de menos interesse próprio, foi relegada para segundo plano. O seu discurso vai ser entendido mais como um último comício de campanha e menos como uma reflexão sóbria sobre as suas preocupações com o futuro.”

Quarta-feira, na Casa Branca, voltou a atirar para os dois lados. Agradeceu aos jornalistas que o acompanharam nestes oito anos ao mesmo tempo que tentou alertar os americanos para a importância da liberdade de imprensa porque só ela permite “um olhar crítico sobre os poderosos”. “Vocês fizeram-no na maior parte das vezes, de uma forma que eu respeito pela sua justiça mesmo que nem sempre tenha concordado com as vossas conclusões. Ter-vos aqui neste edifício ajudou este sítio a trabalhar melhor. Mantém-nos honestos, faz-nos trabalhar com mais afinco. Isto não funciona sem uma cidadania bem informada. A América precisa de vocês, a democracia precisa de vocês.”

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Obama também falou sobre o orgulho que sente pelas filhas, a quem lembra constantemente que “a única coisa que é o fim do mundo é o fim do mundo”, e voltou a prometer que estará pronto para intervir se sentir que há direitos fundamentais em risco, nomeadamente “se houver discriminação sistemática a ser ratificada de alguma forma, ou um assalto aos direitos de voto, esforços institucionais para silenciar a dissidência ou a imprensa ou esforços para pegar em todas as crianças que cresceram aqui, na prática crianças americanas, e mandá-las para outro sítio qualquer”.

O terceiro ponto pareceu endereçar diretamente o atual braço-de-ferro entre Trump e a imprensa, um que Bruce Miroff considera que trará ao de cima o melhor do jornalismo. “Os repórteres de elite têm orgulho na integridade do seu ofício e no seu papel enquanto guardiães do poder”, diz sobre a futura cobertura da administração Trump. “Além disso, muitos jornalistas veem-no como uma ameaça aos valores e práticas democráticas”, pelo que a tendência é que investiguem ainda mais do que antes para denunciar mais do que nunca.

Foi esse o compromisso que o corpo de imprensa da Casa Branca assumiu esta semana, numa carta aberta endereçada ao Presidente eleito onde delineia oito princípios que vão orientar a sua relação com o futuro Presidente. “Nestes últimos dias antes da sua tomada de posse, achámos que podia ser útil ajudá-lo a clarificar como vemos a relação entre a sua administração e o corpo de imprensa americano. Não ficará surpreendido por saber que a vemos constrangida. Relatos nos últimos dias sobre o seu chefe de imprensa estar a considerar retirar os media da Casa Branca é o último passo num padrão de comportamento que tem persistido ao longo da campanha: proibiu organizações jornalísticas de a cobrirem; goza e ameaça jornalistas no Twitter e encoraja os seus apoiantes a fazerem o mesmo; já defendeu leis de difamação mais abrangentes e ameaçou abrir vários processos em tribunal, nenhum dos quais se materializou; tem evitado a imprensa sempre que consegue e desprezado as regras de jornalismo em conferências de imprensa; já ridicularizou um jornalista portador de deficiência porque ele escreveu algo de que você não gostou. Tudo isto, claro, é uma escolha sua e, de certa forma, um direito. Embora a Constituição proteja a liberdade de imprensa, não dita como é que um Presidente deve honrá-la; coisas como conferências de imprensa não são mencionadas no documento. Mas embora tenha todo o direito de decidir as regras do jogo para se relacionar com a imprensa, nós também temos algumas. Afinal, é o nosso tempo de antena e são as nossas colunas que quer tentar influenciar. Somos nós, não o senhor, quem decide como melhor servir os nossos leitores, ouvintes e espectadores. […] Na melhor das hipóteses, vai estar neste emprego durante oito anos. Nós andamos por cá desde a fundação da república e o nosso papel nesta grande democracia tem sido ratificado e reforçado uma e outra e outra vez. Forçou-nos a repensar as mais fundamentais questões sobre quem somos e o que estamos aqui a fazer. E por isso estamos-lhe muito gratos. Divirta-se na tomada de posse.”

(a carta pode ser lida na íntegra AQUI)

A tomada de posse de Donald J. Trump, 45.º Presidente dos Estados Unidos da América, começa ao meio-dia de sexta-feira, 20 de janeiro - 17h em Portugal Continental