Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Pintar o muro do México como o muro de Berlim

MARK RALSTON / AFP / Getty Images

Donald Trump toma posse esta sexta-feira como o 45.º Presidente dos Estados Unidos da América. A cerimónia será um acontecimento mundial, mas poucos países a seguirão com tanto interesse como o México. O jornalista Hélder Gomes está no país mais hostilizado por Trump para perceber como os mexicanos vivem estes dias

Hélder Gomes, no México

Playa del Carmen começou esta semana com um tiroteio. Na madrugada de domingo para segunda, um homem abriu fogo na discoteca Blue Parrot, provocando a morte de cinco pessoas e fazendo ainda 15 feridos. A cidade do sudeste do México, localizada a sul de Cancún, acolhia a última noite da edição do 10.º aniversário do festival de música eletrónica BPM, escassos dias depois de anunciadas duas extensões internacionais do evento: Brasil e Portugal.

Natural de Veracruz, no Golfo do México, Rene Huerta Heredia trabalha em Playa del Carmen há 17 anos. É fotógrafo no restaurante Las Piñatas, junto à praia. “O tiroteio apanhou-nos de surpresa, porque Playa del Carmen sempre foi uma cidade muita tranquila. Há quem queira compará-lo com o que se passou em Paris [no Bataclan, em novembro de 2015] e numa discoteca dos Estados Unidos [em Orlando, em junho de 2016]. Mas eu sinto que é um problema local de drogas, nada mais”, adianta ao Expresso.

Rene Huerta Heredia trabalha em Playa del Carmen há 17 anos

Rene Huerta Heredia trabalha em Playa del Carmen há 17 anos

A insegurança e a violência, frequentemente associadas a cartéis de droga, são dois dos problemas que Heredia deteta num país que aguarda, com particular atenção, a tomada de posse de Donald Trump, esta sexta-feira. Sobre o assunto, não tem dúvidas: “Trump sempre nos criticou. Trump não quer mexicanos. Mas deve entender que muita da economia dos Estados Unidos depende da mão de obra mexicana. Os mexicanos, como os chineses ou os indianos, são a mão de obra para aquilo que os americanos não querem fazer.”

Heredia também não poupa o Presidente do seu país. “Enrique Peña Nieto tem sido um fantoche, uma pessoa que se deixa manipular. Desde o início que não tem conseguido governar o México. Donald Trump manipula-o à sua vontade. Trump insultou os mexicanos, disse que somos todos delinquentes e violadores e que levamos todos os problemas para os Estados Unidos. Dias depois, veio ao México e Peña Nieto nem reclamou.”

No poder desde 1 de dezembro de 2012, Peña Nieto faz parte de uma extensa galeria de Presidentes mexicanos ligados ao Partido Revolucionário Institucional (PRI). Aliás, entre 1929 e 2000, todos os candidatos do partido – ou dos partidos que lhe deram origem – alcançaram a presidência do país.

Também Franz Gomez Franco, de 45 anos, se mostra crítico em relação a Peña Nieto. “O destino do México está nas mãos de um homem de negócios sem uma ideia verdadeira de política e isso pode afetar-nos economicamente”, conta ao Expresso.

Gomez Franco faz parte, com outros 19 artistas, de um projeto da cidade de Guadalajara, na parte ocidental do México

Gomez Franco faz parte, com outros 19 artistas, de um projeto da cidade de Guadalajara, na parte ocidental do México

“Ninguém sabe de que forma os mexicanos podem ser afetados pelas medidas económicas. Os preços da gasolina subiram recentemente por pura especulação. Depois do dia 20, ninguém sabe o que se vai passar”, diz o pintor e engenheiro mexicano. “Para já, podemos lançar ideias de força ao povo e a melhor maneira é a arte”. E é por isso que Gomez Franco faz parte, com outros 19 artistas, de um projeto da cidade de Guadalajara, na parte ocidental do país.

“México Saluda a Trump” é uma forma irónica de dar as boas-vindas ao 45.º Presidente dos EUA. É uma exposição de pintura com obras de grande formato, com dois metros por dois metros cada uma, que será inaugurada precisamente no dia 20. As duas dezenas de artistas partilham “uma postura política adversa ao muro”, o muro que já existe em cerca de 1000 quilómetros da fronteira e que Trump promete concluir até cobrir os mais de 3000 quilómetros que separam o México e os Estados Unidos.

A conclusão do muro será “um retrocesso à liberdade”, vaticina Gomez Franco, que acrescenta tratar-se de “uma ideia ridícula de alguém que não sabe nada de política, um homem de negócios que se transformou num Presidente com uma mala que contém os códigos nucleares.” Já a exposição é “uma maneira de dizer ‘não’ a estas ideias retrógradas porque o país necessita de ideias fortes para despertar”.

A exposição tem o objetivo de “abrir as consciências no México”, sintetiza o artista, que explica a obra que vai apresentar e que mostrou ao Expresso: “como não quis fazer um retrato de Trump, apropriei-me da ideia do hino nacional de Jimi Hendrix.” No Festival de Woodstock, em 1969, o músico tocou uma versão muito particular do hino dos Estados Unidos, com um solo de guitarra com muita distorção e sons alusivos a rockets e a bombas.

O Hendrix de Gomez Franco está “revestido plasticamente com ideias repressivas, símbolos da extrema-direita como o Ku Klux Klan ou do conservadorismo como o Tea Party e ainda corporações icónicas como a cadeia de lojas Kmart e a junk food do McDonald’s.” Se a conclusão do muro avançar mesmo, o artista deixa uma sugestão: “Cobri-lo com obras de arte, como se fez com o muro de Berlim.”