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Extradição de ‘El Chapo’ na véspera do Dia Trump não foi casual, dizem especialistas

Joaquin “El Chapo”Guzman à chegada ao aeroporto de Long Island MacArthur, em Nova Iorque

U.S. Officials / REUTERS

Num país onde se somam ataques violentos e onde é evidente o forte aparato policial dos últimos dias, o final de tarde desta quinta-feira foi marcado pela entrega do líder do cartel de Sinaloa aos Estados Unidos. O repórter Hélder Gomes continua a tomar o pulso ao México, uma nação de olhos postos no arranque da Administração Trump

Hélder Gomes, no México

Na noite de quinta-feira, as televisões estão em direto para darem conta da extradição de Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán para os Estados Unidos. A notícia começara a circular ao final da tarde (noite em Lisboa) e, à hora de jantar, a Avenida Tulum é um pequeno formigueiro de autóctones e turistas, carros, táxis, motas e polícia – muita polícia.

A Avenida Tulum é a principal via da antiga cidade maia com o mesmo nome

A Avenida Tulum é a principal via da antiga cidade maia com o mesmo nome

DR

É forte o aparato policial na avenida que é a principal via da antiga cidade maia com o mesmo nome: Tulum. Em carrinhas lotadas ou a pé, mas sempre fortemente armada, a Polícia Municipal faz-se notar. Por vezes, buzina com insistência para poder circular mais livremente nas zonas de passagem de peões e bicicletas, zonas contíguas à extensa linha de restaurantes, bares e lojas de conveniência de um lado e do outro da avenida.

Nos quiosques ainda se encontra o jornal “Novedades Quintana Roo”, que escreve em manchete “Llegan federales para responder a desafio criminal”. O diário esclarece que chegaram os primeiros 300 dos 500 elementos previstos para reforçar a segurança em Cancún, na sequência dos ataques armados de terça-feira à sede da Procuradoria-Geral do Estado e a outros edifícios públicos. Tulum fica a mais de 100 quilómetros dos locais dos ataques, de que resultaram três mortos, mas, por estes dias, o México vive momentos de brasa. Recorde-se que na madrugada de domingo para segunda-feira, um homem abriu fogo numa discoteca em Playa del Carmen, situada na mesma linha costeira, provocando a morte a cinco pessoas.

DR

No final desta tarde de quinta-feira, os jornais eletrónicos divulgam um comunicado do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. No texto, lê-se que o organismo agradece ao Governo mexicano a “enorme cooperação e assistência” no processo de extradição de Guzmán. Sobre o líder do cartel de Sinaloa pendem seis diferentes acusações nos EUA, incluindo assassínios, sequestros e atos de tortura. ‘El Chapo’ é então extraditado depois de o Tribunal Superior da Cidade do México lhe ter recusado os recursos interpostos pela defesa. A extradição acontece apesar de o narcotraficante ter 10 processos pendentes no México.

A Procuradoria-Geral da República assegura, entretanto, que o processo decorreu dentro dos trâmites legais, não tendo havido qualquer incumprimento das normas internacionais com os Estados Unidos. No entanto, cedo começam a circular interpretações distintas. A rádio mexicana W Radio promove uma votação em direto e a opção mais destacada é a extradição tratar-se de uma cortina de fumo, de uma forma de o Governo mexicano desviar a atenção dos problemas do país. Também não é indiferente para muitos que a extradição aconteça na véspera da tomada de posse de Donald Trump como 45.º Presidente dos Estados Unidos.

“Pode ser que exista um acordo que desconhecemos”, começa Vishnu Caballero por sugerir em declarações ao Expresso. Nascido na Cidade do México, mas a viver e a trabalhar em Tulum, o funcionário hoteleiro sugere que “se ‘El Chapo’ tem uma influência tão grande no mundo e na forma como controla os seus negócios, também pode ser que controle parte do que é a América e do que virá a ser a governação do senhor Trump”.

Contactado pelo canal de televisão mexicano Foro TV, o especialista em segurança Alejandro Hope afirma que “não é casual a data” da extradição. Segundo ele, as autoridades mexicanas quiseram evitar fazê-lo antes de Trump tomar posse, “não lhe quiseram dar um presente”. A tese do analista Federico Berrueto, ouvido pela agência de notícias EFE, vai no mesmo sentido: o facto de a entrega ocorrer nas últimas horas da Administração Obama “é um sinal de reconhecimento e de cortesia” com o Presidente que cessa funções, mas também “uma chamada de atenção” para Trump.

Para Berrueto, foi uma forma de enviar a mensagem de que “é necessário trabalhar muito estreitamente, com muito cuidado e muito respeito”. “Talvez o senhor Trump não tenha tido a sensibilidade para pensar que o tema do narcotráfico não é apenas um problema das drogas, das armas e da violência, mas também do terrorismo. Talvez não tenha pensado que os grupos terroristas podem usar os cartéis de drogas como forma de entrar nos Estados Unidos”, conclui o analista.